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quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Melquisedeque foi uma pessoa histórica e real ou uma figura mitológica?

O Encontro de Abraão e Melquisedeque de
Dieric Bouts O Velho14641467
       O relato de Gênesis 14.18-20 parece um episódio eminentemente histórico, da mesma forma que o resto do capítulo. A passagem nos fala da existência de um rei-sacerdote de Salém (isto é, Jerusalém, com toda a probabilidade) chamado Melquisedeque, o qual achou-se na obrigação de saudar Abraão, que voltava da guerra e do morticínio dos reis da Mesopotâmia, entre Dã e Hobá (v. 15), e fornecer provisões para os soldados fatigados da guerra. Deu-lhe os parabéns pela vitória heroica e derramou uma bênção sobre ele, em nome do "Deus Altíssimo" (’El ‘Ēlyôn) — título jamais aplicado nas Escrituras a alguém que não o próprio Iavé. É óbvio que Melquisedeque era um verdadeiro crente que permanecia fiel ao culto ao autêntico e único Deus (da mesma forma que Jó e seus conselheiros do norte da Arábia e Jetro, sogro de Moisés). O testemunho de Noé e de seus filhos evidentemente fora mantido em outras partes do Oriente Médio, além de Ur e Harã. Houve, todavia, um aspecto de grande importância a respeito da maneira como Melquisedeque foi introduzido na narrativa: seus pais não são mencionados, não havendo declaração alguma a respeito de seu nascimento e morte. A razão dessa falta de informações se torna clara em Hebreus 7.3: 

"Sem pai, sem mãe, sem genealogia, sem princípio de dias nem fim de vida, feito semelhante ao Filho de Deus, ele permanece sacerdote para sempre"

       O contexto esclarece que Melquisedeque entrou em cena como um tipo do Messias, o Senhor Jesus. A fim de salientar essa característica típica desse sumo sacerdote, o registro bíblico omite de propósito a menção de seu nascimento, filiação, parentesco e linha genealógica. Isso não quer dizer que ele não teve pai (pois até o antítipo, Jesus de Nazaré, teve o Espírito Santo como seu Pai — e sua mãe, Maria, é mencionada nos evangelhos) nem que ele jamais nascera (pois até Cristo, em sua forma humana, teve seu natal). É que o aparecimento dramático e repentino de Melquisedeque ficou mais saliente quando ele foi apresentado como porta-voz do Senhor a Abraão, servindo como arquétipo do futuro Cristo, que derramaria bênçãos sobre o povo de Deus.

       Melquisedeque apresentou-se como precursor ou tipo do grande Sumo Sacerdote, Jesus Cristo, que desempenharia uma função sacerdotal muito mais elevada e eficaz que Arão e os levitas. Isso foi ensinado nos dias de Davi, em Salmos 110.4, referindo-se ao futuro Libertador de Israel: "O Senhor jurou e não se arrependerá: Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque". Hebreus 7.1, 2 salienta as características de Melquisedeque como tipo de Cristo:

1. Melki-sedeq de fato significa "rei da justiça".
2. Ele era rei de šālēm, que vem da mesma raiz de šālōm, "paz".
3. É apresentado sem menção de nascimento, filiação ou genealogia, como convém ao tipo do Verbo, o Deus eterno, que não tem começo nem fim, que se encarnou em Jesus de Nazaré.
4. Como o Sumo Sacerdote eterno, segundo a "ordem de Melquisedeque" (Sl 110.4), Cristo desempenharia um sacerdócio que substituiria de modo total o de Arão, estabelecido sob a lei de Moisés, o qual duraria para sempre, por causa da eternidade do Sumo Sacerdote divino, e era por isso imperecível (Hb 7.22-24).

         A despeito das tradições fantasiosas mantidas e ensinadas por alguns rabinos (que apareceram bem cedo, ao surgir a seita de Qumran — cf. Fragmento de Melquisedeque da caverna 11), segundo a qual Melquisedeque teria sido uma espécie de anjo ou ser sobrenatural, os dados da própria Escritura apontam com clareza para a historicidade desse homem como sendo o rei de Jerusalém nos dias de Abraão. Sua descrição em Hebreus 7.3 como apatōr, amētōr, agenealogētos ("sem pai, sem mãe, sem genealogia") não pode significar que Melquisedeque jamais teve pais ou linha de ancestrais, visto que ele era um tipo de Jesus Cristo, a respeito de quem nenhum desses adjetivos é literalmente verdadeiro. Antes, o texto simplesmente está dizendo que nenhum desses itens de informação foi incluído no registro de Gênesis 14 e que foram omitidos de propósito a fim de enfatizar a natureza divina e a impossibilidade de o Messias, o antítipo, vir a perecer.

