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segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Por que Deus endureceu o coração de faraó?

“Disse mais o Senhor a Moisés: "Quando você voltar ao Egito, tenha o cuidado de fazer diante do faraó todas as maravilhas que concedi a você o poder de realizar. Mas eu vou endurecer o coração dele, para não deixar o povo ir. ” (Êxodo 4:21) (NVI)

     Alguns críticos que estudam essa passagem de forma isolada e superficialmente, argumentam que Deus é um tirano cruel e faz com que as pessoas obrigatoriamente lhe desobedeça, com o simples intuito de puni-las e mostrar a Sua soberania de forma despótica. Nada mais longe da verdade! Um estudo mais acurado, demonstra que, na realidade, graças à sua omnisciência, Deus conhece os sentimentos mais íntimos de todas as pessoas e todas as coisas estão nuas e patentes diante dos Seus olhos. (cf. Sl:139; Hb. 4:12-13).

       Podemos começar argumentando que, Faraó, pelo que podemos perceber por várias passagens bíblicas, não era inocente ou piedoso, mas um homem obstinado e de dura cerviz, responsável pela opressão ao povo de Israel. Além disso, o povo egípcio através do governo dos seus faraós, que se consideravam autênticos “deuses”, escravizara durante mais de 400 anos o povo hebreu, e foram responsáveis por inúmeras mortes, como no caso da ordem para matar todos os bebês hebreus no momento em que nascessem.

     Existem várias linhas interpretativas concernente ao endurecimento do coração de Faraó, mas praticamente todas elas convergem para a mesma direção: a Soberania de Deus e a responsabilidade humana. Tanto Teólogos de linha arminiana, como os de linha calvinista tentam equilibrar a questão, demonstrando que em última análise, nos termos mais abrangentes possíveis, toda condição humana está sob o controle de Deus (cf. Is: 45.7)  Devemos analisar essa questão, em três estágios [1]: Primeiro, a pessoa endurece o coração conscientemente:
“Mas quando o faraó percebeu que houve alívio, obstinou-se em seu coração e não deu mais ouvidos a Moisés e a Arão, conforme o Senhor tinha dito. ” (Êxodo 8:15) (NVI) 
“Mas também dessa vez o faraó obstinou-se em seu coração e não deixou que o povo saísse. ” (Êxodo 8:32) (NVI) 
“Quando o faraó viu que a chuva, o granizo e os trovões haviam cessado, pecou novamente e obstinou-se em seu coração, ele e os seus conselheiros. O coração do faraó continuou endurecido, e ele não deixou que os israelitas saíssem, como o Senhor tinha dito por meio de Moisés. ” (Êxodo 9:34-35) (NVI)
       Faraó decidiu resistir e se opor à vontade de Deus e, assim, tornou o próprio coração mais inflexível. Segundo, em consequência disso, o coração se endurece pela ação das leis psicológicas (7.13-14,22; 9.7,34-35). 
“Contudo, o coração do faraó se endureceu e ele não quis dar ouvidos a Moisés e a Arão, como o Senhor tinha dito. Disse o Senhor a Moisés: O coração do faraó está obstinado; ele não quer deixar o povo ir. ” (Êxodo 7:13-14) (NVI) 
“Mas os magos do Egito fizeram a mesma coisa por meio de suas ciências ocultas. O coração do faraó se endureceu, e ele não deu ouvidos a Moisés e a Arão, como o Senhor tinha dito. ” (Êxodo 7:22) (NVI) 
“O faraó mandou verificar e constatou que nenhum animal dos israelitas havia morrido. Mesmo assim, seu coração continuou obstinado e não deixou o povo ir. ” (Êxodo 9:7) (NVI) 
“Quando o faraó viu que a chuva, o granizo e os trovões haviam cessado, pecou novamente e obstinou-se em seu coração, ele e os seus conselheiros. O coração do faraó continuou endurecido, e ele não deixou que os israelitas saíssem, como o Senhor tinha dito por meio de Moisés. ” (Êxodo 9:34,35) (NVI) (grifo meu)
    Terceiro, quando Deus viu que Faraó estava determinado a resistir, Ele mesmo endureceu o coração do monarca (7.3; 9.12; 10.1,20,27; 14.4,8). Tratava-se de julgamento divino sobre o indivíduo (9.11,12), o qual enquanto tivesse vida, coragem física e poder humano continuaria resistindo a Deus. [2] Certamente não devemos dizer que Deus leva o homem a ser mau. Faraó era responsável por sua má escolha e por afastar seu coração de Deus. Porém, quando a pessoa fixa sua vontade contra Deus, então Deus a entrega aos desejos ignóbeis que existe em seu coração (Rm 1.24); “como eles se não importaram de ter conhecimento de Deus, as sim Deus os entregou a um sentimento perverso” (Rm 1.28). Deus mostra misericórdia a quem se entrega a Ele e endurece a quem o resiste (Rm: 9.18). Talvez o julgamento de Deus coloque alguns que se afastam da luz em certo lugar onde eles não podem mais se voltar para Ele (Hb 10.26-30). Deus concedeu vida e habilidade para a resistência de Faraó a fim de fazer maior demonstração de seu poder e glória. [3] Deus só endurece o coração de quem primeiro endurece o próprio coração. Ele ocasiona este endurecimento mediante intervenção extraordinária ou pelas respostas comuns às experiências da vida. [4]

