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quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Selo com 2.700 anos é descoberto em Jerusalém

Segundo especialista, selo confirmaria uma menção feita
pela Bíblia de um dirigente de Jerusalém no século VI ou VII a.C.
       Um selo de argila de 2.700 anos de antiguidade descoberto em Jerusalém foi apresentado nesta segunda-feira (1) como uma primeira prova material da existência de um governador nessa cidade, segundo a autoridade de antiguidades israelense. Este artigo redondo do tamanho de um botão foi encontrado em um edifício na explanada do Muro das Lamentações, na Cidade Velha de Jerusalém. O selo data do século VI ou VII a.C. e demonstra a existência de um dirigente em Jerusalém, acrescentou a autoridade. Este período corresponde ao do primeiro templo judeu na Cidade Santa. No objeto figuram dois homens trajados com vestidos um de frente para o outro e de mãos dadas, com o que parece ser uma lua entre as duas mãos. Abaixo desta representação, vê-se uma inscrição em hebraico antigo que indica: "ao governador da cidade", o que corresponde às funções do prefeito.

       O selo parece ter sido colado a uma espécie de envio e servia "de logo ou de pequeno souvenir, enviado ao governador da cidade", afirmou Shlomit Weksler Bdolah, que participa nas escavações no Muro das Lamentações. "É uma descoberta pouco comum", afirmou. Segundo ela, este selo confirma a menção feita pela Bíblia de um dirigente de Jerusalém.

"A importância dessa descoberta reside no fato de que até agora, só conhecíamos a expressão de 'governador da cidade' pela Bíblia", explica. "É a primeira vez que encontramos esta menção em um contexto arqueológico".

       O selo não menciona o nome do dirigente de Jerusalém, mas Shlomit Weksle Bdolah acredita que faz referência à Cidade Velha, já que foi encontrado no mesmo edifício onde haviam sido encontrados outros objetos. Os exames científicos que serão feitos em breve deverão confirmar o vínculo com Jerusalém, considera. A lua que aparece no selo poderia ilustrar a existência de influências externas. "O que é interessante é que a lua é conhecida como um objeto de culto de culturas vizinhas", revela

Via: G1

Nota do Blog: Essa descoberta simplesmente confirma as referências a esse título, utilizado nesse período, nos textos bíblicos de 2 Reis 23:8 – quando Josué governava a capital nos dias do rei Ezequias – e 2 Crônicas 34:8, onde Maaséias era governador de Jerusalém nos dias do rei Josias.

"Josias trouxe todos os sacerdotes das cidades de Judá e, desde Geba até Berseba, profanou os altares onde os sacerdotes haviam queimado incenso. Derrubou os altares idólatras junto às portas, inclusive o altar da entrada da porta de Josué, o governador da cidade, que fica à esquerda da porta da cidade.
(2 Reis 23:8)

"E no ano décimo oitavo do seu reinado, havendo já purificado a terra e a casa, enviou a Safã, filho de Azalias, e a Maaséias, governador da cidade, e a Joá, filho de Joacaz, cronista, para repararem a casa do Senhor seu Deus." (2 Crônicas 34:8)

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Arqueologia revela provas da destruição de Jerusalém pelos babilônios

Arqueologia revela provas da destruição
de Jerusalém pelos babilônios
     Os arqueólogos que escavam o sítio arqueológico da Cidade de Davi, localizado no Parque Nacional dos Muros de Jerusalém, capital de Israel, descobriram madeira carbonizada, sementes de uva, pedações de cerâmica, escamas de peixes, ossos e inúmeros artefatos raros que remontam à queda da cidade nas mãos dos babilônios há mais de 2.600 anos. Entre as descobertas, feitas este ano no local, há dezenas de jarros usados para armazenar grãos e líquidos. Muitos deles têm alças e selos marcados que retratam uma roseta. Eles comprovam a riqueza da antiga Jerusalém, capital do reino da Judéia.

“Esses selos são característicos do final do período do Primeiro Templo e foram usados pelo sistema administrativo que se desenvolveu no final da dinastia da Judéia”, explicam Ortal Chalaf e Joe Uziel, diretores de escavações da Autoridade de Antiguidades de Israel.

      Essa roseta basicamente substituiu o selo ‘Para o Rei’ usado no sistema administrativo anterior. “Classificar esses objetos facilitava o controle, a supervisão, a coleta, a comercialização e o armazenamento” dos judeus que cuidavam da cidade na época que ela foi atacada e destruída pelos babilônios.

      Entre os artefatos que estavam sob camadas de pedra acumuladas no declive oriental
Estátua de marfim – imagem de uma mulher.
(Foto: Clara Amit, Autoridade de Antiguidades de Israel)
da cidade de Davi, está uma pequena estátua de marfim. O objeto raro representa uma mulher nua com um corte de cabelo (ou peruca) de estilo egípcio. 
Os diretores ressaltam que “essas descobertas da escavação mostram que Jerusalém se estendia além do limite estabelecido pelos muros da cidade antes da sua destruição”. O Antigo Testamento relata que os babilônios, liderados por Nabucodonosor destruíram Jerusalém em 587 a.C. (Jeremias 39 e 52).

“Ao longo da Idade do Ferro, Jerusalém passou por um crescimento constante, expressado tanto na construção das diversas muralhas da cidade quanto no fato de a cidade se expandir mais tarde. As escavações realizadas no passado na área do Bairro Judeu mostraram como o crescimento da população no final do século 8 a.C. posteriormente resultou na anexação da área ocidental de Jerusalém”, afirma o comunicado da Autoridade de Antiguidades de Israel.

     Chama atenção o fato da divulgação dos estudiosos ser feita alguns dias antes do “Tisha B’Av”, a data que anualmente lembra a destruição do Primeiro e Segundo Templos judeus no Monte do Templo. A Autoridade de Antiguidades de Israel anunciou a descoberta de evidências da destruição babilônica de Jerusalém na mesma semana em que os palestinos e outros islâmicos tentam divulgar publicamente que eles são os “legítimos” donos de Jerusalém e negam o seu passado como capital do povo judeu. 

Com informações Fox News

Nota do Blog: Somente pessoas extremamente ignorantes em História Judaica, ou até mesmo História do mundo, para cair no conto de fadas desse "Revisionismo" histórico promovido pelos Palestinos (ou pessoas de má fé e interesses escusos). Pois não existe a menor base histórica para se dizer que Jerusalém e, principalmente o Monte do Templo, não fazem parte da História dos Hebreus. Além das Escrituras, que é um documento fidedigno e histórico, a Arqueologia também vem agora, lançar luz sobre uma verdade mais que evidente.

Paz do Senhor à todos que estão em Cristo Jesus.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Qual é a explicação para o dia prolongado de Josué 10.12-14?