Fonte: Archer L., Gleason. Enciclopédia de Temas Biblicos.

Paz á todos que estão em Cristo Jesus.
Prof. Saulo Nogueira

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Como Gênesis 1 pode harmonizar-se com os imensos períodos indicados pelas camadas fósseis e a suposta ancestralidade humana ?

Grand Canyon
Esse estudo, retirado majoritariamente da Enciclopédia de Temas Bíblicos, de um do maiores especialistas em Apologética, Gleason Archer, e de outras fontes mais recentes, nos levará uma maior compreensão da relação entre as descobertas mais recentes da Geologia e Arqueologia e a Inerrante Palavra de Deus. O artigo será um pouco extenso, mas tenho certeza que compensará cada segundo de estudo por parte daqueles que almejam um maior entendimento das Escrituras. A minha crença pessoal, creio que a mesma do Sr. Archer, é que de fato não existe nenhum impedimento Bíblico para que o Universo tenha mais de 6.000 anos, porém, para a idade do homem sobre a terra, essa é uma cronologia bem razoável, podendo se estender até no máximo uns 10.000 anos, devido a saltos genealógicos (além de não sabermos quanto tempo Adão e Eva ficaram no paraíso antes da queda).


       Uma das objeções mais frequentemente apresentadas à confiabilidade da Escritura, encontra-se na aparente discrepância entre a narrativa da criação dada em Gênesis 1 e a suposta evidência de fósseis e minerais físseis nas camadas geológicas que dão indícios de ter a Terra bilhões de anos de idade [Recentemente pesquisas demonstraram que as datações geocronológicas não são tão confiáveis assim, conforme esse post]. Contudo, Gênesis 1, como se sabe,  ensina  que  a  criação  ocorreu  em  seis  dias  de  24  horas,  ao  fim  dos  quais o homem  já  estava na  terra. Mas esse conflito entre Gênesis 1  e os dados  científicos fundamentados (em contraposição às teorias de alguns cientistas que tiram inferências de  seus  dados  e  são  capazes  de chegar  a  uma  interpretação  bem  diferente  da  de pessoas igualmente capacitadas em geologia) é apenas aparente, não real. Com  certeza,  se  tivéssemos  de  entender Gênesis  1  de  forma  completamente literal — o que pensam alguns  ser o único princípio apropriado de  interpretação no caso de  a Bíblia  ser verdadeiramente  Inerrante  e  completamente  confiável —  então não  haveria  possibilidade  de conciliação  entre  a  teoria  científica  moderna  e  a narrativa  de  Gênesis.  Mas uma crença verdadeira e adequada na inerrância da Escritura não implica numa única regra de interpretação, seja literal, seja figurada. O que de fato se requer é uma crença no sentido que o autor bíblico (humano e divino) tenha de fato atribuído às palavras usadas. 

A literalidade absoluta, por exemplo, nos  enredaria  na  proposta de  que  em Mateus 19.24  (e  em passagens paralelas) Cristo de  fato tencionava  ensinar que  um camelo poderia passar pelo buraco da agulha. Mas está claro que Cristo usava apenas uma conhecida figura de retórica, a hipérbole, a fim de ressaltar como é difícil espiritualmente um rico (por seu orgulho quanto às riquezas materiais) chegar ao arrependimento  e  à  fé  salvadora  em Deus. Interpretar  literalmente essa passagem equivale a uma heresia ou no mínimo a uma perversidade para com a ortodoxia. Ou, ainda, quando Jesus disse à multidão que o desafiava a operar algum milagre: "Destruam este templo, e eu o levantarei em  três dias"  (Jo  2.19),  aquelas  pessoas  erraram  deploravelmente  ao  interpretar  sua declaração de  forma  literal.  João 2.21, 22 explica que Jesus não pretendia que essa predição fosse tomada literalmente, e sim de modo espiritual. "Mas o templo do qual ele falava era o seu corpo. Depois que ressuscitou  dos mortos,  os  seus  discípulos lembraram-se do que ele tinha dito. Então creram na Escritura e na palavra que Jesus dissera."  Nesse  caso,  então,  a  interpretação  literal  estava  completamente  errada, porque  não  era  o  que  Jesus  queria  dizer:  ele  se  referia  ao milagre — muito mais grandioso — de sua ressurreição corporal. Assim, torna-se claro que, ao estudar o texto de Gênesis 1, não podemos fugir à responsabilidade de fazer cuidadosa exegese a fim de estabelecer com clareza o que o autor  divino  quis  dizer  com  a  linguagem  que  seu  profeta  inspirado  (provavelmente Moisés) foi orientado a empregar.