       O envolvimento pessoal e direto do Senhor nos negócios dos homens para que seus propósitos fossem realizados é revelado na maneira como Deus informou Moisés sobre o que aconteceria. Faraó também foi advertido de que a sua recusa traria juízo sobre ele (v. 23). Anteriormente fora dito a Moisés que Deus estava convicto da recusa de Faraó (3.19). Essa interação entre o endurecimento da parte Deus e o endurecimento do coração da parte de Faraó deve ser mantida em equilíbrio. Dez vezes (4.21; 7.3; 9.12; 10.1,20,27; 11.10; 14.4,8,17) o registro histórico observa especificamente que Deus endureceu o coração do rei, e dez vezes (7.13-14,22; 8.15,19,32; 9.7,34-35; 13.15) o registro indica que o rei endureceu o seu próprio coração. O apóstolo Paulo usou esse endurecimento como um exemplo da vontade inescrutável de Deus e seu absoluto poder para intervir como lhe apraz, obviamente, porém, nunca sem perder a responsabilidade pessoal pelas ações tomadas (Rm 9.16-18). O enigma teológico levantado por essa interação da ação de Deus com a ação de Faraó somente pode ser resolvido pela aceitação do relato da maneira como se encontra e refugiando-se na onisciência e onipotência de Deus, que planejou e realizou a libertação de Israel do Egito; ao fazer isso, Deus também de Faraó. Em cada ocasião é registrado: "como o SENHOR tinha dito". Portanto, o que aconteceu provém de duas perspectivas intimamente relacionadas: 

1) Deus estava cumprindo o seu propósito por meio de Faraó; e 
2) Faraó foi pessoalmente responsável pelas suas ações, como se vê no v. 13. [5]

       Após essa análise, gostaria de acrescentar à essa conclusão, um fato trazido á tona pelo arqueólogo bíblico, Randall Price em sua maravilhosa obra[6], que nos ajuda a elucidar ainda mais essa questão:

A pesagem do coração
      “Descobertas egípcias nos proporcionam uma fascinante explicação sobre como Deus pode ter decidido “endurecer” o coração de Faraó. Na teologia do antigo culto egípcio à morte, conforme descrito no egípcio “Livro dos Mortos, ” depois da morte, o falecido embalsamado e colocado na tumba tinha que enfrentar um julgamento na Sala do Julgamento para determinar sua culpa ou inocência. Se julgado culpado seu destino era a destruição; se inocente, então a vida eterna com suas recompensas. Para passar por este julgamento, o morto tinha que negar uma longa lista de pecados que era lida contra ele e com êxito declarar que era puro. Este ato era chamado de “Confissão Negativa, ”[7] e enquanto estava sendo conduzido, o coração do falecido (descrito num canopo) estava sendo pesado em escalas de julgamento contra o padrão da verdade (representado pelo símbolo dos hieróglifos para pena). Este julgamento é vividamente representado num mural pintado conhecido como “a pesagem do coração. ” 

Escaravelho de pedra
       Contra o testemunho do falecido, seu coração confessaria a verdade, mostrando que sua Confissão Negativa era uma mentira. O coração, portanto, subiria as escalas em favor do julgamento que resultaria em destruição. Uma vez que todos os homens pecam e que a inclinação do coração é confessar este pecado, os engenhosos egípcios desenvolveram um meio de evitar que o coração contradissesse a Confissão Negativa. Eles fizeram isso escrevendo encantamentos sobre uma imagem de pedra de seus escaravelhos sagrados que eram entalhados na forma de um coração. [8] Este coração em forma de escaravelho de pedra era então colocado dentro ou em cima da cavidade do peito durante a mumificação (um fato revelado por raios-X de múmias egípcias).[9] Vários encantamentos que ordenavam ao coração: “não se rebele contra mim” ou “não testemunhe contra mim” transferiam o caráter do coração de pedra para o coração de carne no pós-túmulo, tornando-o “duro” e incapaz de falar.[10] Este ritual de “endurecimento do coração” revertia a função natural do coração flexível e resultava na salvação, desde que o falecido fosse agora declarado sem pecado através do silêncio.[11]

       Todavia, quando Deus “endureceu” o coração de Faraó, que como um deus em si mesmo representava a salvação do Egito, Ele reverteu a esperança teológica de todos os egípcios. Este "endurecimento" resultou na incapacidade de Faraó naturalmente responder às assustadoras pragas, e assim pará-las, rendendo-se à solicitação de Moisés. Portanto, ao invés de o “endurecimento do coração” trazer salvação, ele trouxe destruição. [12] Assim, a arqueologia proveu nova perspectiva de um conceito teológico difícil dando-nos o cenário apropriado e o esquema das crenças egípcias que, através de Moisés, Deus queria confrontar. ” 

       Interessante como um maior aprofundamento na Palavra de Deus e a busca pelo seu entendimento nos traz paz e um maior conhecimento de Deus e de sua vontade.

Maranata!

Prof. Saulo Nogueira.

Referências:

[1] Comentário Bíblico Beacon. Pentateuco. Rio de Janeiro: CPAD, 4ª edição, 2012. pg. 153-154.

[2] EXELL, Joseph S. “Homiletical Commentary on the Book of Exodus”. The Preacher’s Complete Homiletical Commentary on the Old Testament. Nova York: Funk & Wagnalls, 1892. Pg. 139.

[3] CONNELL, J. Clement. “Exodus.” The New Bible Commentary. Editado por R. Davidson. Grand Rapids: William B. Eerdmans Publishing Company, 1954. Pg.110.

[4] JOHNSON, Philip C. “Exodus.”The Wycliffe Bible Commentary. Editado por Charles F. Pfeiffer e Everett F. Harrison. Chicago: Moody Press, 1962. Pg. 58.

[5] Bíblia de Estudo John MacArthur. 

[6] Price, Randall. Arqueologia Bíblica. Rio de Janeiro: CPAD, 5ª edição, 2005. pg. 101-102.

[7] F. W. Read, Egyptian Religion and Ethics (Londres: Watts & Company, 1925), pg. 110, 111.

[8] Para a completa documentação deste ritual, vide A. Hermann, “Das Steinhartes Herz”, Jahrbuch für Antike und Christentum, volume 4 (M unster: Aschendorffsche Verlagsbuchandlung, 1961), pg. 102, 103.

[9] James E. Harris e Kent R. Weeks, X-Raying the Pharaohs (Nova York: Charles Scribners Sons, 1973), pg. 49.

[10] Para outros encantamentos vide J. Zandee, Death As an Enemy (Leiden: E. J. Brill, 1960), pg. 259-262.

[11] E. A. W. Budge, Egyptian Magic (Londres: K. Paul, Trench, Tribner & Company, 1899), pg. 35-37.