“No dia em que o Senhor entregou os amorreus aos israelitas, Josué exclamou ao Senhor, na presença de Israel: "Sol, pare sobre Gibeom! E você, ó lua, sobre o vale de Aijalom!" O sol parou, e a lua se deteve, até a nação vingar-se dos seus inimigos, como está escrito no Livro de Jasar. O sol parou no meio do céu e por quase um dia inteiro não se pôs. Nunca antes nem depois houve um dia como aquele, quando o Senhor atendeu a um homem. Sem dúvida o Senhor lutava por Israel! ” (Josué 10:12-14)(NVI)

     Um dos milagres mais comentados e discutidos da Bíblia é o que se refere a um dia prolongado no Livro de Josué, corrido na batalha de Gibeom. Tem-se objetado que, se de fato a Terra houvesse parado de girar por 24 horas, uma catástrofe inconcebível teria esmagado o planeta e tudo que estivesse em sua superfície. Para os que creem na onipotência de Deus de modo nenhum concordam com a ideia de que O SENHOR não teria impedido a tragédia; suspendendo temporariamente as leis físicas que provocariam o desastre. No entanto, com base no próprio texto hebraico, não nos parece necessário crer que a Terra subitamente tenha parado, deixando de executar o movimento de rotação sobre si mesma. Assim diz o versículo 13: "O sol parou no meio do céu e por quase um dia inteiro não se pôs". A frase "não se apressou" (RA) parece indicar um retardamento do movimento solar (ou seja, da rotação da Terra). Em vez de 24 horas, o dia teria tido quase 48 horas.[1] 

     Há apoio para essa ideia: pesquisas trouxeram à luz relatos de fontes egípcias, chinesas e hindus a respeito de um dia muito longo. Harry Rimmer relata que alguns cientistas astrônomos chegaram à conclusão de que está faltando um dia inteiro no cálculo astronômico. Declara Rimmer que alguns cientistas do Observatório de Harvard traçaram a origem desse dia que falta aos tempos de Josué. De semelhante modo se pronuncia Totten, de Yale [2].

      Outra possibilidade de interpretação decorre de um entendimento um tanto diferente da palavra dôm (traduzida por KJV por "mantém-te quieto"). É vocábulo que normalmente se traduz por "estar em silêncio", "cessar" ou "partir". E. W. Maunders, de Greenwich e Robert Dick Wilson, de Princeton, interpretaram a oração de Josué como petição no sentido de o Sol cessar de derramar seu calor sobre suas tropas em batalha, de tal modo que pudessem prosseguir lutando sob condições mais favoráveis. A tempestade destruidora, de granizo, que acompanhou a batalha, dá alguma credibilidade a essa opinião, a qual tem sido defendida por homens de inquestionável ortodoxia. No entanto, é preciso que se admita que o versículo 13 parece favorecer o prolongamento do dia: "O sol parou, e a lua se deteve, [...] O sol parou no meio do céu e por quase um dia inteiro não se pôs" (ARA).

     Keil e Delitzsch (Joshua, Judges, Ruth, p. 110) sugerem que ocorreu um prolongamento miraculoso do dia, de modo que apenas apareceu a Josué e a todo o Israel que ele se prolongou de fato. O exército conseguiu fazer em um dia o trabalho de dois. Teria sido difícil para eles dizer se a Terra estava girando à velocidade normal se a rotação fosse o único critério para a medida do tempo. Eles acrescentam outra possibilidade: Deus poderia ter produzido um prolongamento da luz solar, tendo prosseguido a visibilidade após a hora normal do crepúsculo, mediante uma refração especial dos raios solares.

          Samuel Schultz [3] parece concordar com essa opinião. Em sua obra "A História de Israel no Antigo Testamento" ele diz:
"(...) E também aos israelitas foi dado um longo dia para que perseguissem seu inimigo. A ambiguidade da linguagem concernente a este longo dia de Josué tem dado origem a variadas interpretações. Era esta uma linguagem poética? Solicitou Josué uma maior duração da luz do sol ou para descanso do calor do dia? [4] Se for uma linguagem poética, então somente se trata de uma chamada feita por Josué por ajuda e forças [5]. Como resultado, os israelitas foram de tão modo revigorados que o trabalho de um dia foi realizado em metade de um dia. Aceito como uma prolongação da duração da luz, isto foi um milagre no qual o sol ou a lua e a terra ficaram detidos [6]. Se o sol e a lua detiveram seus cursos regulares, pôde ter sido um milagre de refração ou uma miragem dada sobrenaturalmente, estendendo a luz do dia de forma tal que o sol e a lua pareceram ficar fora de seus cursos regulares. Isto proporcionou a Israel mais tempo para perseguir a seus inimigos [7]. A chamada de Josué em favor da ajuda divina pôde ter sido uma solicitude de alívio para que diminuísse o calor do sol, ordenando que o sol permanecesse silencioso ou mudo, quer dizer, que evitasse brilhar tanto. Em resposta, Deus enviou uma tormenta de saraiva que proporcionou tanto o alívio do calor solar como a destruição do inimigo. Os soldados, refrescados, realizaram um dia de marcha em meio dia de duração desde Gibeom até Maquedá, uma distância de uns 48 km [8], e lhes pareceu um dia completo quando em realidade só havia transcorrido meio dia. Embora o relato de Josué não nos proporcione detalhes de como aconteceu aquilo, resulta aparente que Deus interveio em nome de Israel e a liga dos amorreus foi totalmente derrotada."
      Hugh J. Blair ("Joshua", em Guthrie, New Bible commentary, p. 244) sugere que a oração de Josué teria sido pronunciada bem cedo, de manhã, visto que a luz ainda estava no Ocidente, e o Sol, no Oriente. A resposta veio na forma de uma tempestade de granizo que prolongou a escuridão e, dessa forma, facilitou o ataque de surpresa dos israelitas. Daí, na escuridão da tempestade, a derrota do inimigo foi completa. Deveríamos, pois, falar da "longa noite" de Josué, em vez de o "longo dia". Essa é, em essência, a opinião de Maunders e Wilson. Essa interpretação não pressupõe a parada do movimento de rotação da Terra em seu eixo, embora dificilmente se enquadre na declaração de Josué 10.13. Portanto, é uma interpretação de valor dúbio.

     Realmente, evento do dia prolongado não é facilmente explicado. Porém, é preciso reconhecer que Aquele que fez as leis da Natureza tem o direito de usá-las de acordo com seus objetivos.  Aquele que usou as pedras de granizo como arma de destruição contra seus inimigos também poderia usar a luz e as trevas para servirem aos seus propósitos. A soberania de Deus sobre a natureza o capacita a promover seu reino espiritual pelo uso do mundo físico. O salmista enfatizou que todo o universo visível existe para propósitos espirituais. Ele afirmou que “os céus manifestam a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos. Um dia faz declaração a outro dia, e uma noite mostra sabedoria a outra noite” (Sl. 19.1,2). Também declarou que “do Senhor é a terra e a sua plenitude, o mundo e aqueles que nele habitam” (Sl. 24.1). Josué não demonstrou hesitação ao chamar as forças do universo para ajudá-lo contra aqueles que se opunham a Deus (v.12). A declaração de que "não houve dia semelhante a este, nem antes nem depois dele" (v.14) reafirma a singularidade deste evento. Também destaca o fato de que Deus usa milagres com grande reserva. Ele evita que os homens se tornem dependentes deles. Deus insiste que devemos depender dEle próprio, que realiza os milagres. ” [9]


Prof. Saulo Nogueira

Referências:

[1] Archer, Gleason L. Enciclopédia de Temas Bíblicos - 2. ed. - São Paulo: Editora Vida, 2001. Pg. 142.

[2],[4] Para obter um sumário de vários pontos de vista, cf. Bernard Ramm. The Christian view of science and Scripture. Grand Rapids, Eerdmans, 1955. Pg. 156-161.

[3] Schultz, Samuel. História de Israel no Antigo Testamento - 2ª ed. - São Paulo: Editora Vida Nova, 2009. Pg.121-123.

[5] Para um discussão representativa, ver o artigo intitulado:"Sol", em Davis. Dicionário da Bíblia. Rio de Janeiro, Casa Publicadora Batista, 1973. Pg. 569-570.

