segunda-feira, 4 de abril de 2016

O apóstolo Paulo vendia lenços consagrados para curar os enfermos?

      Um pseudoapóstolo tupiniquim disse em resposta á uma pastora, que tem base bíblica para vender indulgências modernas, como os famigerados "lencinhos ungidos". Mas antes de prosseguir, sugiro que para entender a história, leia esse artigo

       Bom, agora que voltamos e, você está de boca aberta com tanta bobagem, perguntamos: existe base bíblica para defender a venda de "lencinhos ungidos"? O texto base usado pelos pregadores da prosperidade é Atos 19, onde se diz:

"E Deus pelas mãos de Paulo fazia milagres extraordinários, de sorte que lenços e aventais eram levados do seu corpo aos enfermos, e as doenças os deixavam e saíam deles os espíritos malignos." (Atos 19:11,12)

     Esse texto pode ser usado para defender essa prática, muito comum nessas denominações? Vamos fazer uma análise sistemática desse versículo, desmascarando que ao contrário do que eles pregam, jamais foi a intenção, nem de Paulo, nem de nenhum outro apóstolo dar brecha para que essa abominação atualmente fosse feita.

Pano de Fundo

      Paulo, após sua miraculosa conversão e chamado, se tornou um pregador itinerante. Porém, exercia trabalhos manuais, como a fabricação de tendas para se sustentar e não ser pesado à nenhuma igreja (At. 18.3). Paulo era um apóstolo e trabalhador incansável, que, quando não estava exercendo seu ofício, estava pregando o evangelho. Durante o período em que passou em Éfeso, um pouco mais de dois anos, Paulo exerceu grande influência e obteve significativo êxito, que foram relatados por Lucas:


“Todos os que habitavam na Ásia ouviram a palavra do Senhor Jesus, tanto judeus como gregos” (19.10); “assim, a palavra do Senhor crescia poderosamente e prevalecia” (19.20).

      "Em Éfeso, ele desempenhou o ministério na sinagoga durante cerca de três meses, e depois passou a pregar no edifício de Tirano durante dois anos. Era uma característica de Paulo levantar cedo e executar a tarefa do dia com as suas mãos — provavelmente junto com Aqüila em sua profissão de fazer tendas para sustentar a si mesmo e aos seus colegas (At. 20.34) — e depois pregar e ensinar durante cinco horas enquanto dispunha do uso do edifício. Evidentemente, ele passava as noites ministrando aos convertidos, pois lembrou aos anciãos de Efeso: "... durante três anos, não cessei, noite e dia, de admoestar, com lágrimas, a cada um de vós” (At. 20.31). Paulo foi um dos mais consagrados e abnegados pregadores de todos os tempos. Uma vez, ele disse: “eu tenho trabalhado mais do que eles” (2 Co 11.23, Phillips). Sua vida e sua obra são um desafio a todo ministro da atualidade que foi chamado por Deus."[1]

       Essa pregação no edifício de Tirano continuou pelo espaço de dois anos. Como aconteceu em Corinto, o ministério de Paulo era dividido em duas partes. Em Corinto, o apóstolo discutiu na sinagoga todo sábado (At. 18.4), durante um desconhecido período de tempo, e ensinou a Palavra de Deus na casa de Justo durante um ano e meio (At. 18.7-11). 

       Analisando a narrativa do livro de Atos dos apóstolos, alguns dos métodos usados podem parecer um pouco surpreendentes para nós. Mas temos que term em mente, que Atos é um livro descritivo, não normativo. E nem tudo que ocorreu naquele momento ímpar da história, ocorrerá necessariamente nos dias de hoje. O texto diz que do corpo de Paulo, eram levados lenços — lenços usados na cabeça e aventais (lit., aventais dos trabalhadores).[2] Estas peças de tecido, que Paulo usava no trabalho, não produziam, de fato, nenhuma cura. Mas Deus pode se ajustar à demanda humana por alguma coisa tangível, pois até o Senhor Jesus usou terra e saliva (Jo. 9.6) como amparos materiais para uma fé frágil demonstrada pelas pessoas (cf. At. 5.15; Lc. 8.44). Deus pode trabalhar com ou sem materiais intermediários. Neste caso, as pessoas não só eram curadas das doenças, como os demônios eram expulsos. Devemos entender essas atitudes, dentro de um contexto judaico, onde sacrifícios, atos proféticos e outras coisas palpáveis eram comuns como forma muito mais didática do que dogmática em si. 