Seria o verdadeiro propósito de Gênesis 1 ensinar que toda a criação começou apenas seis dias de 24 horas antes de Adão "nascer"? Ou será essa apenas uma inferência enganosa que não leva em conta outros dados bíblicos relacionados diretamente a essa passagem? Para responder a essa pergunta, precisamos observar cuidadosamente o que se registra em Gênesis 1.27 com respeito à criação do homem como o último ato do sexto dia da criação. Ali se declara que, no sexto dia (ao que tudo indica, quase no fim do dia, após todos os animais terem sido criados e colocados sobre a terra — portanto não muito tempo antes do ocaso do mesmo dia), "criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou". Isso só pode significar que Eva foi criada na última hora do sexto dia, junto com Adão. Ao examinar Gênesis 2, entretanto, descobrimos que um intervalo considerável de  tempo  deve  ter  ocorrido  entre  a  criação  de Adão  e  a  criação  de Eva. Em 2.15, lemos que Iavé Elohim (i.e., o SENHOR Deus) colocou Adão no jardim  do Éden,  o ambiente ideal para seu desenvolvimento, e ali ele deveria cultivar e manter o enorme parque,  com  todas  as  suas  boas  árvores,  colheita  abundante  de  frutos  e  quatro  rios poderosos  que  fluíam  do  Éden  para  outras  regiões  do Oriente  Próximo.  Em 2.18, lemos: "Então o SENHOR Deus declarou: 'Não é bom que o homem esteja só; farei para ele alguém que o auxilie e lhe corresponda'". Essa afirmação sugere claramente que Adão estivera diligentemente ocupado em sua responsabilidade de podar, colher frutos e manter o solo livre de vegetação rasteira por tempo suficientemente longo para ter perdido o entusiasmo inicial e o senso de  euforia  diante  dessa  ocupação maravilhosa  no  belo  paraíso  edênico.  Ele começara a sentir certa solidão e uma insatisfação íntima. A fim de compensar a solidão, Deus incumbiu Adão de uma tarefa importante na história natural: classificar  todas  as  espécies  de  animais  e  aves  encontradas  na reserva. Com seus cinco rios poderosos e vasta extensão, o jardim deve ter abrigado centenas de espécies de mamíferos, répteis, insetos e aves, sem mencionar os insetos voadores, que também são indicados pelo termo hebraico básico ‘ôp ("ave").  O cientista sueco Linnaeus levou diversas décadas para classificar todas as espécies conhecidas dos cientistas europeus do século XVIII. Sem dúvida, havia muitas mais a essa altura que nos dias de Adão, e, naturalmente, a gama da fauna no Éden pode ter sido mais limitada que a encontrada por Linnaeus.  Ainda assim, Adão deve ter precisado de muito estudo para examinar cada espécime e determinar-lhes um nome adequado, especialmente considerando o fato de que não havia absolutamente nenhuma tradição humana a que recorrer no que dizia respeito à nomenclatura. Devem ter sido necessários alguns anos ou, no mínimo, um número considerável de meses para que ele concluísse esse abrangente inventário de todas as aves, animais selvagens e insetos que povoavam o jardim do Éden. 

Por fim, após essa tarefa ter sido completada, o que contou com o envolvente interesse de Adão, ele experimentou novamente o senso de vazio.  Gênesis 2.20 termina com as palavras: "Todavia não se encontrou para o homem alguém que o auxiliasse e lhe correspondesse". Deus, portanto, submeteu-o a um sono profundo, removeu de seu corpo o osso mais próximo do coração e, daquele cerne físico do homem, moldou a primeira mulher. Finalmente Deus apresentou a Adão a mulher em toda a sua beleza, cheia de frescor e de pureza, e Adão sentiu-se extasiado de alegria. Visto termos comparado a Escritura com a Escritura (Gn 1.27 com 2.15-22), ficou muito patente que Gênesis  1  não  foi  escrito  para  ensinar  que  o sexto dia  da criação, no qual tanto Adão quanto Eva foram criados, durou apenas 24 horas. Tendo em vista  o  longo  intervalo  de  tempo  entre  o  surgimento  de  ambos,  parece irracionalidade insistir que toda a experiência de Adão em Gênesis 2.15-22 pode ser comprimida  nas  últimas  horas  de  um  dia  literal de  24  horas.  A única conclusão razoável a que  se pode chegar é que o propósito de Gênesis 1 não é dizer com que rapidez Deus realizou a obra da criação (embora, naturalmente, alguns de seus atos, como  a criação  da  luz  no  primeiro  dia,  devam  ter  sido  instantâneos).  Antes, seu verdadeiro propósito foi demonstrar que  o  Senhor  Deus,  que  se  havia  revelado  à nação hebraica e entrado num pacto de relacionamento com seu povo, era de  fato o único  Deus  verdadeiro,  o  Criador  de  todas  as  coisas. Isso se colocava em direta oposição às noções religiosas dos pagãos que os rodeavam, que presumiam o surgimento de um panteão de deuses em fases  sucessivas  a  partir  de matéria  pré-existente  de  origem desconhecida,  ativados  por  forças  para  as  quais  não  havia explicação.