[6] Cf. R. A. Torrey. Difficulties in the Bible, (1907, p. 53); Josefo, "Antiquities of the Jews", v. 1:17 e Eclesiástico 46.4.

[7] Cf. A. Rendle Short. Modern Discovery and the Bible. Londres, Interversity Fellowship of Evangelical Unions, 1943, p. 117, e Lowell Butler "Mirages are Light Benders", Jourmal of the American Scientific Affiliation, dezembro 1951.


[8] Cf. D. Maunder, "The Battle of Beth-Horon" The International Standard Bible Encyclopedia, I, 446-449. Ver também Robert Dick Wilson "What does the sun stood still mean?" Moody Monthly, 21:67 (outubro de 1920), interpreta as palavras traduzidas por "detém-te" como se significassem "escurece-te", com base da astronomia babilônica. Hugh J. Blair "Josué" em O Novo Comentário da Bíblia. São Paulo, Vida Nova, pg. 265, sugere que Josué fez tal petição na manhã para que a tormenta de saraiva prolongasse a escuridão.

[9] Comentário Bíblico Beacon. Josué a Ester - 4ª ed. – Rio de Janeiro: CPAD, 2012. Pg. 51

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Por que Deus endureceu o coração de faraó?

“Disse mais o Senhor a Moisés: "Quando você voltar ao Egito, tenha o cuidado de fazer diante do faraó todas as maravilhas que concedi a você o poder de realizar. Mas eu vou endurecer o coração dele, para não deixar o povo ir. ” (Êxodo 4:21) (NVI)

     Alguns críticos que estudam essa passagem de forma isolada e superficialmente, argumentam que Deus é um tirano cruel e faz com que as pessoas obrigatoriamente lhe desobedeça, com o simples intuito de puni-las e mostrar a Sua soberania de forma despótica. Nada mais longe da verdade! Um estudo mais acurado, demonstra que, na realidade, graças à sua omnisciência, Deus conhece os sentimentos mais íntimos de todas as pessoas e todas as coisas estão nuas e patentes diante dos Seus olhos. (cf. Sl:139; Hb. 4:12-13).

       Podemos começar argumentando que, Faraó, pelo que podemos perceber por várias passagens bíblicas, não era inocente ou piedoso, mas um homem obstinado e de dura cerviz, responsável pela opressão ao povo de Israel. Além disso, o povo egípcio através do governo dos seus faraós, que se consideravam autênticos “deuses”, escravizara durante mais de 400 anos o povo hebreu, e foram responsáveis por inúmeras mortes, como no caso da ordem para matar todos os bebês hebreus no momento em que nascessem.

     Existem várias linhas interpretativas concernente ao endurecimento do coração de Faraó, mas praticamente todas elas convergem para a mesma direção: a Soberania de Deus e a responsabilidade humana. Tanto Teólogos de linha arminiana, como os de linha calvinista tentam equilibrar a questão, demonstrando que em última análise, nos termos mais abrangentes possíveis, toda condição humana está sob o controle de Deus (cf. Is: 45.7)  Devemos analisar essa questão, em três estágios [1]: Primeiro, a pessoa endurece o coração conscientemente:
“Mas quando o faraó percebeu que houve alívio, obstinou-se em seu coração e não deu mais ouvidos a Moisés e a Arão, conforme o Senhor tinha dito. ” (Êxodo 8:15) (NVI) 
“Mas também dessa vez o faraó obstinou-se em seu coração e não deixou que o povo saísse. ” (Êxodo 8:32) (NVI) 
“Quando o faraó viu que a chuva, o granizo e os trovões haviam cessado, pecou novamente e obstinou-se em seu coração, ele e os seus conselheiros. O coração do faraó continuou endurecido, e ele não deixou que os israelitas saíssem, como o Senhor tinha dito por meio de Moisés. ” (Êxodo 9:34-35) (NVI)
       Faraó decidiu resistir e se opor à vontade de Deus e, assim, tornou o próprio coração mais inflexível. Segundo, em consequência disso, o coração se endurece pela ação das leis psicológicas (7.13-14,22; 9.7,34-35). 
“Contudo, o coração do faraó se endureceu e ele não quis dar ouvidos a Moisés e a Arão, como o Senhor tinha dito. Disse o Senhor a Moisés: O coração do faraó está obstinado; ele não quer deixar o povo ir. ” (Êxodo 7:13-14) (NVI) 
“Mas os magos do Egito fizeram a mesma coisa por meio de suas ciências ocultas. O coração do faraó se endureceu, e ele não deu ouvidos a Moisés e a Arão, como o Senhor tinha dito. ” (Êxodo 7:22) (NVI) 
“O faraó mandou verificar e constatou que nenhum animal dos israelitas havia morrido. Mesmo assim, seu coração continuou obstinado e não deixou o povo ir. ” (Êxodo 9:7) (NVI) 
“Quando o faraó viu que a chuva, o granizo e os trovões haviam cessado, pecou novamente e obstinou-se em seu coração, ele e os seus conselheiros. O coração do faraó continuou endurecido, e ele não deixou que os israelitas saíssem, como o Senhor tinha dito por meio de Moisés. ” (Êxodo 9:34,35) (NVI) (grifo meu)
    Terceiro, quando Deus viu que Faraó estava determinado a resistir, Ele mesmo endureceu o coração do monarca (7.3; 9.12; 10.1,20,27; 14.4,8). Tratava-se de julgamento divino sobre o indivíduo (9.11,12), o qual enquanto tivesse vida, coragem física e poder humano continuaria resistindo a Deus. [2] Certamente não devemos dizer que Deus leva o homem a ser mau. Faraó era responsável por sua má escolha e por afastar seu coração de Deus. Porém, quando a pessoa fixa sua vontade contra Deus, então Deus a entrega aos desejos ignóbeis que existe em seu coração (Rm 1.24); “como eles se não importaram de ter conhecimento de Deus, as sim Deus os entregou a um sentimento perverso” (Rm 1.28). Deus mostra misericórdia a quem se entrega a Ele e endurece a quem o resiste (Rm: 9.18). Talvez o julgamento de Deus coloque alguns que se afastam da luz em certo lugar onde eles não podem mais se voltar para Ele (Hb 10.26-30). Deus concedeu vida e habilidade para a resistência de Faraó a fim de fazer maior demonstração de seu poder e glória. [3] Deus só endurece o coração de quem primeiro endurece o próprio coração. Ele ocasiona este endurecimento mediante intervenção extraordinária ou pelas respostas comuns às experiências da vida. [4]

       O envolvimento pessoal e direto do Senhor nos negócios dos homens para que seus propósitos fossem realizados é revelado na maneira como Deus informou Moisés sobre o que aconteceria. Faraó também foi advertido de que a sua recusa traria juízo sobre ele (v. 23). Anteriormente fora dito a Moisés que Deus estava convicto da recusa de Faraó (3.19). Essa interação entre o endurecimento da parte Deus e o endurecimento do coração da parte de Faraó deve ser mantida em equilíbrio. Dez vezes (4.21; 7.3; 9.12; 10.1,20,27; 11.10; 14.4,8,17) o registro histórico observa especificamente que Deus endureceu o coração do rei, e dez vezes (7.13-14,22; 8.15,19,32; 9.7,34-35; 13.15) o registro indica que o rei endureceu o seu próprio coração. O apóstolo Paulo usou esse endurecimento como um exemplo da vontade inescrutável de Deus e seu absoluto poder para intervir como lhe apraz, obviamente, porém, nunca sem perder a responsabilidade pessoal pelas ações tomadas (Rm 9.16-18). O enigma teológico levantado por essa interação da ação de Deus com a ação de Faraó somente pode ser resolvido pela aceitação do relato da maneira como se encontra e refugiando-se na onisciência e onipotência de Deus, que planejou e realizou a libertação de Israel do Egito; ao fazer isso, Deus também de Faraó. Em cada ocasião é registrado: "como o SENHOR tinha dito". Portanto, o que aconteceu provém de duas perspectivas intimamente relacionadas: 