[12] Para completa análise e defesa desta posição sobre as narrativas das pragas do Êxodo, vide Gregory K. Beale, “The Exodus Hardening Motif of YHWH as a Polemic”, tese de Mestrado em Teologia, Dallas Theological Seminary (Dallas, Texas, 1976), especialmente as pg. 46-52.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Os cristãos devem guardar a Lei de Moisés?

       Cristãos renascidos precisam obedecer à Lei de Moisés ou estão dispensados de cumpri-la? Na Igreja de Jesus surgem perguntas como: “Ainda devo guardar a Lei?” “Os Dez Mandamentos são obrigatórios? ” “Devo guardar o sábado? ”, etc. Existem muitas dúvidas em relação à Lei e nossa posição diante de suas exigências. C.H. Mackintosh diz acertadamente em seu livro “Estudos Sobre o Livro de Êxodo” (da Série de Notas Sobre o Pentateuco):

A Lei e a Graça

"É da maior importância compreender o verdadeiro caráter e o objeto da lei moral, como nos é apresentada neste capítulo [Êx 20]. Existe uma tendência do homem para confundir os princípios da lei com graça, de sorte que nem a lei nem a graça podem ser perfeitamente compreendidas. A lei é despojada da sua austera e inflexível majestade, e a graça é privada de todos os seus atrativos divinos. As santas exigências de Deus ficam sem resposta, e as profundas e múltiplas necessidades do pecador permanecem insolúveis pelo sistema anômalo criado por aqueles que tentam confundir a lei com a graça. Com efeito, nunca podem confundir-se, visto que são tão distintas quanto o podem ser duas coisas. A lei mostra-nos o que o homem deveria ser; enquanto que a graça demonstra o que Deus é. Como poderão, pois, ser unidas num mesmo sistema? Como poderia o pecador ser salvo por meio de um sistema formado em parte pela lei e em parte pela graça? Impossível: ele tem de ser salvo por uma ou por outra". (página 203) 


Em que consiste a Lei de Moisés?

     
     Quando se faz referência à Lei de Moisés nas igrejas, geralmente está se falando dos Dez Mandamentos. Mas esse é um engano, pois cumprir a Lei Mosaica é muito mais: ela é composta de todo o código de leis formado por 613 disposições, ordens e proibições. Em hebraico a Lei é chamada de Torá, que pode significar lei como também instrução ou doutrina. O conteúdo da Torá são os cinco livros de Moisés, mas o termo Torá é aplicado igualmente ao Antigo Testamento como um todo. Neste artigo usaremos o termo Torá para designar os cinco livros de Moisés, especialmente a compilação das leis mosaicas, as 613 disposições, ordens e proibições que mencionamos.

     A Lei pode ser dividida em Dez Mandamentos, que no hebraico são chamadas simplesmente de As Dez Palavras. Eles regulamentam a relação do ser humano com Deus e com seu próximo. No código mosaico encontramos também o Livro da Aliança das Ordenanças Civis e Religiosas, que explica e expõe detalhadamente o significado dos Dez Mandamentos para Israel. O código mosaico ainda contém as leis cerimoniais, que regulavam o ministério no santuário do Tabernáculo e, posteriormente, no Templo. Elas tratavam também da vida e do serviço dos sacerdotes. Em conjunto, todas essas disposições, ordens e proibições formam a Lei Mosaica. No judaísmo ortodoxo, além dessas 613 ordenanças, há ainda as leis do Talmude, a transmissão oral dos preceitos religiosos e jurídicos compilados por escrito entre os séculos III-VI d.C. A Torá e o Talmude são o centro da devoção judaica.  

Jesus Cristo e a Lei de Moisés


     É interessante observar que Jesus posicionou-se claramente a favor do código legal mosaico, pois disse: “Não penseis que vim revogar a Lei ou os profetas; não vim para revogar, vim para cumprir” (Mt 5.17). Entretanto, Ele rejeitou com veemência as ordenanças humanas e as obrigações impostas apenas pela tradição judaica (compiladas, posteriormente, no Talmude), afirmando: “Negligenciando o mandamento de Deus, guardais a tradição dos homens. E disse-lhes ainda: Jeitosamente rejeitais o preceito de Deus para guardardes a vossa própria tradição. Pois Moisés disse: Honra a teu pai e a tua mãe; e: Quem maldisser a seu pai ou a sua mãe seja punido de morte. Vós, porém, dizeis: Se um homem disser a seu pai ou a sua mãe: Aquilo que podereis aproveitar de mim é Corbã, isto é, oferta para o Senhor, então, o dispensais de fazer qualquer coisa em favor de seu pai ou de sua mãe, invalidando a palavra de Deus pela vossa própria tradição, que vós mesmos transmitistes; e fazeis muitas outras coisas semelhantes” (Mc 7.8-13). Jesus defendeu firmemente a Palavra de Deus. Ele considerava o Pentateuco como realmente escrito por Moisés, inspirado por Deus e normativo para Sua própria vida e Seu ministério, pois afirmou: “Porque em verdade vos digo: até que o céu e a terra passem, nem um i ou um til jamais passará da Lei, até que tudo se cumpra. Aquele, pois, que violar um destes mandamentos, posto que dos menores, e assim ensinar aos homens, será considerado mínimo no reino dos céus; aquele, porém, que os observar e ensinar, esse será considerado grande no reino dos céus” (Mt 5.18-19). 

A quem foi dada a Lei de Moisés?


     As passagens bíblicas seguintes documentam que a Lei de Moisés foi dada ao povo judeu, ou seja, a Israel:

“E que grande nação há que tenha estatutos e juízos tão justos como toda esta lei que hoje vos proponho?” (Dt 4.8).

“Mostra a sua palavra a Jacó, as suas leis e os seus preceitos, a Israel. Não fez assim a nenhuma outra nação; todas ignoram os seus preceitos. Aleluia!” (Sl 147.19-20).

“São estes os estatutos, juízos e leis que deu o Senhor entre si e os filhos de Israel, no monte Sinai, pela mão de Moisés” (Lv 26.46).