Gênesis 1 é um manifesto  sublime que  rejeita  totalmente as cosmogonias das culturas  pagãs  do  mundo  antigo,  considerando-as  nada  além  de  superstição infundada. O Senhor Deus todo-poderoso existia antes de toda a matéria e, por sua própria Palavra de comando, trouxe todo o Universo à existência governando todas as grandes forças do vento, da chuva, do Sol e do mar segundo sua vontade soberana. Esse conceito se posicionava em nítido contraste com as pequenas divindades e deuses  conflitantes, briguentos,  caprichosos  e  gerados  pela  imaginação  corrompida dos pagãos. A mensagem e o propósito de Gênesis 1 são a revelação do único Deus verdadeiro que criou  todas as coisas do nada e mantém para sempre o Universo sob seu controle soberano.

O segundo aspecto principal de Gênesis 1 é a revelação de que Deus  realizou sua criação de maneira ordenada e sistemática. Houve seis fases principais nessa obra de formação, e essas fases são representadas por dias sucessivos da semana. A esse respeito, é importante observar que nenhum dos seis dias da criação traz um artigo definido  no  texto  hebraico —  as  traduções  "o  primeiro  dia",  "o segundo  dia"  etc. estão erradas. O hebraico diz: "E a tarde teve lugar, e a manhã teve lugar, dia um" (1.5).  Em hebraico, "o primeiro dia" seria hayyôm hāri’šôn, mas esse texto diz simplesmente yôm ’eh ād ("dia um"). Além disso, no versículo 8, lemos não hayyôm haššēnî ("o segundo dia"), mas yôm šēnî ("um segundo dia"). Na prosa hebraica desse gênero, o artigo definido era usado em geral quando se desejava definir o substantivo. Somente no estilo poético ele podia ser omitido. O mesmo acontece no restante dos seis dias: nenhum deles traz o artigo definido. Assim, eles são bem adaptados a um padrão sequencial, e não a unidades de tempo estritamente delimitadas.

Gênesis 1.2-5 estabelece a primeira fase da criação: a formação da luz.  Isso deve ter significado basicamente a luz do sol e de outros corpos celestes. A luz solar é de modo geral precondição indispensável ao desenvolvimento da vida vegetal e animal (embora haja  algumas  formas  subterrâneas de vida que consigam viver  sem ela).

Gênesis 1.6-8 apresenta a segunda fase: a formação de um "firmamento” (rāqia‘), que fez separação entre a umidade suspensa no céu e a umidade suficientemente condensada para permanecer na superfície da terra. O termo rāqîa‘ não significa um dossel de metal batido, como alguns escritores já alegaram — nenhuma cultura antiga jamais ensinou essa ideia em seu conceito de céu —, mas significa apenas "um firmamento estendido".  Isso fica bem evidente em Isaías 42.5, em que o verbo cognato rāqa‘ é usado: "E o que diz Deus, o SENHOR, aquele que criou o céu, e o estendeu [do verbo nāṭ āh, "estender" cortinas ou cordas de tendas], que espalhou [rāqa‘] a terra e tudo o que dela procede”(R.A.).  Obviamente, rāqa‘ aqui não poderia significar "batido", "estampado" (embora seja usado dessa forma com frequência ao referir-se ao trabalho em metal). O paralelismo com nāṭ āh (destacado acima) prova que aqui ele tem a força de estender ou expandir. Portanto, o substantivo rāqîa‘ pode significar apenas "firmamento", sem nenhuma conotação de chapa dura de metal.