1) Deus estava cumprindo o seu propósito por meio de Faraó; e 
2) Faraó foi pessoalmente responsável pelas suas ações, como se vê no v. 13. [5]

       Após essa análise, gostaria de acrescentar à essa conclusão, um fato trazido á tona pelo arqueólogo bíblico, Randall Price em sua maravilhosa obra[6], que nos ajuda a elucidar ainda mais essa questão:

A pesagem do coração
      “Descobertas egípcias nos proporcionam uma fascinante explicação sobre como Deus pode ter decidido “endurecer” o coração de Faraó. Na teologia do antigo culto egípcio à morte, conforme descrito no egípcio “Livro dos Mortos, ” depois da morte, o falecido embalsamado e colocado na tumba tinha que enfrentar um julgamento na Sala do Julgamento para determinar sua culpa ou inocência. Se julgado culpado seu destino era a destruição; se inocente, então a vida eterna com suas recompensas. Para passar por este julgamento, o morto tinha que negar uma longa lista de pecados que era lida contra ele e com êxito declarar que era puro. Este ato era chamado de “Confissão Negativa, ”[7] e enquanto estava sendo conduzido, o coração do falecido (descrito num canopo) estava sendo pesado em escalas de julgamento contra o padrão da verdade (representado pelo símbolo dos hieróglifos para pena). Este julgamento é vividamente representado num mural pintado conhecido como “a pesagem do coração. ” 

Escaravelho de pedra
       Contra o testemunho do falecido, seu coração confessaria a verdade, mostrando que sua Confissão Negativa era uma mentira. O coração, portanto, subiria as escalas em favor do julgamento que resultaria em destruição. Uma vez que todos os homens pecam e que a inclinação do coração é confessar este pecado, os engenhosos egípcios desenvolveram um meio de evitar que o coração contradissesse a Confissão Negativa. Eles fizeram isso escrevendo encantamentos sobre uma imagem de pedra de seus escaravelhos sagrados que eram entalhados na forma de um coração. [8] Este coração em forma de escaravelho de pedra era então colocado dentro ou em cima da cavidade do peito durante a mumificação (um fato revelado por raios-X de múmias egípcias).[9] Vários encantamentos que ordenavam ao coração: “não se rebele contra mim” ou “não testemunhe contra mim” transferiam o caráter do coração de pedra para o coração de carne no pós-túmulo, tornando-o “duro” e incapaz de falar.[10] Este ritual de “endurecimento do coração” revertia a função natural do coração flexível e resultava na salvação, desde que o falecido fosse agora declarado sem pecado através do silêncio.[11]

       Todavia, quando Deus “endureceu” o coração de Faraó, que como um deus em si mesmo representava a salvação do Egito, Ele reverteu a esperança teológica de todos os egípcios. Este "endurecimento" resultou na incapacidade de Faraó naturalmente responder às assustadoras pragas, e assim pará-las, rendendo-se à solicitação de Moisés. Portanto, ao invés de o “endurecimento do coração” trazer salvação, ele trouxe destruição. [12] Assim, a arqueologia proveu nova perspectiva de um conceito teológico difícil dando-nos o cenário apropriado e o esquema das crenças egípcias que, através de Moisés, Deus queria confrontar. ” 

       Interessante como um maior aprofundamento na Palavra de Deus e a busca pelo seu entendimento nos traz paz e um maior conhecimento de Deus e de sua vontade.

Maranata!

Prof. Saulo Nogueira.

Referências:

[1] Comentário Bíblico Beacon. Pentateuco. Rio de Janeiro: CPAD, 4ª edição, 2012. pg. 153-154.

[2] EXELL, Joseph S. “Homiletical Commentary on the Book of Exodus”. The Preacher’s Complete Homiletical Commentary on the Old Testament. Nova York: Funk & Wagnalls, 1892. Pg. 139.

[3] CONNELL, J. Clement. “Exodus.” The New Bible Commentary. Editado por R. Davidson. Grand Rapids: William B. Eerdmans Publishing Company, 1954. Pg.110.

[4] JOHNSON, Philip C. “Exodus.”The Wycliffe Bible Commentary. Editado por Charles F. Pfeiffer e Everett F. Harrison. Chicago: Moody Press, 1962. Pg. 58.

[5] Bíblia de Estudo John MacArthur. 

[6] Price, Randall. Arqueologia Bíblica. Rio de Janeiro: CPAD, 5ª edição, 2005. pg. 101-102.

[7] F. W. Read, Egyptian Religion and Ethics (Londres: Watts & Company, 1925), pg. 110, 111.

[8] Para a completa documentação deste ritual, vide A. Hermann, “Das Steinhartes Herz”, Jahrbuch für Antike und Christentum, volume 4 (M unster: Aschendorffsche Verlagsbuchandlung, 1961), pg. 102, 103.

[9] James E. Harris e Kent R. Weeks, X-Raying the Pharaohs (Nova York: Charles Scribners Sons, 1973), pg. 49.

[10] Para outros encantamentos vide J. Zandee, Death As an Enemy (Leiden: E. J. Brill, 1960), pg. 259-262.

[11] E. A. W. Budge, Egyptian Magic (Londres: K. Paul, Trench, Tribner & Company, 1899), pg. 35-37.

[12] Para completa análise e defesa desta posição sobre as narrativas das pragas do Êxodo, vide Gregory K. Beale, “The Exodus Hardening Motif of YHWH as a Polemic”, tese de Mestrado em Teologia, Dallas Theological Seminary (Dallas, Texas, 1976), especialmente as pg. 46-52.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Jarro de 3.000 anos com nome de personagem bíblico é encontrado

     Arqueólogos israelenses descobriram e recuperaram os pedaços de uma vasilha de 3 mil anos com uma inscrição da época do bíblico rei Davi em uma escavação no Vale do Elah, região central de Israel, informou a Autoridade de Antiguidades de Israel nesta terça-feira. Trata-se da quarta inscrição desse tipo descoberta até o momento, que data do século X a.C., no Reino da Judeia. Os pedaços do recipiente de argila foram localizados em 2012 em escavações em Khirbet Qeiyafa, próximas à cidade israelense de Beit Shemesh e onde, segundo o relato bíblico, aconteceu a mítica batalha entre Davi e Golias. Nos fragmentos foram descobertas inscrições que despertaram a curiosidade dos pesquisadores Yosef Garfinkel, do Instituto de Arqueologia da Universidade Hebraica de Jerusalém, e Saar Ganor, da Autoridade de Antiguidades de Israel. Ao recuperar e juntar os pedaços - um verdadeiro quebra-cabeças -, os arqueólogos encontraram recentemente o nome “Eshbaal Ben Beda” em letras antigas.
“Trata-se da primeira vez que aparece o nome Eshbaal em uma inscrição antiga no país. Eshbaal Ben Shaul, que governou Israel na mesma época que Davi, é citado pela Bíblia”, afirmou Garfinkel. Ele acrescentou que Eshbaal foi “assassinado e decapitado e sua cabeça levada a Davi em Hebron”. “É interessante destacar que o nome Eshbaal aparece na Bíblia, e agora também em um documento arqueológico. Esse nome só foi usado durante a era do rei Davi. O nome Beda é único e não aparece em inscrições antigas ou na tradição bíblica”, reforçou.
     Os pesquisadores salientaram que a descoberta de inscrições dos dias do mítico rei hebraico é um fenômeno muito recente. “Há uns cinco anos, não conhecíamos nenhuma inscrição datada no século X a.C. do Reino da Judeia. Isso muda totalmente nosso entendimento da expansão da escritura no reino e agora fica claro que estava muito mais estendida do que pensávamos”, justificaram. No lugar das escavações foram encontradas também uma fortificação, duas portas, um palácio e armazéns, além quartos e salas de culto, que faziam parte de um assentamento datado do final do século XI e princípios do X a.C.