“São israelitas. Pertence-lhes a adoção e também a glória, as alianças, a legislação, o culto e as promessas” (Rm 9.4). 

A Lei de Moisés foi entregue a Israel


     A Lei fez de Israel algo especial, transformando-o em parâmetro para todos os outros povos. A Bíblia exprime essa verdade da seguinte maneira: “Porque tu és povo santo ao Senhor, teu Deus; o Senhor, teu Deus, te escolheu, para que lhe fosses o seu povo próprio, de todos os povos que há sobre a terra” (Dt 7.6). Por conseqüência, o Israel do Antigo Testamento era a única nação cuja legislação, jurisdição e jurisprudência tinham sua origem na pessoa do Deus vivo. Hoje não é essa a situação de Israel, pois o povo continua incrédulo e não está sob o governo do Messias. No futuro, quando Israel tiver se convertido a Jesus, a Lei divina será seguida por todo o povo judeu. O próprio Deus estabelecerá a teocracia como forma de governo, definirá a legislação e executará justiça em Israel. Sobre a situação vigente quando o Messias estiver reinando, a Bíblia diz: “Deleitar-se-á no temor do Senhor; não julgará segundo a vista dos seus olhos, nem repreenderá segundo o ouvir dos seus ouvidos; mas julgará com justiça os pobres e decidirá com equidade a favor dos mansos da terra; ferirá a terra com a vara de sua boca e com o sopro dos seus lábios matará o perverso” (Is. 11.3-4).

     A situação futura das nações será como descreve Isaías 2.3: “Irão muitas nações e dirão: Vinde, e subamos ao monte do Senhor e à casa do Deus de Jacó, para que nos ensine os seus caminhos, e andemos pelas suas veredas; porque de Sião sairá a lei, e a palavra do Senhor, de Jerusalém”. Deus está preparando o cumprimento dessa profecia. Por isso, não devemos nos admirar quando todo o poder das trevas se levanta para atrapalhar, pois o que está em jogo é o domínio divino sobre o mundo, domínio que virá acompanhado de todas as suas abençoadas consequências! Quando o Senhor reinar, pecado será pecado, injustiça e mentira serão chamadas pelos seus nomes e acontecerá o que está escrito em Jeremias 25.30-31: “O Senhor lá do alto rugirá e da sua santa morada fará ouvir a sua voz; rugirá fortemente contra a sua malhada, com brados contra todos os moradores da terra, como o eia! Dos que pisam as uvas. Chegará o estrondo até à extremidade da terra, porque o Senhor tem contenda com as nações, entrará em juízo contra toda a carne; os perversos entregará à espada, diz o Senhor”. A oração de Jesus também se cumprirá: “Pai nosso que estás nos céus, santificado seja o teu nome; venha o teu reino; faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu” (Mt 6.9-10). 

Até que ponto as nações têm o dever de seguir a Lei Mosaica?


     Provérbios 29.18 diz a respeito: “Não havendo profecia, o povo se corrompe; mas o que guarda a lei, esse é feliz”. Toda nação que seguir esse conselho se dará bem!

     A Lei de Moisés foi entregue ao povo de Israel com a seguinte finalidade: “Porque o mandamento é lâmpada, e a instrução, luz; e as repreensões da disciplina são o caminho da vida” (Pv 6.23). Deus queria que Israel fosse uma clara luz no meio da escuridão espiritual em que viviam os povos e um contraponto às trevas do pecado. Por essa razão Balaão, o profeta gentio, foi compelido a proclamar: “...eis que é povo que habita só e não será reputado entre as nações. Que boas são as tuas tendas, ó Jacó! Que boas são as tuas moradas, ó Israel! ” (Nm 23.9; 24.5). Balaão reconheceu que Deus era com Israel, que Ele velava sobre esse povo, morava no meio dos israelitas e lhes dava segurança e estabelecia a ordem através da Lei.

     Mesmo a meretriz Raabe, que vivia na cidade ímpia de Jericó, sentiu-se obrigada a declarar aos dois espias judeus:

     “Bem sei que o Senhor vos deu esta terra, e que o pavor que infundis caiu sobre nós, e que todos os moradores da terra estão desmaiados. Porque temos ouvido que o Senhor secou as águas do mar Vermelho diante de vós, quando saíeis do Egito; e também o que fizestes aos dois reis dos amorreus, Seom e Ogue, que estavam além do Jordão, os quais destruístes” (Js 2.9-11). 

     Quando a rainha de Sabá (atual Iêmen) visitou o rei Salomão, exclamou admirada: 

     “Foi verdade a palavra que a teu respeito ouvi na minha terra e a respeito da tua sabedoria. Eu, contudo, não cria no que se falava, até que vim e vi com meus próprios olhos. Eis que não me contaram a metade da tua sabedoria; sobrepujas a fama que ouvi. Felizes os teus homens, felizes estes teus servos que estão sempre diante de ti e ouvem a tua sabedoria! Bendito seja o Senhor, teu Deus, que se agradou de ti para te colocar no seu trono como rei para o Senhor, teu Deus; porque o teu Deus ama a Israel para o estabelecer para sempre; por isso, te constituiu rei sobre ele, para executares juízo e justiça” (2 Cr 9.5-8).

     O nome de Deus era conhecido muito além das fronteiras de Israel. As nações reconheciam que Israel era singular, admiravam seu maravilhoso Templo e vinham para louvar seu Deus. Assim era respondida a oração que Salomão fizera por ocasião da inauguração do Templo: “Também ao estrangeiro, que não for do teu povo de Israel, porém vier de terras remotas, por amor do teu nome (porque ouvirão do teu grande nome, e da tua mão poderosa, e do teu braço estendido), e orar, voltado para esta casa, ouve tu nos céus, e faze tudo o que o estrangeiro te pedir, a fim de que todos os povos da terra conheçam o teu nome, para te temerem como o teu povo de Israel e para saberem que esta casa, que eu edifiquei, é chamada pelo teu nome” (1 Rs 8.41-43).

