segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Por que Deus endureceu o coração de faraó?

“Disse mais o Senhor a Moisés: "Quando você voltar ao Egito, tenha o cuidado de fazer diante do faraó todas as maravilhas que concedi a você o poder de realizar. Mas eu vou endurecer o coração dele, para não deixar o povo ir. ” (Êxodo 4:21) (NVI)

     Alguns críticos que estudam essa passagem de forma isolada e superficialmente, argumentam que Deus é um tirano cruel e faz com que as pessoas obrigatoriamente lhe desobedeça, com o simples intuito de puni-las e mostrar a Sua soberania de forma despótica. Nada mais longe da verdade! Um estudo mais acurado, demonstra que, na realidade, graças à sua omnisciência, Deus conhece os sentimentos mais íntimos de todas as pessoas e todas as coisas estão nuas e patentes diante dos Seus olhos. (cf. Sl:139; Hb. 4:12-13).

       Podemos começar argumentando que, Faraó, pelo que podemos perceber por várias passagens bíblicas, não era inocente ou piedoso, mas um homem obstinado e de dura cerviz, responsável pela opressão ao povo de Israel. Além disso, o povo egípcio através do governo dos seus faraós, que se consideravam autênticos “deuses”, escravizara durante mais de 400 anos o povo hebreu, e foram responsáveis por inúmeras mortes, como no caso da ordem para matar todos os bebês hebreus no momento em que nascessem.

     Existem várias linhas interpretativas concernente ao endurecimento do coração de Faraó, mas praticamente todas elas convergem para a mesma direção: a Soberania de Deus e a responsabilidade humana. Tanto Teólogos de linha arminiana, como os de linha calvinista tentam equilibrar a questão, demonstrando que em última análise, nos termos mais abrangentes possíveis, toda condição humana está sob o controle de Deus (cf. Is: 45.7)  Devemos analisar essa questão, em três estágios [1]: Primeiro, a pessoa endurece o coração conscientemente:
“Mas quando o faraó percebeu que houve alívio, obstinou-se em seu coração e não deu mais ouvidos a Moisés e a Arão, conforme o Senhor tinha dito. ” (Êxodo 8:15) (NVI) 
“Mas também dessa vez o faraó obstinou-se em seu coração e não deixou que o povo saísse. ” (Êxodo 8:32) (NVI) 
“Quando o faraó viu que a chuva, o granizo e os trovões haviam cessado, pecou novamente e obstinou-se em seu coração, ele e os seus conselheiros. O coração do faraó continuou endurecido, e ele não deixou que os israelitas saíssem, como o Senhor tinha dito por meio de Moisés. ” (Êxodo 9:34-35) (NVI)
       Faraó decidiu resistir e se opor à vontade de Deus e, assim, tornou o próprio coração mais inflexível. Segundo, em consequência disso, o coração se endurece pela ação das leis psicológicas (7.13-14,22; 9.7,34-35). 
“Contudo, o coração do faraó se endureceu e ele não quis dar ouvidos a Moisés e a Arão, como o Senhor tinha dito. Disse o Senhor a Moisés: O coração do faraó está obstinado; ele não quer deixar o povo ir. ” (Êxodo 7:13-14) (NVI) 
“Mas os magos do Egito fizeram a mesma coisa por meio de suas ciências ocultas. O coração do faraó se endureceu, e ele não deu ouvidos a Moisés e a Arão, como o Senhor tinha dito. ” (Êxodo 7:22) (NVI) 
“O faraó mandou verificar e constatou que nenhum animal dos israelitas havia morrido. Mesmo assim, seu coração continuou obstinado e não deixou o povo ir. ” (Êxodo 9:7) (NVI) 
“Quando o faraó viu que a chuva, o granizo e os trovões haviam cessado, pecou novamente e obstinou-se em seu coração, ele e os seus conselheiros. O coração do faraó continuou endurecido, e ele não deixou que os israelitas saíssem, como o Senhor tinha dito por meio de Moisés. ” (Êxodo 9:34,35) (NVI) (grifo meu)
    Terceiro, quando Deus viu que Faraó estava determinado a resistir, Ele mesmo endureceu o coração do monarca (7.3; 9.12; 10.1,20,27; 14.4,8). Tratava-se de julgamento divino sobre o indivíduo (9.11,12), o qual enquanto tivesse vida, coragem física e poder humano continuaria resistindo a Deus. [2] Certamente não devemos dizer que Deus leva o homem a ser mau. Faraó era responsável por sua má escolha e por afastar seu coração de Deus. Porém, quando a pessoa fixa sua vontade contra Deus, então Deus a entrega aos desejos ignóbeis que existe em seu coração (Rm 1.24); “como eles se não importaram de ter conhecimento de Deus, as sim Deus os entregou a um sentimento perverso” (Rm 1.28). Deus mostra misericórdia a quem se entrega a Ele e endurece a quem o resiste (Rm: 9.18). Talvez o julgamento de Deus coloque alguns que se afastam da luz em certo lugar onde eles não podem mais se voltar para Ele (Hb 10.26-30). Deus concedeu vida e habilidade para a resistência de Faraó a fim de fazer maior demonstração de seu poder e glória. [3] Deus só endurece o coração de quem primeiro endurece o próprio coração. Ele ocasiona este endurecimento mediante intervenção extraordinária ou pelas respostas comuns às experiências da vida. [4]