Via: Veja.com

Nota do Blog: Alguns arqueólogos até pouco tempo duvidavam da historicidade do Rei Davi e do seu filho Salomão e, consideravam que as narrativas bíblicas sobre esses dois reis era "exagerada". Porém pesquisas e descobertas mais recentes, como a Estela de Tel-Dan e as minas de Timna não só provaram a existência de Davi, como a extensão de seu reino dentro dos limites estabelecidos pela Palavra de Deus. Cada dia mais a arqueologia comprovando atos narrados nas Escrituras e sua confiabilidade.

Prof. Saulo Nogueira

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Havia filisteus na Palestina na época de Abraão?

       
       Gênesis 20 relata a viagem de Abraão a Gerar, onde ele apelou para a mentira sobre seu verdadeiro relacionamento com Sara, a fim de livrar-se do perigo de ser assassinado, caso viessem a saber que ela era sua esposa. O capítulo 21 registra o episódio em que ele assegura os direitos de propriedade do poço de Berseba. A seguir, lemos: "Firmado esse acordo em Berseba, Abimeleque e Ficol, comandante das suas tropas, voltaram para a terra dos filisteus" (v. 32). Em Gênesis 26.1, somos informados de que "Isaque foi para Gerar, onde Abimeleque era rei dos filisteus". (Podemos presumir com segurança que, tendo havido um intervalo de mais de sessenta anos entre os capítulos 21 e 26 [cf. 25.26], o Abimeleque mencionado em 26.1 era filho ou neto do outro cujo nome herdara, costume freqüente entre os nobres das dinastias egípcias e fenícias.)

       Essas referências aos filisteus como existentes antes de 2050 a.C. (no caso de Abraão) têm sido consideradas impossíveis por muitos estudiosos. A Encyclopaedia Britannica (14a ed., s.v. "Filistia") declara categoricamente: "Em Gênesis 21.32, 34 e Êxodo 13.17; 15.14; 23.31, as referências à Filistia e aos filisteus são anacrônicas". A base dessa assertiva encontra-se na circunstância de que até o presente momento, pelo menos, a mais antiga referência a filisteus nos registros egípcios encontra-se nos relatos de Ramesés III, com respeito à sua vitória sobre os "povos do mar" numa batalha naval travada no rio Nilo em 1190 a.C. Supõe-se que depois de os P-r-s-t (como os egípcios grafavam o nome deles) e seus aliados terem sido expulsos pelo faraó, retiraram-se para a região costeira da Palestina e ali se estabeleceram permanentemente como colônia militar. Entretanto, não se pode concluir, a partir desse mero fato, e que as referências mais antigas aos filisteus nos registros egípcios (que datam de mais ou menos 1190 a.C.) constituem prova objetiva de que jamais houve imigrantes filisteus de Creta, na Palestina, em tempo algum, antes dessa data; tal conclusão seria violação irresponsável da lógica.

       As Escrituras Sagradas constituem o registro mais digno de confiança, mais que os documentos arqueológicos, visto que aquelas estão investidas da confiança divina do princípio ao fim e afirmam com toda a clareza que os filisteus moravam na Filistia pelo século XXI a.C. Afirmam também as Escrituras que as fortalezas filistinas que guardavam a rota do norte do Egito para a Palestina eram tão poderosas nos dias mosaicos (em 1140 a.C), que o caminho mais seguro para os israelitas em sua jornada para a Terra Prometida era o do sul (Êx 13.17). É óbvio que esse registro feito por Moisés foi composto séculos antes do de Ramsés III, não havendo razão para supor-se que, quanto mais antigo for um documento, menos digno de confiança deve ser. (Até recentemente usava-se o argumento do silêncio por alguns críticos para desacreditar as referências em Gênesis 18 e 19 a Sodoma e Gomorra, que teriam sido meras lendas destituídas de historicidade. Agora, depois de terem sido descobertas as tabuinhas de Ebla, datadas do século XXIV a.C., que contêm informações sobre o relacionamento comercial de ambas as cidades com Ebla, aquele argumento contrário tornou-se absurdo. G. Pettinato ["BAR Interviews Pettinato", p. 48], a respeito de referências a Si-da-mu e a I-ma-ar). De novo se comprovou que o argumento baseado no silêncio é enganoso. As cinco principais cidades dos filisteus, ou pelo menos aquelas que foram escavadas, demonstram igualmente a existência de uma ocupação que se estende até os tempos dos hicsos, e mesmo antes. 

        O nível mais antigo descoberto em Asdode é com toda certeza, do século XVII a.C. (cf. H. F. Vos, Archaeology in Bible lands [Chicago, Moody, 1977], p. 146). Selos encontrados em Gaza trazem os nomes da décima segunda dinastia de reis do Egito, como Amenemhat III (ibid., p.167). Daí não pode haver dúvida de que essa área foi ocupada por reinos poderosos antigos na era dos patriarcas. É possível que suas populações tenham sido pré-filistéias, mas não existe prova disso. A costa sul da Palestina com toda certeza teria sido uma região favorável ao comércio e ao estabelecimento definitivo dos povos, no que diz respeito à população cretense. As Escrituras referem-se aos filisteus como pertencentes a vários grupos, como os caftoritas, os queretitas e os peletitas. As atividades comerciais de Creta Minoana teriam sido intensas; seus marinheiros teriam descoberto ainda antes do tempo de Abraão que o litoral filisteu era dotado de clima ameno, solo rico e dadivosas chuvas para as colheitas de cereais. Aparentemente emigraram para lá em levas sucessivas, mais ou menos da forma como os dinamarqueses emigravam para a costa leste da Inglaterra ao longo de um período de séculos até que "Danelaw" alargou-se a ponto de cobrir toda a região da fronteira escocesa até a própria Londres. As migrações das populações que saem de sua terra natal, atravessando mares, são um fenômeno freqüente por toda a história do mundo; por isso, não deveria causar surpresa a migração contínua dos povos cretenses e sua fixação ao longo de vários séculos, a partir da época anterior a Abraão até o período da expedição naval fracassada contra o Egito, no início do século XII a.c. Portanto, podemos concluir que não existem evidências verdadeiramente científicas para que se classifiquem as referências aos filisteus no Pentateuco como destituídas de veracidade histórica ou anacrônicas.

