terça-feira, 10 de março de 2015

Para que serve a exegese Bíblica?

       A interpretação incorreta de passagens bíblicas pode trazer sérios prejuízos para aqueles que prezam pela sã doutrina e, em alguns casos, pode até comprometer o verdadeiro sentido e a intenção do autor criando uma dificuldade interpretativa ou até mesmo uma heresia. Daí a grande importância da exegese bíblica. Mas o que significam exegese ?

   "Todas as heresias e aberrações doutrinárias são provenientes de interpretações errôneas da Bíblia e significados diferentes às palavras básicas da fé cristã. O sentido correto de um texto só é possível mediante a aplicação correta da exegese e da hermenêutica. O exegeta sincero procede conforme certos princípios básicos para uma análise honesta do texto. Para a interpretação é necessário considerar o sentido contextual, analógico e histórico. O vocábulo "exegese" vem do grego exegesis, duas palavras ek e egeomai, que juntas significam: "extraio, tiro, saco", de sacar, conduzir para fora. A "exegese" é a ciência da interpretação, é a extração do autêntico sentido da palavra. É a análise do que a palavra diz, e não do que eu quero que ela diga. As doutrinas bíblicas são de dentro para fora. Isso se chama exegese. As dos homens, são de fora para dentro, a eisegese. Esse último os cristãos ortodoxos rejeitam, mesmo que apareçam travestidas de roupagens bíblicas."[1]

       "Podemos afirmar também que "a exegese é o estudo cuidadoso e sistemático da Escritura para descobrir o significado original que foi pretendido. (...) É a tentativa de escutar a Palavra conforme os destinatários originais devem tê-la ouvido; descobrir qual era a intenção original das Palavras da Bíblia" [2]

        Quando lemos um capítulo ou versículos da Bíblia, por mais que saibamos que aquela passagem se destina também á nós hoje (pois a Palavra de Deus é viva), temos que entender que ela tinha um objetivo, um destinatário, um propósito um pouco diferente da nossa realidade. Tirar um texto do seu contexto pode acarretar em um sério problema interpretativo. Por exemplo: algumas pessoas pegam sua Bíblia e pedem á Deus que falem com elas. Abrem aleatoriamente em qualquer versículo, completamente descontextualizado e acreditam que a sua interpretação pessoal ou sua "eisegese" seria a resposta de Deus para os seus problemas. Conta-se que certo cristão pegou sua Bíblia e foi ver o que Deus tinha para ele. Abriu aleatoriamente e caiu em Mt. 27.5:  "E ele, atirando para o templo as moedas de prata, retirou-se e foi-se enforcar."
Pensou: bom, vamos ver o que Deus quer falar. E abriu novamente sua Bíblia. O texto que saiu foi Lc. 10.37: "E ele disse: O que usou de misericórdia para com ele. Disse, pois, Jesus: Vai, e faze da mesma maneira."

       Será que Jesus queria que o irmão fosse se enforcar como Judas? Ou corremos sérios riscos quando descontextualizamos os versículos Bíblicos? Não podemos colocar as nossas emoções, sentimentos e vontades acima da exegese."O que fala a mim" ou "o que me toca" são preocupações egocêntricas de quem quer ver na Palavra de Deus uma caixinha de promessas, pronta para tirarmos bênção e prosperidade, sem entender que existe um "se" por trás dessas dádivas de Deus. A "caixinha de promessas" só mostra o que você vai receber, mas não traz as condições para isso.

A Bíblia e as seitas

       De todos os livros do mundo, creio que a Bíblia seja o mais maltratado, pois muitas pessoas usam de passagens isoladas para construir doutrinas e seitas. As inúmeras seitas cristãs ou igrejas pseudocristãs se utilizam de interpretações equivocadas para embasar as mais variadas heresias e distorções. Por exemplo: algumas igrejas neopentecostais se utilizam do Antigo Testamento para criar as mais absurdas campanhas em seus templos, ignorando completamente a sociedade, cultura, dispensação, cronologia e propósitos divinos para a ocasião. Se utilizam de "atos proféticos" e de elementos sincréticos, como Arca da Aliança, Candelabro, Talit, kipá desassociando esses elementos de seus reais propósitos e fazendo um tremendo malabarismo e uma péssima exegese para tentar se utilizar desses recursos na atual dispensação. 

       Seitas como os testemunhas de Jeová e os mórmons, além de usarem de uma falsa interpretação, mutilam o texto bíblico ou complementam com outras literaturas "divinamente" reveladas. Os espíritas vão além, criando a sua própria interpretação dos textos sagrados, negligenciando completamente a boa hermenêutica. E, ainda grupos ortodoxos, que por falhas na observância das regras de exegese, criam doutrinas que escravizam seus membros, proibindo coisas que a Bíblia não proíbe ou colocando fardos pesados sobre seus membros, baseados em opiniões pessoais, doutrinas humanas, falsa piedade ou interpretações particulares.