       O envolvimento pessoal e direto do Senhor nos negócios dos homens para que seus propósitos fossem realizados é revelado na maneira como Deus informou Moisés sobre o que aconteceria. Faraó também foi advertido de que a sua recusa traria juízo sobre ele (v. 23). Anteriormente fora dito a Moisés que Deus estava convicto da recusa de Faraó (3.19). Essa interação entre o endurecimento da parte Deus e o endurecimento do coração da parte de Faraó deve ser mantida em equilíbrio. Dez vezes (4.21; 7.3; 9.12; 10.1,20,27; 11.10; 14.4,8,17) o registro histórico observa especificamente que Deus endureceu o coração do rei, e dez vezes (7.13-14,22; 8.15,19,32; 9.7,34-35; 13.15) o registro indica que o rei endureceu o seu próprio coração. O apóstolo Paulo usou esse endurecimento como um exemplo da vontade inescrutável de Deus e seu absoluto poder para intervir como lhe apraz, obviamente, porém, nunca sem perder a responsabilidade pessoal pelas ações tomadas (Rm 9.16-18). O enigma teológico levantado por essa interação da ação de Deus com a ação de Faraó somente pode ser resolvido pela aceitação do relato da maneira como se encontra e refugiando-se na onisciência e onipotência de Deus, que planejou e realizou a libertação de Israel do Egito; ao fazer isso, Deus também de Faraó. Em cada ocasião é registrado: "como o SENHOR tinha dito". Portanto, o que aconteceu provém de duas perspectivas intimamente relacionadas: 

1) Deus estava cumprindo o seu propósito por meio de Faraó; e 
2) Faraó foi pessoalmente responsável pelas suas ações, como se vê no v. 13. [5]

       Após essa análise, gostaria de acrescentar à essa conclusão, um fato trazido á tona pelo arqueólogo bíblico, Randall Price em sua maravilhosa obra[6], que nos ajuda a elucidar ainda mais essa questão:

A pesagem do coração
      “Descobertas egípcias nos proporcionam uma fascinante explicação sobre como Deus pode ter decidido “endurecer” o coração de Faraó. Na teologia do antigo culto egípcio à morte, conforme descrito no egípcio “Livro dos Mortos, ” depois da morte, o falecido embalsamado e colocado na tumba tinha que enfrentar um julgamento na Sala do Julgamento para determinar sua culpa ou inocência. Se julgado culpado seu destino era a destruição; se inocente, então a vida eterna com suas recompensas. Para passar por este julgamento, o morto tinha que negar uma longa lista de pecados que era lida contra ele e com êxito declarar que era puro. Este ato era chamado de “Confissão Negativa, ”[7] e enquanto estava sendo conduzido, o coração do falecido (descrito num canopo) estava sendo pesado em escalas de julgamento contra o padrão da verdade (representado pelo símbolo dos hieróglifos para pena). Este julgamento é vividamente representado num mural pintado conhecido como “a pesagem do coração. ” 