     Até que ponto, então, as nações do mundo têm o compromisso de obedecer à Lei de Moisés? Bem, na verdade ninguém tem a obrigação de cumprir lei alguma. Nenhuma nação é obrigada a se orientar pelo código de leis divinas. Mas quando, de livre e espontânea vontade, ela se sujeita às ordens de Deus, essa é a melhor escolha, com os melhores resultados práticos. Cada povo que segue as orientações do Senhor experimenta o que diz o Salmo 19.8-11: “Os preceitos do Senhor são retos e alegram o coração; o mandamento do Senhor é puro e ilumina os olhos. O temor do Senhor é límpido e permanece para sempre; os juízos do Senhor são verdadeiros e todos igualmente, justos. São mais desejáveis que o ouro, mais do que muito ouro depurado; e são mais doces do que o mel e o destilar dos favos. Além disso, por eles se admoesta o teu servo; em os guardar, há grande recompensa”.

     A História nos ensina que os povos que desprezaram as leis divinas de maneira consciente, que as pisotearam, cedo ou tarde desapareceram de cena. Basta pensar na ex-República Democrática Alemã ou na União Soviética, que não existem mais. Mas os povos que estabelecem sua legislação e fundamentam sua constituição sobre as leis divinas, mesmo que seja de maneira imperfeita, são povos abençoados. A Bíblia diz: “Bem-aventurado o povo a quem assim sucede! Sim, bem-aventurado é o povo cujo Deus é o Senhor! ” (Sl 144.15).

     Será que hoje vivemos estressados, emocionalmente doentes e desorientados porque deixamos de obedecer à Palavra de Deus? Será que os líderes da economia mundial e os políticos tomam tantas decisões equivocadas por negligenciarem a Palavra do Senhor? Será que hoje as pessoas andam insatisfeitas e infelizes porque desprezam as ordens divinas? Com toda a certeza, pois o desprezo pelos decretos divinos sempre acaba conduzindo à ruína – espiritual, emocional e financeira. 

A Igreja de Jesus deve cumprir a Lei?


    O Senhor Jesus, cabeça da Igreja (Ef 5.23), validou toda a Lei Mosaica, inclusive as 613 disposições, ordens e proibições, ao afirmar: “É mais fácil passar o céu e a terra do que cair um til sequer da Lei” (Lc 16.17). Ele avançou mais um passo, dizendo: “Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, vim para cumprir” (Mt 5.17). Jesus, ao nascer, também foi colocado sob a Lei: “vindo, porém, a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei” (Gl 4.4). Ele foi criado e educado segundo os preceitos da Lei, pois cumpria suas exigências. O Senhor Jesus, porém, não apenas se ateve pessoalmente a toda a Lei de Moisés. Foi essa mesma Lei que O condenou à morte. Quando tomou sobre Si todos os nossos pecados, teve de morrer por eles, pois a Lei assim o exige. Vemos que a Lei foi cumprida e vivida por Jesus, e através dEle ela alcançou seu objetivo. Por isso está escrito que “...o fim da Lei é Cristo” (Rm 10.4).

     Quando sou confrontado com a Lei Mosaica, ela me apresenta uma exigência que devo cumprir. Deus diz em Sua Lei : “...eu sou santo...” e exige de nós: “...vós sereis santos...” (Lv 11.44-45). Assim, a Lei me coloca diante do problema do pecado, que não posso resolver sozinho. O apóstolo Paulo escreve: “...eu, todavia, sou carnal, vendido à escravidão do pecado” (Rm 7.14).

     A lei expõe e revela nossa incapacidade de atender às exigências divinas, pois ela nos confronta com o padrão de Deus. Ela nos mostra a verdadeira maneira de adorá-lO, estabelece as diretrizes segundo as quais devemos viver e regulamenta nossas relações com nosso próximo. Além disso, a Lei é o fundamento que um dia norteará a sentença que receberemos quando nossa vida for julgada por Deus. Pela Lei, reconhecemos quem é Deus e como nós devemos ser e nos portar. Mas existe uma coisa que a Lei não pode: ela não consegue nos salvar. Ela nos expõe diante de Deus e mostra que somos pecadores culpados. Essa é sua função.

     Lembremos que Jesus disse: “Não penseis que vim revogar a Lei ou os profetas; não vim para revogar, vim para cumprir” (Mt 5.17). O Filho de Deus está afirmando que veio a este mundo para cumprir a Lei com todas as suas 613 disposições, ordenanças e proibições. Ele realmente cumpriu todas elas, pelo que está escrito: “...o fim da lei é Cristo” (Rm 10.4). Ele conduziu a Lei ao seu final; ela está cumprida. Por que Ele o fez? Encontramos a resposta quando lemos o versículo inteiro: “Porque o fim da lei é Cristo, para justiça de todo aquele que crê” (Rm 10.4). Jesus cumpriu a Lei para todos, mas Sua obra é eficaz apenas para todo aquele que crê. Segundo a Bíblia, que tipo de fé é essa? É a fé que sabe...

...que pessoa alguma é capaz de cumprir a Lei e que ninguém consegue satisfazer as exigências divinas.

... que para isso o Filho de Deus, Jesus Cristo, veio ao mundo, cumprindo as exigências da Lei até nos mínimos detalhes.

...que Jesus Cristo tomou sobre Si, em meu lugar, o castigo da Lei, que é a morte.

     Agora, talvez, muitos perguntem: Não estamos removendo a base que sustenta uma ética comprometida ao dizermos que a Lei não vale mais para os cristãos renascidos? Será que saberemos como nos comportar e o que é certo ou errado se dissermos que não é preciso cumprir a Lei de Moisés?

Jesus estabeleceu uma ética muito superior...

...à ética da Lei de Moisés. Ela exige: “Não adulterarás” (Êx 20.14). Mas Jesus disse: “qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, no coração, já adulterou com ela” (Mt 5.28). A lei de Moisés impõe: “Não matarás” (Êx 20.13). Mas Jesus ensina: “Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mt 5.44).