      Porém, em momento nenhum, a igreja primitiva usou desses recursos para ganhar dinheiro ou fazer campanhas onde esse material fosse utilizado como elemento místico, como vemos no atual cenário das igrejas neopentecostais. E tem mais: os reformadores lutaram ferozmente contra esse tipo de misticismo durante a Idade Média, abrindo os olhos dos fiéis contra qualquer tipo de doutrina que os levasse à idolatria, veneração de relíquias, ou elementos dotados de "poderes", como água benta e ossos de santos. Por mais que a situação estivesse crítica naquele período, os proponentes da atual venda de indulgências estão conseguindo superar a própria igreja de Roma em seus devaneios heréticos. (Veja aqui, aqui e aqui.)
       
       Interessante é que os modernos "apóstolos" se acham no direito de repetir aquilo que os verdadeiros apóstolos de Cristo faziam, porém, não os imitam nas questões concernentes à viver uma vida de abnegação e renúncia, se afastando da cobiça e da inveja, mas pelo contrário, se degladiam  por horários de TVs superfaturados e só envergonham o Verdadeiro Evangelho do Nosso Senhor Jesus Cristo. Vender lencinho "ungido" é fácil. Difícil mesmo é colocar a própria vida em risco por causa do Evangelho, como Paulo e os demais fizeram. Defender a Verdade das heresias que impregnam as denominações. Se levantar no meio de uma geração corrupta e perversa para desmascarar a hipocrisia, a mentira e o engano. Isso sim é que é difícil. E, já que gostam de imitar o feitos do verdadeiros apóstolos, porque também não são arrebatados de uma nação para outra para a divulgação mais rápida do evangelho, como ocorreu com Felipe (At. 8.39), que nem apóstolos era, ao invés de comprar jatinhos de luxo?

       Mesmo diante desses exemplos, temos que entender que jamais Paulo ou qualquer apóstolo vendeu esses lenços ou, muito menos, construiu impérios e fortunas através desse ato. Muito pelo contrário, morreram sem honras humanas ou riquezas, mas ajuntaram tesouros no céu, "onde a traça e a ferrugem não destroem, e onde os ladrões não arrombam nem furtam". (Mateus 6:20)

     Os defensores dos vendedores e cambistas do templo, tentando defender o indefensável, vão dizer que esses lenços não são vendidos, mas são doados para aqueles que depositam sua "oferta" no "altar de Deus". Bom, chamem do que quiser, mas se um valor é estipulado sobre determinada mercadoria, e o freguês paga aquele valor determinado, ele está de fato comprando o referido produto. E não adianta mentir: eles vendem sim, e de maneira descarado e absurda, tentando enganar os mais incautos de que receberão o lenço em troca de uma oferta. 


        Para finalizar, deixo aqui algumas questões relevantes levantadas pelo Pastor Renato Vargens em seu Blog:

1-) O livro de Atos é um livro histórico, e não doutrinário, além disso não encontramos nas epístolas bem como em todo Novo Testamento orientações por parte de Jesus e dos apóstolos sobre a necessidade de ungir lenços, aventais e semelhantes.

2-) O ocorrido em Atos 19:11-12, foi a narrativa  de que algumas pessoas tiveram contato com as peças de roupa de Paulo sendo curadas de suas enfermidades. Ao ler o texto sou tomado pela convicção que Paulo não tomou a iniciativa de ungir lenços e aventais. Na verdade, o texto nos trás a ideia que isso aconteceu de forma espontânea e não dogmática.

3-) Embora Deus tenha curado inúmeras pessoas através dos lenços e aventais de Paulo, conforme é mencionado no capítulo 19 de Atos, em todo o Novo Testamento não encontramos nenhuma permissão ou ordem nas Escrituras ensinando ou orientando a prática de distribuição de objetos ungidos. Ademais, vale a pena ressaltar que do ponto de vista hermenêutico não devemos elaborar ou instituir doutrinas em textos isolados, o que é o caso de Atos 19.

4-) Em nenhum lugar no Novo Testamento, encontramos Jesus ou os apóstolos orientando a igreja a ungir objetos.

5-) Em Atos 19, vemos que os lenços foram levados aos enfermos e não vendidos ou comercializados, isto é, não existiu o comércio dos lenços ou dos aventais ungidos, como acontece nos dias de hoje, mesmo porque, a  prática da simonia era fortemente rechaçada pelos apóstolos e igreja.

6-) Não encontramos nos reformadores nem tampouco na Reforma protestante o incentivo aos crentes possuírem objetos mágicos. Na verdade, vemos os reformadores condenando o uso de utensílios como instrumentos de bênçãos e milagres.

     Diante do exposto, creio que é indefensável, com base bíblica, a venda de lenços ungidos ou similares e, que somente através de uma distorção do texto é possível defender essa prática em nosso meio. 

Soli Deo Gloria.

Prof. Saulo Nogueira

Referências:
[1] Comentário Bíblico Beacon, João à Atos, Vol. 7. 1ª edição - Rio de Janeiro: CPAD, 2006. pg. 353
[2] Ibid. pg. 354
Dicionário Bíblico Wyclif.