Gênesis 1.9-13 relata a terceira fase da obra criadora de Deus: o ajuntamento das águas dos oceanos, mares e lagos em uma altitude inferior à das massas de terra que surgiram acima delas, permitindo que secassem. Sem dúvida, o resfriamento gradual do planeta Terra levou à condensação de água necessária para causar esse resultado.  As pressões sísmicas que produziram montanhas e colinas indubitavelmente contribuíram ainda mais para essa separação entre terra e mar. Uma vez que a terra seca (hayyabbāšāh) apareceu, tornou-se possível à vida vegetal e às árvores brotar na superfície da terra, auxiliadas pela fotossíntese do céu ainda nublado.

Gênesis 1.14-19 revela que na quarta fase criadora Deus abriu  o  manto  de nuvens o suficiente para que a luz direta do Sol caísse sobre a Terra e para que tivesse lugar a observação correta dos movimentos do Sol, da Lua e das estrelas. Não se deve entender que o versículo 16 mostra a criação dos corpos celestes no quarto dia. Antes, ele nos informa que o Sol, a Lua e as estrelas, criados no primeiro dia como fonte de luz, foram colocados em seus lugares designados por Deus com a ideia de funcionar como indicadores de tempo ("sinais, estações, dias, anos") para os observadores terrestres. O verbo hebraico wayya‘aś, do versículo 16, seria traduzido melhor por "Fizera Deus os dois grandes luminares etc", em vez do passado simples, Fez Deus". (O hebraico não tem uma forma especial para o tempo mais-que-perfeito, mas usa o tempo perfeito ou o imperfeito conversivo, como é o caso aqui, para expressar ou o passado ou o mais-que-perfeito do português, dependendo do contexto).

Gênesis 1.20-23 relata que no quinto dia da criação Deus desenvolveu totalmente  a  vida marinha  e  a  vida  de  água  doce,  introduzindo  criaturas  voadoras (insetos ou aves aladas). É interessante observar que as camadas com fósseis da era paleozoica contêm a primeira evidência de vida animal invertebrada, que surge com surpreendente brusquidão no período cambriano.  Não há nenhum indício nas camadas pré-cambrianas de como as 5 mil espécies de vida animal marinha e terrestre da  era  paleozoica se  teriam  desenvolvido,  pois  não  há  nenhum  registro  delas  antes dos níveis cambrianos.

Gênesis 1.24-26 relata que na sexta e última fase do processo criador Deus produziu todos os animais da terra conforme suas várias espécies (lemînāh, no versículo 24, e lemînēhû, no versículo 25, significam "conforme a sua espécie", quer o  antecedente  seja masculino,  quer  feminino  no  gênero gramatical), culminando  afinal  com  a  criação  do  homem,  conforme  discutido mais  amplamente acima. Com referência a isso, seria oportuno um comentário relacionado com a fórmula repetida no fim de cada dia da criação: "Passaram-se a tarde e a manhã; esse foi o dia" [ordinal]. A razão para essa declaração final parece ter sido dupla.  Em primeiro lugar, era necessário deixar claro se a unidade simbólica em questão era um mero dia que ia do nascer do sol até o ocaso, ou se era um dia de 24 horas, pois o termo yôm ("dia") pode significar qualquer um dos dois. De fato, a primeira vez que yôm ocorre é no  versículo  5:  "Deus chamou  à  luz  dia,  e  às  trevas  chamou  noite". Portanto, era necessário mostrar que cada um dos dias da criação era simbolizado por um ciclo completo de 24 horas, começando com o ocaso do dia anterior (segundo os nossos cálculos) e terminando com a parte que tinha a luz solar, até o ocaso, no dia seguinte (conforme calcularíamos). Em segundo lugar, o dia de 24 horas é um símbolo melhor que um mero dia de luz solar para distinguir o início e o final de uma fase da criação antes da fase seguinte.

Houve fases definidas e distintas no procedimento criador de Deus.  Se essa foi a verdadeira intenção da fórmula, então ela não serve como evidência de um conceito de 24 horas literais por parte do autor bíblico. Alguns têm argumentado que a referência no Decálogo (no quarto mandamento) quanto a Deus ter descansado no sétimo dia, que serve de base para se honrar o sétimo dia de cada semana, sugere enfaticamente a natureza literal de "dia" em Gênesis 1. Esse argumento, todavia, não é tão persuasivo assim, tendo em vista o fato de que, se era para haver qualquer dia da semana especialmente separado para o descanso, para o culto e para o serviço ao Senhor, teria de ser um dia de 24 horas (sábado), de qualquer forma. Na realidade, a Escritura não ensina de forma alguma que Iavé descansou apenas um dia de 24 horas ao concluir sua obra criadora. Não há nenhuma fórmula final no encerramento do sétimo dia mencionado em Gênesis 2.2, 3. E, de fato, o N.T. ensina (em Hb. 4.1 -11) que aquele sétimo dia, aquele "sábado de descanso", conservou um sentido muito definido até  a  era  da  igreja.  Assim, seria impossível alinhar o sábado com o Sétimo Dia, que concluiu a obra criadora original de Deus!
          