     A ética estabelecida por Jesus Cristo supera tudo que já houve em matéria de lei moral e toda e qualquer possibilidade dentro da ética humana. Jesus exige que cumpramos normas diametralmente opostas ao nosso comportamento natural. Essa ética estabelecida por Jesus só pode ser seguida por pessoas que nasceram de novo, que entregaram todo o seu ser ao Senhor: “Porei no seu coração as minhas leis e sobre a sua mente as inscreverei” (Hb 10.16). A Bíblia diz, ainda, acerca dos renascidos: Deus “...nos habilitou para sermos ministros de uma nova aliança, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata, mas o espírito vivifica” (2 Co 3.6). Curiosamente, Paulo escreveu essas palavras justamente à igreja que tinha mais problemas com ira, ciúme, imoralidade, libertinagem e impureza espiritual entre seus membros. Mas, ao admoestá-los, ele estava dizendo aos crentes de Corinto – e, por extensão, a todos nós – que é possível ter uma ética superior e viver segundo os elevados preceitos de Jesus quando nascemos de novo. Com isso os cristãos não estão rejeitando a ética da Lei de Moisés mas estabelecem uma ética muito superior, a ética do Espírito Santo, do qual a Bíblia diz: “Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio. Contra estas coisas não há lei” (Gl 5.22-23). 

Conclusão


     Como, porém, colocamos isso em prática? Simplesmente vivendo um relacionamento íntimo e autêntico com Jesus Cristo. O que pensamos, o que falamos, o que fazemos ou deixamos de fazer deve ser determinado somente por Jesus: “E tudo o que fizerdes, seja em palavra, seja em ação, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus” (Cl 3.17). Na prática, devemos nos comportar como se tudo o que fizermos levasse a assinatura de Jesus. Somente quando nos entregarmos completamente ao Senhor Jesus poderemos produzir fruto espiritual. Quando submetermos nosso ser ao Senhor, o fruto do Espírito poderá crescer em nós em todos os seus nove aspectos. Talvez nós mesmos nem o percebamos, mas certamente as pessoas que nos cercam perceberão que o Espírito está frutificando em nós. Que seja assim na vida de todos nós!

Paz do Senhor à todos
Prof. Saulo Nogueira


Artigo adaptado de Samuel Rindlisbacher

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Um humilde conselho aos pregadores

     Por: Saulo Nogueira

     Nesses anos de caminhada com Cristo, tenho tido o privilégio de aprender muitas coisas com o mestre. E uma delas é em relação à pregação da Palavra. Eu, como Bacharel em Teologia e professor, dedico grande parte do meu tempo em leituras de Livros apologéticos, história, comentários Bíblicos e, principalmente da Bíblia. Uma boa formação e base teológica é imprescindível para que você consiga entender o contexto histórico, fazer uma boa exegese bíblica e transmitir a mensagem preservando a intenção do autor e do livro. Muitas distorções doutrinárias poderiam ser evitadas simplesmente observando regras básicas de hermenêutica. Porém, aprendi que esse conhecimento é muito importante para que você, como o pregador e professor, compreenda e repasse a informação de forma correta, mas não deve ser exaustivamente explorado na hora da pregação da Palavra. Como assim?

     Você buscar um aprofundamento teológico para tirar o máximo do texto bíblico é muito importante, porém na hora de expor a mensagem, temos que ter o cuidado em filtrar toda essa informação teológica e transmitir a Palavra de Deus de uma maneira mais clara e simples possível, que comunique a Verdade de uma forma inteligível para o as pessoas leigas. A grande maioria das pessoas não está interessada em Argumentos cosmológicos e Ontológicos, sobre Patrística, Concílios Universais, supra ou infra-lapsarianismo, etc. Isso é muito interessante para ser debatidos em estudos acadêmicos, Escola bíblica, e em sites de apologética, como o logos apologética hoje. Mas não são assuntos essenciais para o conhecimento para a Salvação. São assuntos secundários que geram divergências até entre os mais ortodoxos. E alguns pregadores, talvez por falta de bom senso, ou por pura prepotência teológica, tem cavado tão profundo em suas mensagens, que tendem a enlamear as águas e deixar uma mensagem que deveria ser clara, lamacenta e de difícil compreensão. As pessoas comuns querem aprender sobre Salvação, como obedecer a Palavra, receber o perdão e cura espiritual, como ser cheio do Espírito Santo e viver na Plenitude e na Graça de Deus. Devemos usar o púlpito para falar de maneira simples e objetiva, sobre o propósito da morte redentora de Jesus, Seu Plano de Salvação, sobre arrependimento, perdão, gratidão e frutos do espírito.

       Não quero dizer com isso, que nós pregadores devemos trazer uma mensagem “rala” e sem conteúdo. Muito pelo contrário. Ela deve ser profunda nos aspectos importantes para o crescimento do salvo e sua edificação. Os maduros na fé devem receber um alimento mais sólido, mas isso não significa, mais teologia em si, mas um discipulado que o faça crescer no conhecimento e na Graça do Nosso Senhor Jesus Cristo. Porém, não descarto aqui, alguns assuntos que apesar de também serem profundos, devem ser pregados e ensinados, pois sem o entendimento deles o cristão fica com um conhecimento deficiente sobre Deus. A Trindade, a divindade de Jesus Cristo e a pessoalidade do Espírito Santo são um excelente exemplo. São doutrinas indispensáveis para a Salvação do crente e para o pleno conhecimento do Senhor.
“Ora, qualquer que se alimenta de leite é inexperiente na palavra da justiça, pois é criança; mas o alimento sólido é para os adultos, os quais têm, pela prática, as faculdades exercitadas para discernir tanto o bem como o mal. ” (Hebreus 5:13,14)
     A maturidade cristã não se refere a ter o maior conhecimento teológico. Mas sim aqueles que tem uma conduta cristã exemplar e são irrepreensíveis. São aqueles que não se deixam levar pelas dissimulações dos outros, mas que são marcas da sua caminhado com Cristo, a mansidão, longanimidade, benignidade, temperança e acima de tudo, o amor. Cristãos maduros obedecem a Palavra de Deus, amam o seu semelhante, praticam boas obras e acima de tudo, buscam o reino de Deus e sua justiça em primeiro lugar. São constantes em todos os seus caminhos, tem uma linguagem sã e irrepreensível e fogem da aparência do mal. São discípulos e não seguidores. São ovelhas e não bodes. São filhos e não somente criaturas.

