quarta-feira, 2 de julho de 2014

A expressão "filhos de Deus" em Gênesis 6.2 refere-se a anjos?

     Alguns eruditos Bíblicos, baseados na passagem de Gênesis 6, tem afirmado categoricamente que os "filhos de Deus" são anjos que mantiveram relação sexual com mulheres e dessa relação nasceram seres híbridos, que se tornaram gigantes e poderosos sobre a terra, os "varões de renome". De fato, essa é uma questão muito controversa, que traz uma grande dor de cabeça para aqueles que tentam interpretar esse texto á luz de outra passagens Bíblicas. Esse talvez seja um dos textos onde haja maior grau de dificuldade de interpretações, pois dependendo das conclusões que o estudante chegar, ele se verá diante de outros dilemas.  Henry Halley, em seu Manual Bíblico, deixa a questão suspensa:
"Os filhos de Deus (Gen.6.2), pensa-se terem sido os anjos caídos, a que talvez se refiram 2 Pe. 2.4 e Jd.6, ou pessoas de evidências das famílias Setitas que se misturaram pelo casamento com os ímpios, descendentes de Caim. Tais casamento anormais, qualquer que fossem, encheram a terra de violência.

      John F. MacArthur acredita que são anjos que coabitaram com as filhas dos homens:
"Os filhos de Deus, identificados em outro lugar, quase que exclusivamente como anjos (jó 1.6;2.1;38.7), viram e tomaram esposas da raça humana. Isso gerou uma união sobrenatural que violava a ordem dada por Deus a respeito do casamento e da procriação (Gn. 2.24)(...) a passagem coloca forte ênfase no contraste entre e angélico versus humano. O NT coloca esse relato na sequencia com outros acontecimentos de Gênesis e identifica-o como envolvendo anjos caídos que habitavam em sere humanos (2 Pe. 2.4; jd. 6). A passagem de Mateus não nega, necessariamente, a possibilidade de os anjos serem capazes de procriar, mas diz apenas que eles não se casam. Para procriarem fisicamente eles teriam que possuir um corpo humano masculino". 

     MacArthur já se previne das perguntas que surgiriam baseado em Mt. 22.30 e, por mais que creia que exista a possibilidade dos anjos terem tomado esposas na raça humana, ele nega que essa relação gerou os gigantes:
" A palavra Nephilim, provém de uma raiz que significa "cair" (naphal), indicando que eles eram homens muito fortes que "caíram"sobre outros no sentido de superá-los em força (o único outro uso desse termo se encontra em Nm. 13.33). Os gigantes já estavam na terra quando os "valentes, varões de renome" nasceram. Os caídos não são fruto dessa união"
Essa explicação encontra uma grande quantidade de adeptos e é uma teoria muito bem aceita nos meios acadêmicos e entre alguns dos Pais da Igreja. Norman Geisler, jogando ainda mais lenha na fogueira nos dá mais uma alternativa:
"Alguns eruditos bíblicos creem que a expressão "filhos de Deus" seja uma referência à linhagem piedosa de Sete (através da qual viria o redentor - Gn 4:26), que se entremeou com a linha ímpia de Caim. Eles alegam que: (a) isso se coaduna com o contexto imediato; (b) evita todo o problema decorrente da interpretação de que eram anjos; (c) está de acordo com o fato de que os seres humanos também são mencionados no AT como "filhos" de Deus (Is 43:6). Outros estudiosos acreditam que "filhos de Deus" seja uma referência a grandes homens, a "varões de renome na antiguidade". Apontam para o fato de que o texto refere-se a "gigantes" e "valentes" (v. 4). Ainda, isso evita o problema de os anjos (espíritos) coabitarem com seres humanos. Outros ainda combinam estas interpretações e especulam que os "filhos de Deus" eram anjos que "não guardaram o seu estado original" (Jd 6) e que na realidade possuíram seres humanos, levando-os a um cruzamento com "as filhas dos homens", produzindo assim uma raça superior, cuja semente foram os "gigantes" e os "varões de renome". Esta posição parece explicar todos os pontos, exceto o problema insuperável de os anjos, não tendo corpos (Hb 1:14) e sendo assexuados, coabitarem com seres humanos."
     Talvez Geisler não tenha notado, mas essa terceira opção traz ainda outro problema: Se o fato de demônios possuírem homens e esses homens manterem relações sexuais com mulheres, e dessa relação nascerem seres híbridos, hoje teríamos esses seres híbridos nascendo o tempo todo, pois existem muitas pessoas que são morada dos espíritos imundos hoje ainda. A não ser que esses anjos, sejam diferentes ou façam parte de uma hierarquia mais elevada, ou sejam os próprios anjos incorporados em forma humana, conforme Gn.18 e 19.4-5, que pareciam de fato humanos de carne e osso, a ponto dos habitantes de Sodoma e Gomorra quererem ter relações sexuais com eles. Mas isso não resolve a questão.