Uma última observação referente à palavra yôm conforme usada em Gênesis 2.4.  Ao contrário de algumas versões modernas, a Versão do rei Tiago traduz corretamente esse versículo: "Essas são as gerações dos céus e da terra quando foram criados, no dia em que o SENHOR Deus fez a terra e os céus". Visto o capítulo anterior ter indicado que houve pelo menos seis dias na criação dos céus e da terra, é evidente que o yôm de Gênesis 2.4 não pode de forma alguma ser compreendido como um dia de 24 horas — a menos que a  Escritura  esteja  em  contradição!  (Para uma boa dissertação sobre esse tópico por um professor cristão de geologia, v. Creation and the Flood and Theistic evolution [Criação e o dilúvio e a evolução teísta], de Davis A. Young [Grand Rapids,  Baker,  1977].  Alguns  pormenores estão  abertos ao questionamento,  e  o  autor  nem  sempre  é  preciso  na  terminologia, mas  em  geral  o trabalho fornece uma sólida contribuição para essa área de debate.) 


A antiguidade da raça humana

       
Tendo apresentado  a  evidência  para  compreender  os  seis  dias  da  criação  de Gênesis como fases distintas no desenrolar do processo, prosseguimos agora para a questão  da  antiguidade  de Adão  e  o  começo  da  raça  humana.  Essa questão já foi discutida até certo ponto em meu livro Merece confiança o Antigo Testamento?  (4. ed., São Paulo, Vida Nova, 1986). A grande era atribuída pelos paleantropólogos aos esqueletos de várias espécies de antropoides é uma questão consideravelmente debatível. L. S. B. Leakey usou a análise de potássio-argônio para chegar à estimativa de 1.750.000 anos para a idade do que ele identificou como o "Zinjan-thropus" de Tanganykia  ("Exploring  1.750.000 years into  man's  past"  [Explorando  1750000 anos  no  passado  do  homem],  National  Geographic, outubro de  1961).  A outros espécimes da área da garganta Olduvai foi atribuída idade ainda mais antiga. Considera-se que o homem de Neanderthal viveu de cem mil a cinquenta mil anos atrás e parece ter desenvolvido aptidões como a manufatura de setas de pedra e cabeças de machado. O homem de Neanderthal parece também ter usado fogo para cozimento na preparação  de  alimentos.  Ele pode ter tido também algum envolvimento com arte,  embora  as notáveis pinturas nas  cavernas de Altamira  e de outros lugares talvez sejam produto da raça posterior dos Cro-Magnons. [Algumas pesquisas mais recentes demonstram que na realidade o Neandertal, nada mais é que o próprio homo-sapiens, com características e anatomia um pouco diferenciada.] Abaixo algumas pesquisas que confirmam essas informações:

        "... Segundo pesquisadores da UFRGS, os Neandertais eram tão espertos como nós. Se eles foram extintos, diz a professora Maria Cátira Bortolini, não foi por falta de astúcia, mas por diferenças culturais entre aquela "espécie" e a nossa. Bortolini não é antropóloga culturalista - bióloga, comparou 162 genes das duas espécies e constatou que, em matéria de cognição, o Neandertal não fica devendo nada para um Da Vinci. Ainda hoje, num isolamento ainda possível, temos primos Homo sapiens vivendo no tempo da indústria lítica, construindo ferramentas de pedra rudimentares. [pois é, e se fossem descobertos fósseis deles, possivelmente diriam que são ancestrais de milhões de anjos...]. Os códigos que separam esses povos aborígenes de quem lê jornal no tablet não estão inscritos na genética, mas na cultura ...."

       "... E onde fica aquela aula de ciências dizendo que a cruza de espécies diferentes só pode gerar descendentes estéreis, como a mula? Bem, essa regra nem sempre funciona (numa cruza entre tigres e leões, hora ou outra sai uma fêmea fértil), mas ela ajuda a reforçar a defesa de que Homo neanderthalensis e Homo sapiens são, de fato, uma mesma espécie" [bingo!]