Escaravelho de pedra
       Contra o testemunho do falecido, seu coração confessaria a verdade, mostrando que sua Confissão Negativa era uma mentira. O coração, portanto, subiria as escalas em favor do julgamento que resultaria em destruição. Uma vez que todos os homens pecam e que a inclinação do coração é confessar este pecado, os engenhosos egípcios desenvolveram um meio de evitar que o coração contradissesse a Confissão Negativa. Eles fizeram isso escrevendo encantamentos sobre uma imagem de pedra de seus escaravelhos sagrados que eram entalhados na forma de um coração. [8] Este coração em forma de escaravelho de pedra era então colocado dentro ou em cima da cavidade do peito durante a mumificação (um fato revelado por raios-X de múmias egípcias).[9] Vários encantamentos que ordenavam ao coração: “não se rebele contra mim” ou “não testemunhe contra mim” transferiam o caráter do coração de pedra para o coração de carne no pós-túmulo, tornando-o “duro” e incapaz de falar.[10] Este ritual de “endurecimento do coração” revertia a função natural do coração flexível e resultava na salvação, desde que o falecido fosse agora declarado sem pecado através do silêncio.[11]

       Todavia, quando Deus “endureceu” o coração de Faraó, que como um deus em si mesmo representava a salvação do Egito, Ele reverteu a esperança teológica de todos os egípcios. Este "endurecimento" resultou na incapacidade de Faraó naturalmente responder às assustadoras pragas, e assim pará-las, rendendo-se à solicitação de Moisés. Portanto, ao invés de o “endurecimento do coração” trazer salvação, ele trouxe destruição. [12] Assim, a arqueologia proveu nova perspectiva de um conceito teológico difícil dando-nos o cenário apropriado e o esquema das crenças egípcias que, através de Moisés, Deus queria confrontar. ” 

       Interessante como um maior aprofundamento na Palavra de Deus e a busca pelo seu entendimento nos traz paz e um maior conhecimento de Deus e de sua vontade.

Maranata!

Prof. Saulo Nogueira.

Referências:

[1] Comentário Bíblico Beacon. Pentateuco. Rio de Janeiro: CPAD, 4ª edição, 2012. pg. 153-154.

[2] EXELL, Joseph S. “Homiletical Commentary on the Book of Exodus”. The Preacher’s Complete Homiletical Commentary on the Old Testament. Nova York: Funk & Wagnalls, 1892. Pg. 139.

[3] CONNELL, J. Clement. “Exodus.” The New Bible Commentary. Editado por R. Davidson. Grand Rapids: William B. Eerdmans Publishing Company, 1954. Pg.110.

[4] JOHNSON, Philip C. “Exodus.”The Wycliffe Bible Commentary. Editado por Charles F. Pfeiffer e Everett F. Harrison. Chicago: Moody Press, 1962. Pg. 58.

[5] Bíblia de Estudo John MacArthur. 

[6] Price, Randall. Arqueologia Bíblica. Rio de Janeiro: CPAD, 5ª edição, 2005. pg. 101-102.

[7] F. W. Read, Egyptian Religion and Ethics (Londres: Watts & Company, 1925), pg. 110, 111.

[8] Para a completa documentação deste ritual, vide A. Hermann, “Das Steinhartes Herz”, Jahrbuch für Antike und Christentum, volume 4 (M unster: Aschendorffsche Verlagsbuchandlung, 1961), pg. 102, 103.

[9] James E. Harris e Kent R. Weeks, X-Raying the Pharaohs (Nova York: Charles Scribners Sons, 1973), pg. 49.

[10] Para outros encantamentos vide J. Zandee, Death As an Enemy (Leiden: E. J. Brill, 1960), pg. 259-262.

[11] E. A. W. Budge, Egyptian Magic (Londres: K. Paul, Trench, Tribner & Company, 1899), pg. 35-37.

[12] Para completa análise e defesa desta posição sobre as narrativas das pragas do Êxodo, vide Gregory K. Beale, “The Exodus Hardening Motif of YHWH as a Polemic”, tese de Mestrado em Teologia, Dallas Theological Seminary (Dallas, Texas, 1976), especialmente as pg. 46-52.