    Deixo esse pequeno texto à todos aqueles que amam pregar a Palavra de Deus. Preguem à todo tempo, com coerência, simplicidade e acima de tudo, por amor às almas. Pois é esse amor e compaixão pelos perdidos que fará com que sua mensagem seja profunda o suficiente para libertar aqueles que estão ainda presos aos grilhões do pecado. Termino esse humilde texto com uma frase do grande homem de Deus George Müller:
"Nem a eloquência, nem a profundidade de pensamento faz um verdadeiro grande pregador. Somente uma vida de oração e meditação fará dele um vaso pronto para o uso do Mestre e próprio para ser empregado na conversão de pecadores e na edificação dos santos"
Paz do Senhor. 

Prof. Saulo Nogueira.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Quando a sua religião se torna inútil

“Se alguém supõe ser religioso, deixando de refrear a língua, antes, enganando o próprio coração, a sua religião é vã” (Tg 1.26). Esse é um dos versículos mais assombrosos e amedrontantes da Bíblia. Ele decreta: de nada adianta viver cumprindo os preceitos da fé cristã se você não é capaz de controlar o que fala e a forma como fala. Ir ao culto, cantar louvores, orar, ler a Palavra, pregar, chorar de joelhos, postar reflexões sobre a vida cristã na internet, escrever livros cristãos… se você não tem domínio sobre o que fala e como fala, tudo isso é absolutamente vão, ou, como bem define o dicionário, “vazio, oco, inútil, sem valor, ilusório, sem fundamento real, fútil, frívolo, falso, ineficaz”.

     Controlar a língua não é um assunto secundário, coisa de fofoquinha entre vizinhas que ficam olhando a vida alheia. É um tema muito mais profundo do que simplesmente fofoca, como alguns, equivocadamente, pensam. Saber controlar o que se fala e como se fala é uma questão de caráter. De amor ao próximo. De respeito. É interessante que o versículo citado no início deste texto vem logo depois da afirmação: “Tornai-vos, pois, praticantes da palavra e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos” (Tg 1.22). Alguém dizer que pratica a Palavra sem controlar o que fala e como fala faz de si somente um enganador.  E é importante frisar que, em dias como os nossos, o “falar” aqui também deve ser entendido como “postar”, “tuitar”, “compartilhar”, “comentar”, “teclar” e por aí vai.

      Saber controlar a língua diz respeito, por exemplo, a falar com o próximo com carinho e gentileza. Um cristão que, por exemplo, entra em debates ácidos  pelas redes sociais ou em qualquer outro âmbito sobre assuntos teológicos e faz isso sem refrear a língua, tecendo comentários sarcásticos, sendo agressivo, tratando o próximo a quem deveria amar com estupidez (mesmo o inimigo)… nada mais é do que alguém cuja religião é vã. Grave, não é? Mas bíblico. E isso, por mais que supostamente tenha boas intenções e queira agradar a Deus. Em meu entendimento bíblico, quem faz isso não agrada a Deus, agrada somente ao próprio ego. Religioso. Vão.

    É claro que sempre teremos uma “boa desculpa” para usar a língua de forma pecaminosa. Diremos que estamos ofendendo e ironizando quem discorda de nós em nome da apologética, porque, afinal, “antes importa  agradar a Deus que aos homens”. Diremos que abrimos segredos que nos contaram para que “pudessem orar por fulano”. Inventamos mil histórias que tentam justificar nossa incapacidade de reter a língua. Desculpas, somente. Religião vã.

       Tenho ficado abatido com a forma como vejo cristãos discordarem de cristãos. Tenho ficado assombrado com a forma como cristãos discordam de não cristãos. Atacam. Agridem. Desprezam. Ironizam. Tiago 3 é um capitulo arrasador sobre o assunto. Descreve a pessoa perfeita: “Se alguém não tropeça no falar, é perfeito varão, capaz de refrear também todo o corpo” (v. 2). A Palavra de Deus diz que com a língua “bendizemos ao Senhor e Pai; também, com ela, amaldiçoamos os homens, feitos à semelhança de Deus” (v. 9). É exatamente o que vejo todos os dias entre os cristãos, embora Tiago seja claro: “Meus irmãos, não é conveniente que estas coisas sejam assim. Acaso, pode a fonte jorrar do mesmo lugar o que é doce e o que é amargoso?” (v. 10-11). E a nossa boca tem sido amarga demais. Demais.

        Fica a sugestão (enfática): aprenda a refrear sua língua. Não imite o comportamento de quem não refreia, mesmo que sejam pastores, líderes, celebridades cristãs, gente famosa da internet ou o que for. Fuja de “mestres” que usam palavras com fúria, mesmo que seja em nome da fé. Não deixe que sua religião se torne vã. Amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio: se aquilo que você diz e a forma como diz não vêm encharcados dessas virtudes, está na hora de repensar seriamente tudo aquilo que fala e escreve. E, quem sabe, recomeçar do zero.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Os dias estão se "abreviando" conforme profetizado biblicamente?

      Certo dia, conversando com uma pessoa sobre assuntos cotidianos e como o ano "está passando rapidamente", a mesma, na sua simplicidade, disse que os dias estão passando mais rapidamente e, que na Bíblia existe uma passagem que diz que nos últimos tempos os dias seriam abreviados. Por conhecer o versículo e o contexto em que ele está inserido, rapidamente expliquei aquela irmã, que o versículo em questão não se referia as horas do dia, ou os meses do ano, mas que se referem há um tempo específico.