        "Ao que vínhamos chamando “espécie” Neandertal, Bortolini prefere “população”. E assim também João Zilhão, arqueólogo da Universidade de Barcelona que vem estudando a arte deixada pelos neandertais nos sítios Cueva de los Aviones e Cueva Antón, no sudeste da Espanha. “Não faz sentido colocar a questão em termos de ‘nós e os outros’, mas sim de duas populações ancestrais da mesma espécie. Uma delas, europeia, desenvolveu características rácicas que a tornaram mais facilmente diferenciada das populações africanas. Diferiam mais do que, hoje em dia, diferem os esquimós e os etíopes, mas também eram diferenças intraespecíficas, e não interespecíficas”, afirma Zilhão" [ Mais claro que isso, impossível]. Uma outra pesquisa recente, onde foram encontrados diversos crânios de supostos hominídios num mesmo local e extrato geológico, sugere que toda a escala evolutiva está por um fio:

        "E se em vez de serem todos de espécies diferentes, os diversos homens primitivos cujos fósseis têm sido encontrados ao longo dos anos em diversos locais – Homo habilisHomo rudolfensinsHomo erectus e outros – fossem todos membros de uma única e mesma espécie de humanos e as suas diferenças físicas apenas refletissem a variabilidade normal entre indivíduos dessa espécie? Os autores de um novo estudo comparativo de crânios fósseis humanos encontrados no Cáucaso, e publicado nesta sexta-feira na revista Science, afirmam que é precisamente isso que os seus resultados sugerem. (...)" (Leia esse Post.)


      “Nossa análise estatística mostra que os padrões e a magnitude da variabilidade dos crânios de Dmanisi são semelhantes aos das populações de espécies modernas”, disse Zollikofer. “Embora os cinco indivíduos de Dmanisi sejam claramente diferentes uns dos outros, não são mais diferentes entre eles do que cinco humanos modernos ou cinco chimpanzés numa dada população.” Ou seja, “a diversidade no interior de uma espécie é a regra e não a exceção”. Os cientistas decidiram designar essa potencial única espécie pelo nome Homo erectus, por ser a mais bem documentada e consensual de todas as espécies de homens primitivos cujos fósseis se conhecem."

Evidência de simples diversificação, não "evolução"

      "Os novos resultados poderão ter implicações em termos da classificação das espécies de hominídeos que viviam na África e saíram de lá há cerca de dois milhões de anos [segundo a cronologia evolucionista], espalhando-se pela Europa e Ásia, especulam os cientistas. “Há duas maneiras de interpretar a diversidade dos hominídeos fósseis”, explicou Zollikofer. “A primeira é que existiu apenas uma linhagem de homens primitivos; a segunda é que houve múltiplas linhagens coexistentes.” Conclui. 

       Por mais que essas pesquisas se baseiem em uma ótica evolucionista, as conclusões que eles chegam só reforçam os argumentos criacionistas, que sempre disseram que os “homos” são simplesmente humanos antigos com a natural variabilidade morfológica que existe entre seres humanos atuais (talvez alguns até com certas deformidades).

         “Se a caixa craniana e a face do Crânio 5 tivessem sido encontradas separadamente em locais diferentes da África, poderiam ter sido atribuídas a duas espécies diferentes”, acrescentou [admissão interessante]. Mas visto que os fósseis de Dmanisi provêm indubitavelmente do mesmo ponto no tempo e no espaço – e que parecem ter todos pertencido a uma única espécie de homens primitivos –, o mesmo poderá ter acontecido na África."
        