Bibliografia: Archer; Gleason L. Enciclopédia de Temas Bíblicos

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

O Êxodo na mira da imprensa e do cinema

       “Os Dez Mandamentos”, “O Princípe do Egito”, e agora, “Êxodo: Deuses e Reis”. Enquanto os dois primeiros filmes foram lançados em épocas em que o ceticismo contra o relato bíblico ainda era confinado às universidades e a poucos segmentos da sociedade, a mais recente versão da história bíblica do Êxodo surge como mais um ingrediente no debate envolvendo religião, violência, mitologia e antagonismo bíblico. O texto abaixo não é a minha reflexão sobre o filme. Ainda não pude assisti-lo por, justamente, estar estudando história egípcia e de outros povos do Antigo Oriente para meus exames finais do mestrado. O que você lerá a seguir é uma reação à matéria de capa da revista Superinteressante deste mês sobre o principal evento da nação israelita, como registrado nas páginas sagradas. Antes de mais nada, devo parabenizar o autor da matéria pela maneira clara e descontraída com que descreveu a história do Antigo Oriente. Apesar de não concordar com muitas das opiniões dele sobre o Antigo Testamento, como será demonstrado abaixo, isso não tira o mérito de Alexandre Versignassi pelo seu texto. Porém, apresento aqui dois problemas metodológicos do articulista. Primeiro, em linhas gerais, ele traduziu para um português bem claro a chamada “hermenêutica da dúvida”, que sempre trata o texto bíblico “culpado, até ser provado inocente”. Isso porque muitos acadêmicos confundiram leitura crítica com leitura cética. Lidar com um texto antigo com o ceticismo do século 21 não é a melhor abordagem metodológica. E não estou falando do sobrenatural. Estou falando de uma reconstrução histórica do ambiente que o relato bíblico supostamente descreve. Por que não lidar com o texto antigo desta forma: “Inocente, até ser provado culpado”?

       Em segundo lugar, o autor cita dois acadêmicos para falar sobre Israel no Antigo Testamento, Richard Freedman e Israel Finkelstein. Isso é para lá de tendencioso. Seria o mesmo que pedir para os líderes do Hamas e do Hezbollah opinarem sobre Israel e EUA. Não há como esperar uma visão equilibrada sobre o Êxodo e o surgimento da nação Israelita da parte deles. Não estou desqualificando o trabalho dos dois, o que estou dizendo é que existem opiniões diferentes e que deveriam também ser ouvidas e contrastadas.

      Um deles é meu professor, James K. Hoffmeier, egiptólogo formado pela Universidade de Toronto, no Canadá. Dois dos seus livros lidam diretamente sobre o assunto: Israel in Egypt (1996) e Ancient Israel in Sinai (2005), ambos publicados pela Oxford University Press. Além de professor de Antigo Testamento, Hoffmeier leciona Egípcio Antigo há mais de 30 anos, o que lhe permite falar naturalmente sobre condições políticas, econômicas e militares do período do Reino Novo do Egito (Dinastias 18-20), a época em que a Bíblia situa o Êxodo.

        Outro acadêmico que deu inúmeras contribuições para o estudo do Antigo Oriente e Antigo Testamento é Kenneth Kitchen, egiptólogo aposentado da Universidade de Liverpool, na Inglaterra. Seu domínio em mais de 15 línguas do Antigo Oriente lhe permite falar como ninguém sobre o dia a dia das cortes, dos templos e fortes militares durante a Idade do Bronze e do Ferro. Ele, inclusive, aprendeu português com a única finalidade de publicar o texto dos monumentos (estelas) de Ramsés II que estão no Museu do Rio de Janeiro, já que ele é uma respeitada autoridade no período Ramessida. E imagine só: tanto Kitchen como Hoffmeier são cristãos evangélicos! Eles não usam as publicações para converter pessoas ao cristianismo, mas, sim, para apresentar uma visão equilibrada sobre o mundo do Antigo Oriente e as páginas do relato bíblico.

       Num debate intelectual, cristãos geralmente são chamados de preguiçosos. Fica aqui uma simples comparação: em seu livro E a Bíblia não Tinha Razão, Israel Finkelstein gastou 24 páginas para falar sobre o Êxodo, com onze sugestões de leitura sobre o assunto no fim do livro. Numa obra com a mesma temática, Kitchen escreveu 72 páginas e com um total de 145 notas de rodapé. Quantos leram as páginas de Finkelstein? Quantos leram o que Kitchen escreveu? Não tenho números exatos, mas sem dúvida a sede por informações rápidas e condensadas da nossa geração preferiria o que Finkelstein escreveu, e o pior, não se daria ao trabalho de ler opiniões contrárias.

        A ausência de evidências diretamente relacionadas com Moisés, os israelitas e o Êxodo bíblico é a avenida principal para o ceticismo - ingênuo, eu diria - de muitos historiadores, curiosos no assunto, e até mesmo teólogos bíblicos, principalmente aqueles que gastam mais tempo estudando teorias literárias sem fundamento e esquecem de olhar o mundo ao redor do Antigo Testamento. Existem pelo menos três motivos pelos quais não dispomos de tais evidências:

       Primeiro, o contexto geográfico de Êxodo 1–14 é a região do Delta do Nilo, uma região que por milênios tem acumulado lama das inundações anuais do Nilo. Estruturas de tijolos de barro tinham duração limitada e eram repetidamente substituídas por outras, devido a essas inundações. Afirmar que “nenhuma evidência dos israelitas no Egito jamais foi encontrada” é muitas ingenuidade, e esperar por essas evidências é perda de tempo. Até mesmo estruturas de pedra dificilmente foram preservadas na região.

        Segundo, a situação se torna mais drástica quando se pensa em papiros. Na lama, 99% dos papiros desaparecem para sempre. Apenas um pouco dos papiros da região oriental do delta foi recuperada no deserto próximo a Mênfis. 

       Terceiro, faraós não registravam suas derrotas. Eles jamais deixariam um monumento ou registro nas paredes de um templo relatando a rebelião de um grupo de escravos que resultou na perda de carruagens e soldados, como na história bíblica do Êxodo. Os textos egípcios sobre a batalha de Qadesh, por exemplo, apresentam Ramsés II como o grande vitorioso. Já a versão hitita da mesma batalha tem o rei Muwatali como vencedor.

       Portanto, para “confirmar” a história bíblica, é inútil esperar evidências que não estão lá no Delta. Se, como cavalos, limitarmos nossas viseiras para o pouco que a arqueologia pode trazer à luz, então não há nada a ser dito sobre o Êxodo. Há necessidade de uma abordagem mais contextual, tanto do relato bíblico como do ambiente histórico que ele supostamente descreve.

Dito isso, apresento abaixo algumas considerações sobre a matéria da Super:

“Os israelitas não foram escravos e nunca migraram para o Egito”: o chamado Segundo Período Intermediário da história Egípcia (Ca. 1650-1550 a.C.) encaixa-se bem nas descrições da história de José, no fim do livro de Gênesis, e do primeiro capítulo de Êxodo. Os hekau khasut, também conhecidos como Hyksos, estavam dominando a região do Delta do Nilo. Eles eram de origem siro-palestina. Anterior a esse período, temos o famoso painel de Beni Hassan, que descreve um semita chamado Absha (ou Ibsha) chegando ao Egito com seu grupo de 37 pessoas e entregando seu “visto” em um dos pontos de imigração. Sendo assim, imaginar um grupo de aproximadamente 70 pessoas, a família de Jacó, entrando no Egito na mesma época, não é nenhum problema do ponto de vista histórico. Também dispomos de ilustrações de trabalho escravo no período da 18ª dinastia, exatamente o período em que o poder voltou para as mãos dos egípcios que reinavam a partir de Tebas, com uma política fortemente anti-hyksos, porque não antissemita. Numa das pinturas da tumba de Rekhmire, um vizir (i.e. primeiro ministro), é possível ver prisioneiros de guerra semitas e núbios fazendo tijolos. Em suma, não precisamos de uma fé extraordinária para imaginar grupos de semitas indo para o Egito e, depois de um tempo, se depararem com uma mudança radical nas políticas internas e enfrentar trabalho escravo.