     Flávio Josefo, na sua Obra História dos Hebreus, escreveu:
"...Não prestavam mais a Deus a honra que lhe era devida nem exerciam mais a justiça para com os homens, mas se entregavam com mais ardor ainda a toda sorte de crimes, enquanto os seus antepassados se haviam dedicado à prática de toda espécie de virtudes. Assim, atraíram sobre si a cólera de Deus, e os grandes da terra, que se haviam casado com as filhas dos descendentes de Caim, produziram uma raça indolente que, pela confiança que depositavam na própria força, se vangloriava de calcar aos pés a justiça e imitava os gigantes de que falam os gregos."
     Na visão de Josefo, os filhos de Deus, são aqueles que mantiveram a pureza do culto verdadeiro á Deus, contrariamente aqueles que se corromperam da linhagem de Caim. Na mesma linha de raciocínio, Gleason Archer, na sua Enciclopédia de temas Bíblicos, diz que os filhos de Deus, se referem a linhagem piedosa de Sete, que se relacionou com a linhagem impiedosa de Caim. Ele diz:
"O termo "filhos de Deus" (bene elohim) é empregado no AT para anjos ou homens, verdadeiros crentes, compromissados totalmente com a obra de Deus. Entre as passagens que se referem a anjos como bene elohim estão Jó 1.6; 2.1; 38.7; Salmos 29.1; 89.6 (89.7 no Texto Massorético). (...)
     O que Gênesis 6.1, 2, 4 registra é a primeira ocorrência de casamento misto entre crentes e incrédulos e o resultado característico de tais uniões: total falta de testemunho do Senhor e pleno desprezo pelos padrões morais. Em outras palavras, os "filhos de Deus" dessa passagem eram descendentes da linhagem piedosa de Sete. Em vez de permanecer fiéis ao Senhor e leais à sua herança espiritual, permitiram-se ser tentados e seduzidos pela beleza de mulheres ímpias, as "filhas dos homens" — a saber, as seguidoras da tradição e do exemplo de Caim. O resultado desses casamentos foi a depravação da natureza humana, no tocante às gerações mais jovens, até que as civilizações antediluvianas se afundaram na iniqüidade e na perversão. "O SENHOR viu que a perversidade do homem tinha aumentado na terra e que toda a inclinação dos pensamentos do seu coração era sempre e somente para o mal" (v. 5). O resultado inevitável foi o julgamento, a terrível destruição pelo Dilúvio. Talvez fosse necessário aqui um último comentário sobre os anjos. Se admitíssemos que os espíritos conseguem, de alguma forma, manter relações sexuais com seres humanos — e eles não podem — nem assim deveriam enquadrar-se na passagem que estamos estudando. Caso fossem demônios, isto é, seres decaídos que seguiram Satanás, de modo algum poderiam ser chamados "filhos de Deus". Os espíritos maus destinados ao inferno jamais são assim designados ("filhos de Deus") nas Escrituras. Tampouco poderiam ter sido anjos de Deus, visto que estes vivem em obediência total ao Senhor. Não têm outro objetivo ou desejo senão o de fazer a vontade de Deus e glorificar seu nome. Portanto, está fora de cogitação qualquer envolvimento sórdido de anjos, como "filhos de Deus", com jovens mulheres impiedosas. Portanto, a única explicação viável é a que apresentamos no parágrafo anterior.
     As ocorrências de bene elohim com referência a homens que têm um relacionamento de aliança com Deus são tão numerosas no AT quanto aquelas que se referem a anjos (cf. Dt 14.1; 32.5; Sl 73.15; Os 1.10 — e, cremos, Gn 6.2 também). As razões por que entendemos que Gênesis 6.2 refere-se a membros da família da aliança, descendentes da linhagem de Sete, são muito fortes. As Escrituras ensinam com clareza que os anjos são espíritos, "espíritos ministradores, enviados para servir aqueles que hão de herdar a salvação" (Hb 1.14). Embora possam de vez em quando aparecer sob forma corpórea semelhante a homens, não têm corpo físico e, por isso, não conseguem manter relações sexuais com mulheres. A especulação rabínica de que Gn 6.2 faz referência a anjos constitui uma curiosa intrusão de superstição pagã sem nenhuma base nas Escrituras. A idéia de seres humanos incomuns dotados de estatura gigantesca (nefilins, v. 4) terem resultado desses casamentos não se baseia em nenhuma evidência de paternidade angelical. Não consta que os filhos de Anaque ou Golias e seus irmãos tivessem ligação com os anjos por causa de sua grande estatura; tampouco há razões para supor que os gigantes antediluvianos tinham ascendência angélica."
     Complementando a visão de Archer: se os gigantes fosse descendentes dessa união de anjos com humanas, teríamos que admitir então que além de Noé e sua família, os gigantes também sobreviveram ao Dilúvio e Deus foi frustrado no seu intento, pois existiam gigantes também depois do dilúvio. A única explicação que nos resta é admitir que os homens de grande estatura depois da grande catástrofe hídrica (que não eram tão altos assim como as pessoas imaginam com 11 metros de altura, mas talvez como Golias com seus 3,10 m de altura) são filhos de seres humanos normais, pois não existe nenhuma evidência de paternidade angelical. (cf. Nm. 13.33 e 1 Sm.17.4)

