quarta-feira, 29 de julho de 2015

Qual o problema do Thalles?

Por Saulo Nogueira

O mundo do entretenimento Gospel essa semana ficou abismado com as declarações do cantor gospel Thalles Roberto. Em uma de suas apresentações, o cantor disse que estava “acima da média dos outros artistas cristãos” e que havia ficado “mais rico que todos eles junto”, entre outras coisas. Grande parte dos cristãos evangélicos ficaram estarrecidos com essas afirmações ególatras, o nível de soberba desse cantor e, o menosprezo aos seus colegas de classe. Ainda mais vindas de um artista cristão. Aliás, polêmica parece ser o sobrenome de Thalles. Até Bíblia superfaturada com suas fotos e biografia ele lançou. Mas a intenção dessa postagem não é fazer uma crítica à atitude do Thalles. Muitos sites já fizeram isso e ele até tentou pedir desculpas. A intenção desse texto é buscar as causas e os motivos que têm levado alguns cantores a caírem no mesmo pecado. 

A pergunta é: Qual é o problema de Thalles Roberto? Será que podemos tirar algo de bom dessa situação? Creio que sim. Situações como essa nos levam à uma reflexão de quais rumos o evangelho tem tomado e o que devemos fazer para tentar reverter esse quadro tão deplorável.
João Eduardo Cruz, Pastor da Primeira Igreja Batista em Planalto Caucaia, nos chama atenção para alguns detalhes:

"Thalles nos dá o diagnóstico de um cristianismo sem discipulado, não acredito que esse rapaz tenha sido orientado de maneira correta à luz das Escrituras Sagradas, para mim ele é apenas mais um que foi usado pela igreja como muitos que vindo da carreira secular (Thalles foi backing vocal da banda Jota Quest) se tornam um espetáculo grotesco para uma igreja sedenta por pão e circo. Thalles pode ter desejado mudar, ser uma nova criatura, mas não foi informado realmente de como isso se dá."

Esse foi o primeiro erro: falta de discipulado e boa orientação Bíblica. Infelizmente, muitos cantores da atualidade sequer compõem suas músicas, mas são somente intérpretes. Não gastam tempo com as Escrituras, não fazem devocionais e, devido suas carreiras serem muito corridas, quase não tem tempo sequer para irem à igreja. Não digo que essa seja a realidade do Thalles, pois por não conhecer completamente sua trajetória, poderei estar cometendo alguma injustiça. Mas esse diagnóstico não serve apenas para ele, pois muitos talvez não "falam de mais" como ele, mas agem com a mesma soberba e altivez. Cachês exorbitantes, exigências nada modestas e uma vida de luxo e ostentação, tem marcado a trajetória de muitos cantores gospel. Pelas próprias respostas de alguns deles às palavras de Thalles, podemos ver que se encontram em situação similar, ou até pior que à dele.

O segundo erro, está na forma como se deu o processo. Thalles errou? Sim, errou. Mas errou muito mais quem o ordenou pastor. As suas próprias músicas refletem a sua falta de conhecimento da Palavra. E não digo somente dele. As músicas gospel, salvo raras exceções, demonstram como os cantores estão divorciados da ortodoxia bíblica e como essas composições antropocêntricas tem feito uma lambança teológica na igreja brasileira. Às vezes a moda é falar sobre chuva. Cantores correm para seus compositores e pedem para que eles componham qualquer coisa que fale de chuva. "Por que a moda agora é cantar sobre chuva". Passa a modinha da chuva e vem as canções sobre fogo. Me arrepia ver alguns cantando "louvores" pedindo para Deus mandar fogo. Ainda bem que Deus não leva em consideração a ignorância de muitos! Enquanto isso, os louvores compostos em tempos em que não havia direitos autorais, em que não havia todo esse glamour, nem os cantores eram chamados de Levitas (outra modinha) vão sendo deixados de lado, pois alguns consideram que estão ultrapassados. Isso mostra para a Igreja brasileira a necessidade de discipulado mais sério e profundo. O Apóstolo Paulo adverte Timóteo em sua primeira epístola:

"A ninguém imponhas precipitadamente as mãos, nem participes dos pecados alheios; conserva-te a ti mesmo puro. (1 Timóteo 5:22)

Aqui está o grande problema. Muitos evangélicos se dizem observadores da Palavra de Deus, mas parece que só seguem seus parâmetros quando lhes convêm. Essa passagem fala sobre a ordenação de ministros do evangelho e o cuidado para que essa ordenação não seja precipitada. Ainda na epístola de Paulo à Timóteo, olha o que o Apóstolo inspirado escreve:

"não neófito, para que não se ensoberbeça e venha a cair na condenação do Diabo." (1 Timóteo 3:6)

E qual foi o grande pecado desse senhor: soberba! O texto de Paulo fala à respeito dos neófitos na fé, ou seja, pessoas que são novos no evangelho e não tem maturidade suficiente para assumir um cargo de liderança. É uma clara advertência contra a promoção muita rápida de um novo convertido ou recentemente batizado. Paulo acreditava que um líder cristão deveria ter maturidade e preparação para este cargo santo, e por uma boa e suficiente razão. Existia o perigo de que, para alguém inadequadamente preparado, a tentação ao orgulho espiritual se tornasse grande demais para ser resistida. Isso é tragédia na certa, tragédia descrita pelo apóstolo da seguinte forma: Cair na condenação do diabo.

Isso nos mostra que, infelizmente, o problema não é exclusivamente do Thalles. Nós como igreja do Senhor devemos aprender até com os erros dos outros! O grande problema é que muitas vezes queremos matar o monstro que nós próprios criamos. O Thalles e outros artistas do circo gospel, estão assim pois encontram um público que se submete. Essa é a terceira causa. O mercado absolve essa bizarrice. Se os cristãos hoje fossem como os bereanos, músicas como a desse senhor e de muitos outros nunca fariam sucesso. O que ocorre é que nunca na história desse país se deu tanto valor à música e tão pouco valor a Palavra de Deus. Erros teológicos absurdos tem sido cantados nas igrejas e os louvores que deveriam glorificar à Deus, tem criado mantras que glorificam o homem. Mas ainda há tempo. Enquanto Há vida, há chance para mudanças. 

        Quarto erro: temos que refletir a forma que nós temos tratado esses cantores que muitas vezes são tão idolatrados que acabam se esquecendo de suas reais motivações: a glorificação do nome do Senhor. Isso também nos alerta para que possamos conscientizar nossos irmãos de que a Igreja deve para de fabricar ídolos para entretenimento dos bodes. Fãs clubes, histeria, gritos e uma veneração que beira a idolatria tem causado uma distorção do verdadeiro sentido do louvor.

Resta-nos, como seus irmãos na fé, orar pelo Thalles e por todos os que estão envolvidos com a "música sacra". Orar para que seus olhos sejam abertos, pois talento e estilo próprio ele tem. Mas para que ele não seja soterrados pela montanha da soberba. Que Jesus tenha misericórdia e ele volte ao primeiro amor e seus lábios possam declarar apenas a glória do Senhor.

Soli Deo Gloria

Prof. Saulo Nogueira