Foto 1 - Mural de Beni Hassan: semitas entram no Egito
O número dos israelitas: somos informados de que o número de israelitas que saíram do Egito era de 600 mil homens, sem contar mulheres e crianças (Êx 12:27). Como o articulista calculou, adicionando uma esposa e uma criança para cada homem, temos quase dois milhões de pessoas. E aqui temos um grande problema. Há informações detalhadas sobre o exército egípico no período do Reino Novo. Era um total de aproximadamente 25 mil soldados, de acordo com Anthony Spalinger, uma das principais autoridades no assunto. A população egípcia era de aproximadamente dois a três milhões de pessoas. Se os israelistas fossem uma nação tão grande assim, eles não precisariam de um Moisés ou de Deus para libertá-los. Eles poderiam sair a hora que bem entendessem! Em lugar de descartar a informação bíblica, seria bom tentar entendê-la melhor. O que significa a palavra “mil” (heb. ‘eleph)? Ela pode significar unidade de mil pessoas, unidade militar ou pelotão, líder de um grupo, clã e tribo. Em algumas passagens do Antigo Testamento em que ela é utilizada, o significado “mil” não parece ser uma boa opção. Por exemplo, 2 Reis 13:7 menciona 50 cavalheiros, 10 carruagens e 100 mil soldados! Esse é um número discrepante, comparado com os dois anteriores. Em 1 Reis 20:29, 30, vinte e sete “mil” soldados foram mortos porque uma parede caiu sobre eles! Essa deveria ser uma parede enorme.

         Kitchen, Hoffmeier e outros acadêmicos sugerem que ‘eleph, no contexto das passagens do Êxodo, deve ser entendido como um “pelotão” ou “líder militar”; e de acordo com a correspondência diplomática do faraó Akhenaten e reis de Canaã e Síria, as chamadas cartas de Amarna, um pelotão tinha nove soldados. Seiscentos líderes de pelotões ou unidades militares com nove soldados cada um são 5.400 homens.

       Atribuindo uma esposa e alguns filhos para cada um, temos aproximadamente 20 a 22 mil israelitas saindo do Egito. Sendo que a população de Canaã durante a Idade do Ferro (Ca. 1150 a.C.) era de 50 a 70 mil, esse número de israelitas se encaixa muito bem com o que se conhece por meio de estudos arqueológicos em Israel. Apenas a título de ilustração, a maior cidade de Canaã naquela época (13º século a.C.), Hazor, não era maior do que um quilômetro quadrado. As outras cidades que os israelitas conquistaram eram bem menores do que ela. Uma população de dois milhões de israelitas certamente deixaria um rastro muito claro e impossível de não ser notado em escavações feitas em Israel. Note que não se trata de acreditar ou desacreditar o relato bíblico, mas, sim, de entendê-lo corretamente à luz de sua língua original e do seu contexto histórico.

Origens de Israel: esse é um dos tópicos mais discutidos em simpósios e fóruns bíblicos ao redor do mundo. Não temos espaço para discutir o assunto em um parágrafro, mas basta dizer que existem basicamente três teorias para a origem de Israel em Canaã: (1) o modelo bíblico da “conquista”, como numa leitura equivocada e exagerada do livro de Josué; (2) tribos nômades entrando naquele território pela região da Transjordânia, a região à direita do rio Jordão; e (3) Israel nunca saiu da “Terra Prometida”, eles se originaram e se desenvolveram lá. Uma quarta teoria tem sido defendida por Finkelstein, afirmando que os israelitas eram pastores cananeus que sempre viveram ali na região.

        Se Israel se originou em Canaã, como o articulista sugere, e não de uma saída em massa do Antigo Egito, por que diversos elementos da religião israelita tinham um curioso reflexo da religião egípcia? O tabernáculo no deserto (Êx 25–40), por exemplo, segue o mesmo modelo da tenda de Ramsés II em suas campanhas militares, e os utensílios desse tabernáculo portátil, a arca da aliança, o candelabro, o altar de incenso, as cortinas, entre outros, têm uma clara influência egípcia.

         Se Israel se originou em Canaã, por que a vemos proibição do porco na dieta israelita (Lev. 11), algo facilmente verificável em restos arqueológicos, enquanto os filisteus tinham carne suína como parte fundamental de sua dieta? Porcos eram considerados impuros no Antigo Egito, e até mesmo chamados de bw, abominar, detestar, ou bwt, abominação. Existem elementos na cultura e na religião israelita que não são explicados pela teoria de Finkelstein apresentada na Super.

Yahweh e as origens do monoteísmo: vemos traços de monoteísmo no Antigo Egito muito antes do polêmico faraó Akhenaten. No chamado “Hino a Atom” (Ca. 1500/1400 a.C.), Amun-Ra é exaltado como criador de outros deuses e da humanidade. O conteúdo do hino parece ser mais antigo, tendo sido preservado em uma estátua produzida entre as 13ª e 17ª dinastias (Ca. 1790–1540 a.C.), muito próximo da época dos patriarcas. Por falar neles, Abraão, Isaque e Jacó usam os nomes divinos El e Yahweh de maneira intercambiável. Afirmar que o nome El é reflexo de influências pagãs na religião israelita pode ser uma conclusão apressada, já que nas narrativas patriarcais existe ausência de qualquer adoração a Ba’al, um deus que também fazia parte do mesmo panteão de que El era o líder. Quanto a Yahweh (ou Javé) ser uma divindade vinda de Midiã, realmente existem diversos poemas antigos no Antigo Testamento que parecem sugerir isso (Juízes 5; Habacuque 3, etc.), e o fato de Moisés ter passado boa parte de sua vida adulta ali parece favorecer a ideia de que o libertador israelita tenha aderido ao culto a Yahweh ali. O tópico é controverso, mas por que não considerar esses textos como uma descrição poética da marcha militar de Yahweh e dos israelitas saindo do Egito e passando por Midiã rumo a Canaã? Por que eles precisariam necessariamente ser uma declaração da origem do culto a Yahweh?

“Êxodo” na época da invasão dos “povos do mar”: a sugestão apresentada por Versignassi que o “Êxodo” na verdade foi a fuga de poucos escravos cananeus numa época onde o exército egípcio estava ocupado demais tentando proteger as fronteiras do império é interessante, mas requer uma grande ginástica histórica. Ramsés III lutou contra os “povos do mar”, entre eles os conhecidos filisteus, em 1180 a.C., logo no começo do seu reinado. Alguns anos antes, o faraó Merneptah deixou registrado um documento comemorativo (Estela) de suas campanhas em Canaã, no qual ele menciona pela primeira vez um grupo étnico que ele chama de “Israel” e que vivia ali por volta de 1207 a.C. Nesse documento, Israel é descrito como um grupo nômade vivendo em Canaã, e essa é exatamente a informação que temos de Israel no livro de Juízes. Um povo sem rei e sem uma capital; apenas um centro religioso onde o tabernáculo estava localizado, Siló. Mas em vez de de se manter com esse cenário bem fundamentado, o articulista está pressupondo a teoria de Finkelstein de que os israelitas se originaram em Canaã, uma teoria que está longe de ser unanimidade nos círculos arquelógicos.
Foto 2: Estela do faraó Merneptah