E o Espírito Santo? Como que Ele ilumina os cristãos para compreenderem a Palavra?


       "Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente. Mas o que é espiritual discerne bem tudo, e ele de ninguém é discernido. Porque, quem conheceu a mente do Senhor, para que possa instruí-lo? Mas nós temos a mente de Cristo.(1 Coríntios 2:14-16)


       Um professor Universitário de Teologia pode compreender perfeitamente toda a Doutrina Bíblica mas ser um ateu. Ele pode saber usar todas as regras de Hermenêutica  e exegese, conhecer as línguas originais, saber interpretar corretamente as parábolas, símiles, alegorias e mesmo assim ser um descrente inveterado. Ele pode fazer aquilo que a nossa razão e inteligência permite, mas se ele não tiver uma disposição intelectual para aceitar aquilo que ele conhece, ou seja, permitir que o Espírito Santo, o ilumine para aplicar em sua vida o conhecimento divino, ele não passará de um mero entendedor de regras.  

       "Não há dúvidas que a Bíblia exige um conjunto diferente de regras. É preciso que o intérprete seja iluminado espiritualmente para que possa compreender a Escritura.Todavia é preciso não exagerar na dose. Não há duas lógicas e duas hermenêuticas no mundo, uma natural e outra espiritual. O que Paulo tem em mente em 1Coríntios 2.14-16 é a aplicação e a significação pessoal do significado básico que se depreende de suas palavras. É lógico que o indivíduo precisa também revestir-se de um estado mental e de uma disposição intelectual própria para começar a compreender assuntos para os quais não se acha naturalmente inclinado - seja no campo da astrofísica, da matemática, da poesia ou da Bíblia. Consequentemente, não se pode tomar a palavra de Paulo e afirmar com base nela que sem o Espírito ninguém pode compreender a Bíblia, a menos que se deixe guiar por Ele. Tal afirmativa contradiz frontalmente tanto a experiência quanto os ensinamentos da Escritura, segundo o qual os homens serão julgados também por rejeitarem aquilo que a Bíblia declara ser extremamente claro a todos, porque recusam-se a aceitá-lo.(...) Cremos que é obra especial do Espírito Santo convencer as pessoas a entenderem essa relação, acreditarem nela e a viverem de acordo com ela. Isso, porém, não contradiz o fato de que Deus quis que Sua revelação fosse compreendida".[3]

        "Em contraste com o homem espiritual está o homem natural. A palavra para natural (psychikos) sempre denota “a vida do mundo natural e aquilo que pertence a ele, em contraste com o mundo sobrenatural, que é caracterizado pelo pneuma (espírito)”. Portanto, o homem natural é “aquele que possui... simplesmente o órgão da percepção puramente humana, mas que ainda não possui o órgão da percepção religiosa no... espírito”. O homem natural possui apenas os poderes comuns do homem separado de Deus; como tal, ele não compreende as coisas do Espírito de Deus... e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente. Visto que as habilidades naturais do homem “são totalmente corruptas por causa do pecado, consequentemente toda a atividade de sua alma e mente será obscurecida”[4]

     As regras de hermenêutica e exegese Bíblicas servem como um norteador para estudantes, professores, críticos e cristãos, crentes e descrentes e para um bom entendimento dos textos e doutrinas, mas ela é ineficiente para salvar o pecador, pois essa é a função do Espírito Santo de Deus, que "convence o homem do pecado, da justiça e do juízo" (Jo. 16.8) Mas isso não significa de devemos deixar de lado o estudo sistemático da Palavra de Deus, pois na hora de instruirmos as pessoas no caminho da Salvação, ou argumentarmos com pessoas escravizadas pelas seitas, o Espírito Santo usará o nosso conhecimento e nos lembrará das palavras previamente aprendidas, "para estarmos sempre preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós."(1Pe. 3.15)

       A hermenêutica, como toda ciência, tem seus critérios e métodos que se não forem bem observados trarão um resultado final diferente para cada observador. E infelizmente temos visto isso muito por aí.

Professor Saulo Nogueira
Paz á todos que estão em Cristo Jesus.


Referências Bibliográficas:

[1]Soares, Ezequias. Manual de Apologética cristã. Defendendo os fundamentos da verdadeira fé bíblica - São Paulo; 2º edição: CPAD, 2003

[2]D. Free, Gordon, Stuart, Douglas. Entendes o que lês? São Paulo; 2º edição: Editora Vida Nova, 1997

[3]Geisler, Norman L. A inerrância da Bíblia - São Paulo: Editora Vida, 2003

[4]Comentário Bíblico Beacon - Rio de Janeiro; 1° edição: CPAD, 2006