    A argumentação de Gleason Archer é mais plausível e que se melhor harmoniza com o restante das Escrituras, ou seja, os filhos de Deus são a descendência piedosa de Sete (chamados assim por fazerem a vontade soberana de Deus) em contraste com os filhos dos homens, que seguiram a dissimulação de Caim, chamados assim, por representarem a humanidade corrompida e por tentarem destruir a promessa da descendência da Mulher, ou seja, o Messias prometido.

Mas e 2Pe. 2.4 e Jd. 6 ?

"Porque, se Deus não perdoou aos anjos que pecaram, mas, havendo-os lançado no inferno, os entregou às cadeias da escuridão, ficando reservados para o juízo;" (2 Pedro 2:4)
 "E aos anjos que não guardaram o seu principado, mas deixaram a sua própria habitação, reservou na escuridão e em prisões eternas até ao juízo daquele grande dia;" (Judas 1:6)
     Os textos em questão fazem apenas referências á grandes juízos de Deus, sobre anjos e humanos. Alguns estudiosos fazem ligações entre esses textos e Gn. 6, devido ao fato de Pedro, por exemplo, após citar os versículos supra citados, fala acerca do Dilúvio:
"E não perdoou ao mundo antigo, mas guardou a Noé, a oitava pessoa, o pregoeiro da justiça, ao trazer o dilúvio sobre o mundo dos ímpios; (2 Pedro 2:5)
     Pedro apenas faz uma análise dramática do juízo de Deus sobre aqueles que desobedeceram as ordens Divinas, ensinando heresias de perdição:
"E também houve entre o povo falsos profetas, como entre vós haverá também falsos doutores, que introduzirão encobertamente heresias de perdição, e negarão o Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina perdição.E muitos seguirão as suas dissoluções, pelos quais será blasfemado o caminho da verdade. E por avareza farão de vós negócio com palavras fingidas; sobre os quais já de largo tempo não será tardia a sentença, e a sua perdição não dormita. (2 Pedro 2:1-3
     Assim como Deus não poupou nem os anjos, ele não poupará os falsos mestre e falsos doutores. Já Judas faz a citação dos anjos, porém se cala em relação ao Dilúvio, citando, assim como Pedro a destruição de Sodoma e Gomorra. Tentar fazer um paralelo entre esses textos e Gênesis é fazer uma interpretação forçada.

Prof. Saulo Nogueira
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Bibliografia:
L. Archer jr, Gleason; Enciclopédia de Temas Bíblicos;
Henry, Halley; Manual Bíblico;
MacArthur, John F.; Bíblia de Estudo MacArthur;
Josefo, Flávio; História dos Hebreus
Geisler, Norman; Howe, Thomas; Manual popular de dúvidas, enigmas e "contradições" da Bíblia.