Abertura do “Mar Vermelho”: “Mar Vermelho” é uma tradução baseada na versão grega do Antigo Testamento, a Septuaginta (LXX). O texto hebraico de Êxodo simplesmente traz “mar de juncos” (heb. yam suph), região também conhecida em textos egípcios do Reino Novo como pa tufy, como sugerido pelo arqueólogo austriáco Manfed Bietak. Se reunirmos as coordenadas geográficas e os nomes dos lugares (topografia) mencionados em Êxodo 12:37 e 14:1-9 e compararmos com a documentação egípcia obtida nas inscrições de Seti I, pai de Ramsés II, no Templo de Karnak, em Luxor, podemos localizar com segurança o “mar vermelho”. Tradicionalmente pensa-se que este seria o Golfo de Suez, entre o Egito e a Península do Sinai. Na verdade, trata-se dos lagos el-Ballah, que não existem mais desde que o canal de Suez foi feito no século 19. Estudos naquela região em 1995 revelaram um porto no qual barcos ficavam estacionados. Ele tinha aproximadamente 15 km de extensão e uma profundidade de três metros. Seria perfeitamente possível comparar tamanha quantidade de água com um muro à esquerda e à direita dos israelitas (Êx 14:22).

Foto 3 - A proposta rota do Êxodo está marcada em vermelho.
O “Mar Vermelho” são os lagos El-Ballah, no lado direito do mapa
 
       Esse é o principal aspecto sobrenatural da história e é aqui que os céticos se apegam para desmentir todo o relato do Êxodo. Essa é outra discussão. Bastaria dizer por agora que ninguém no Antigo Oriente colocava uma roupagem histórica num mito para lê-lo como uma história real. Se você compartilha de uma visão de mundo onde Deus é real e Ele é o Criador, eventos miraculosos não são um problema, afinal é Ele quem governa toda a Sua criação.

       Hoffmeier apresentou recentemente duas palestras sobre a geografia do Êxodo e as diversas teorias que circulam na internet. Uma delas foi com o geólogo Stephen Moshier. Você pode ter acesso a elas aqui e aqui. Vale a pena também ler um artigo publicado há alguns anos neste blog pelo Dr. Rodrigo Silva (confira).

Levitas: a teoria de que os levitas foram o único grupo que esteve no Egito não é nova. Desde muito cedo, acadêmicos reconheceram a presença de nomes egípicios entre alguns membros dessa tribo. Se esse é o argumento, deveríamos incluir a tribo de Naftali, já que um dos seus líderes se chamava Ahira, uma combinação das palavras “amigo” e “Rá”, em hebraico e egípcio, respectivamente (Nm 1:15; 2:29; 7:78; 8:3; 10:27). Também deveríamos incluir a tribo de Judá, já que Hur, que ajudou Moisés a manter seus braços erguidos numa batalha contra os amalequitas, muito provavelmente é o nomedo deus egípcio Hórus (hr). Recentemente, outro acadêmico, Richard Hess, fez um estudo dos nomes daqueles que saíram do Egito e a conclusão dele é a de que são nomes de várias etnias (egípcios, semitas, hititas e hurritas), no mesmo período do Êxodo, fortalecendo o relato bíblico que afirma que um “misto de gente” saiu do Egito com os israelitas. (Êx 12:38).

Leis do Pentateuco: a opinião quase generalizada de biblistas treinados única e exclusivamente em hebraico, e treinamento amador nas línguas do Antigo Oriente, é que o Pentateuco foi escrito na época do rei Josias, rei de Jerusalém, no sétimo século a.C., e não na época de Moisés. Mas os mesmos biblistas parecem se esquecer de que códigos eram comuns no Antigo Oriente, entre eles os textos sumerianos das leis de Ur-Nammu (2100 a.C.), Lipit-Ishtar (1930 a.C.), e o famoso código de Hamurabi (1780 a.C.), escrito em acadiano. A estrutura do livro de Deuteronômio, por exemplo, é idêntica à de tratados entre um suzerano e seus vassalos do século 13 a.C., muito comuns no Antigo Oriente, na época de Moisés e dos israelitas que saíram do Egito, não na época do rei Josias. Colocar a produção do Pentateuco na época desse rei é o mesmo que ignorar a vasta literatura do Antigo Oriente, disponível para ser comparada. 

Escravidão: escrevi sobre escravidão no Antigo Testamento em resposta a outra matéria do mesmo autor (confira aqui). Se você assitiu ao recente filme “12 anos de escravidão”, deve se lembrar de uma cena em que o dono de uma fazenda começa o dia de trabalho lendo um trecho de Êxodo 21 para seus escravos negros. É inegável que muitas atrocidades foram cometidas em nome do cristianismo, apesar de seu Fundador jamais sancioná-las. Mas a pergunta é: O texto bíblico estava realmente autorizando essas práticas? No caso da escravidão, aí vão alguns breves comentários à luz de Êxodo 21:1-11: (a) por escravidão, entenda servidão. O trabalho de seis anos era para pagar dívidas; (b) o texto aparentemente sugere que a escravidão separava famílias, já que após o período de trabalho o homem deixaria a esposa e os filhos, caso houvesse começado solteiro seus seis anos de trabalho. Em outra passagem em que a mesma lei é repetida, é-nos dito que mulheres também estavam sujeitas ao mesmo período de trabalho (Dt 15:12). Ou seja, a mudança no status matrimonial não anulava o contrato de trabalho de seis anos. A esposa, que também seria escrava, teria que cumprir o período de servidão.

Essa foi a primeira lei que Deus deu aos israelitas após o pronunciamento dos Dez Mandamentos (Êx 20). Se você ler atentamente esse texto (Êx 21:1-11), vai notar a constante repetição de um verbo: “sair”. Esse é o mesmo verbo utilizado para falar da “saída” (Êxodo) dos israelitas. Em outras palavras, o Legislador de Israel, Yahweh, estava dizendo: vocês tiveram um êxodo como escravos, agora seus servos também devem ter um.

Conclusão

      Quando convocado a deixar os israelitas saírem do Egito, faraó respondeu prepotentemente: “Quem é o Senhor para eu Lhe ouça a voz e deixe ir a Israel? Não conheço o Senhor, nem tampouco deixarei ir a Israel” (Êx 5:2). Sendo assim, Yahweh fez questão de se revelar a ele mostrando a impotência da religião egípcia. Diversos textos egípcios falam do “braço forte” de faraó, mas ironicamente o Deus hebreu usa essa expressão para falar do Seu poder. Por meio de um simples cajado de pastor Ele fez Seus grandes atos na terra do Egito, não com os cetros carregados de simbolismo e poderes mágicos usados pelo faraó. Nessa guerra entre Deus e um rei com complexo de divindade, faraó finalmente descobriu quem era Yahweh.

       Numa era marcada pela mesma arrogância faraônica diante da existência de Deus, a história da libertação dos israelitas do Egito é um constante lembrete para nossa geração do perigo da exaltação do poder e da capacidade humanos. Ao invés de “Deuses e Reis”, a história bíblica é entre um Deus e um rei arrogante. Verseginassi diz ser grato aos israelitas pelas grandes histórias e pelos filmes. Creio que a história do Êxodo nos oferece algo mais importante para sermos gratos. Ela nos lembra da inutilidade do orgulho humano diante de um Ser mais poderoso.

(Luiz Gustavo Assis é teólogo e mestrando em Arqueologia Bíblica e do Oriente Médio na Trinity International University)

Via: Criacionismo.com