          Na realidade não era a primeira vez que eu ouvia alguém dizer isso. Até em pregações já ouvi alguns irmãos dizendo que os dias estão se abreviando e cumprindo-se o profetizado pela Bíblia Sagrada. Resolvi então, fazer um artigo tratando sobre a interpretação dessa passagem bíblica e o que de fato ela quer nos ensinar. Vamos ao texto:

"E se aqueles dias não fossem abreviados, ninguém se salvaria; mas por causa dos escolhidos serão abreviados aqueles dias." (Mateus 24:22)

Quais "dias" que seriam abreviados a qual o texto se refere? Voltando simplesmente alguns versículos atrás, podemos verificar a qual período de tempo específico a passagem em questão faz alusão:

"porque haverá então uma tribulação tão grande, como nunca houve desde o princípio do mundo até agora, nem jamais haverá." (Mateus 24:21)

        Enquanto Jesus estava sentado no monte das Oliveiras, que permite visualizar a área do Templo, os discípulos lhe fizeram uma pergunta tríplice: "Dize-nos quando serão essas coisas, (a destruição do Templo) e que sinal haverá da tua vinda e do fim do mundo?"(vs. 3). A resposta de Jesus envolve as questões que se referiam à queda de Jerusalém e consequentemente do Templo, mas também às questões concernentes à Sua Volta e ao fim. Mas é difícil separar as respostas para essas perguntas. Definitivamente, elas não parecem ser respondidas em seqüência, contudo parece que Jesus começa respondendo a segunda pergunta.

      Grande parte do capítulo 24 de Mateus se refere à profecias que ainda irão se cumprir. Porém, algumas passagens tiveram seu cumprimento durante o cerco de Jerusalém, no ano 70 pelo General Tito que, de certa forma foi um "prelúdio" da tribulação que viria sobre todos os moradores da terra. Devemos entender que também houve uma "Tribulação" sobre os Judeus, conforme profetizado por Jesus quando alertou os seus discípulos sobre a "abominação da desolação"(vs. 15). 

      O Comentário Bíblico de Beacon nos traz a seguinte nota:

     "“O termo Thlipsis é usado aqui quase no seu sentido literal para a opressão diária do cerco. Sempre se objetou que as palavras desse versículo são fortes demais, e por isso não poderiam ser aplicadas ao ano 70 d.C. Mas Josefo escreve: “Penso que os infortúnios de todos os homens, desde o princípio do mundo, se comparados ao infortúnio dos judeus, não são tão importantes”. Carr assim resume a situação:

     "Não há palavras que possam descrever os incomparáveis horrores desse cerco. Era a época da Páscoa, e os judeus de todas as partes estavam comprimidos dentro das muralhas. Três facções, inimigas entre si, estavam cravadas em Sião e no monte do Templo (...) o pátio do Templo estava inundado com o sangue da discórdia civil, que literalmente se misturava com o sangue dos sacrifícios."

    Josefo afirma que mais de um milhão de judeus morreram nessa catástrofe, e que aproximadamente cem mil foram vendidos como escravos. Parece que a melhor maneira de interpretar o versículo 21 é permitir a aplicação dupla - à queda de Jerusalém em 70 d.C., e também à “grande tribulação” do final desta era.[1](grifo meu)

      Em relação á abreviação daqueles dias, o comentarista continua:

  "Abreviar aqueles dias (versículo 22) se refere ao cerco final de Jerusalém, que surpreendentemente durou menos de cinco meses (de abril a setembro de 70 d.C.). Isto aconteceu por causa dos escolhidos - para que os judeus cristãos da Judeia não fossem, em sua totalidade, eliminados em uma guerra que visava o extermínio dos judeus. A frase por causa dos escolhidos também poderia significar “por causa das orações dos cristãos em Pella, orações pelos judeus que eles tinham deixado para trás”.[2]

         Lembrando-se das profecias de Jesus sobre a queda do Templo de Jerusalém, alguns cristãos vendo que o cerco romano era iminente, fugiram para Pella, cidade localizada do outro lado do Jordão. De alguma forma, durante a "Grande Tribulação" que virá sobre todo o mundo, podemos entender que aqueles dias também serão abreviados. 

      Alguém poderia dizer que grandes mudanças, como grandes terremotos poderiam mudar a rotação da Terra, fazendo com que ela girasse mais rapidamente. De fato, existem algumas mudanças fortes o suficiente para alterar a rotação da Terra. Por exemplo, o terremoto de 8,9 graus na escala Richter que assolou o Japão em 2011 foi tão forte que acelerou a rotação da Terra e encurtou os dias em 1,6 microssegundo, segundo a Nasa. Algo parecido ocorreu por causa do terremoto no Chile, um ano antes. Já o abalo de Sumatra, em 2004, causou uma aceleração de 6,8 microssegundos, segundo cientistas.[3] Porém essas mudanças são tão sutis que são imperceptíveis á nós.
    
Conclusão

      Os dias que foram abreviados se referiam aos dias do cerco Romano contra Jerusalém, caso contrário ninguém suportaria tamanha Tribulação. Algo parecido também ocorrerá na grande tribulação mundial, onde aqueles dias serão abreviados, para que os redimidos não sejam completamente destruídos. Tanto Daniel 7.25, quanto Ap.12.14 sugerem que o comprimento real do tempo durante o qual a Besta terá permissão de aterrorizar o mundo está fixado em três anos e meio.  Em relação a impressão que temos que o tempo está "passando mais rapidamente", é simplesmente uma questão de percepção. Devido à nossa rotina, com correria e excesso de trabalho, não encontramos tempo suficiente para realizar todas as atividades que nos propomos à fazer. A modernidade e a velocidade em que as informações chegam até nós, aliados á prazos curtos de entregas de planilhas, memorandos ou trabalhos de faculdade, nos faz ter a percepção de que o tempo de fato está passando mais rapidamente. Mas é só ficar um dia sem fazer nada, olhando para o relógio que iremos ter a percepção que de as horas custaram a passar!

Paz do Senhor Jesus à todos

Prof. Saulo Nogueira


Notas: 

[1]Comentário Bíblico Beacon, pg. 165-166
[2]Ibid.
[3]Uol Notícias Ciência