A essa altura, algo deve ser dito sobre as novas e surpreendentes descobertas geológicas que tornam as antigas estimativas da ciência geológica convencional quase impossíveis  de  serem  mantidas  no presente.  Uma análise aprofundada da evidência fornecida por uma camada exposta do  leito do  rio Paluxy, em Glen Rose, no  Texas,  foi publicada  por  Cecil  Dougherty,  de  Temple,  no  Texas,  sob  o título Valley  of  the  giants  [ Vale  dos gigantes]  (Minneapolis, Bible-Science Association, s.d.), agora na sexta edição. No Bible-science Newsletter de abril de 1979 (p. 4), há um relatório de Fred Beierle de Lyons, de Kansas, referente a uma viagem de estudos feita a esse luga extraordinário. Ele mostra na mesma camada uma boa marca de pegadas  de  um  dinossauro  de  três  dedos  e,  depois,  logo  acima, as pegadas características de um tiranossauro e também de um brontossauro. O baixo nível de água durante a seca do verão tornou muito fácil descobrir e ver áreas em que pegadas claras de alguma espécie humana primitiva cruzam as pegadas desses dinossauros! Ademais, num nível  adjacente  na mesma  camada crustácea  dessas  pegadas, havia um  longo  risco preto que se descobriu ser um galho de árvore caído que fora reduzido a carvão pelo fogo e subsequentemente submerso na superfície calcária. Ele tinha cerca de cinco  centímetros  de  diâmetro  e  pouco  mais  de  dois  metros  de comprimento,  estando  localizado cerca  de  duzentos  metros  abaixo  das  pegadas humanas  e  dos  dinossauros.  Uma seção desse galho foi  removida  e  enviada  a  R. Berger, geofísico da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, para uma análise de  carbono-14.  Ele relatou depois o que descobriu: o galho tinha 12.800 anos de idade, duzentos anos a mais ou a menos. Se seu veredicto for confirmado por outros laboratórios, isso parece indicar que toda a ciência da geocronologia, conforme praticada pelos geólogos tradicionais, está precisando de uma revisão completa. Aqui temos uma camada do fim da era mezozóica com evidência de hominídeos primitivos vivendo na mesma época que os mais altamente desenvolvidos dinossauros e datada por um galho de árvore com não mais de 13 mil anos!

Um editorial na página 2 desse mesmo número do Bible-Science Newsletter fornece  uma  pista  importante  quanto  à  fonte  desse  erro  tão  grosseiro nos métodos geocronológicos  convencionais  para  a  computação  do  tempo. A análise cuidadosa dos minerais físseis (como a decomposição do urânio em chumbo ou do argônio 40 em argônio 36) tem operado a partir da premissa simplista de que todos os depósitos desse  tipo  eram  originariamente compostos  de  elementos  precursores  puros. Então, depois que  o  magma  esfriou,  o  elemento precursor  supostamente  começou  a  se decompor com a perda gradual de elétrons e se tornou o elemento derivado com uma contagem atômica inferior. Mas amostras bem recentes tiradas do núcleo de vulcões, com mil anos ou menos de idade, trazem espécimes que evidenciam idades de muitos milhões  ou  até mesmo  bilhões  de  anos —  a  julgar  pela  proporção  de  elementos derivados  dos  elementos precursores  na  mesma  amostra.  Isso inevitavelmente demonstra que, mesmo na fase inicial do depósito, as formações físseis já continham uma alta proporção de elementos derivados. Portanto, não têm praticamente nenhum valor  ou  são  completamente  enganosas  para  datar  os  níveis nos  quais  são encontradas.  Será  interessante  ver  como  os  teoristas  da  geologia  convencional tratarão essa nova descoberta. Ela não pode permanecer ignorada nem ser oculta ao público  permanentemente, não importando  o  quanto  os  teoristas  antigos  possam sentir-se ameaçados.
       
Mas, independentemente de quão pouco confiáveis possam ter sido os métodos de datação que levaram a estimativas tão elevadas da antiguidade desses antropoides, permanece o fato de que eles não podem ser datados como anteriores à criação  de Adão e Eva, a que se refere Gênesis 1 — 3. Não importando como as estatísticas de Gênesis 5  sejam  tratadas,  elas  dificilmente  podem  determinar  para Adão  uma  data muito anterior a 10.000 a.C. Se os números em Gênesis merecerem qualquer  tipo de confiança,  mesmo  admitindo  a  ocorrência  de  lacunas  esporádicas  na  corrente genealógica,  somos forçados  a  considerar  todos  esses  antropoides  primitivos  como pré-adâmicos.  Em outras palavras, todas essas espécies, desde os  cro-magnons, voltando  até os  zinjantropos, devem  ter  sido de macacos  avançados  ou  antropoides possuidores  de  considerável  inteligência  e  criatividade — mas  que desapareceram completamente antes que Adão e Eva fossem criados.
       
Se examinarmos o registro bíblico cuidadosamente, teremos de reconhecer que, quando Deus criou Adão e Eva  à  sua  imagem  (Gn  1.27),  soprou neles  algo de  seu próprio Espírito  (Gn 2.7), de uma maneira que não havia  feito  em nenhuma ordem prévia  da  criação.  Essa imagem divina consistiu de alguma forma material, algum tipo especial de esqueleto ou estrutura anatômica?  Claro que não, pois Deus é espírito, não carne (Jo 4.24).  Portanto, o que tornou Adão tão superior foi sua constituição interior — alma (nepeš) e espírito (rûacḥ), bem como sua estrutura física e natureza corpórea,  com  suas paixões  e impulsos  animais.  Daquele  primeiro  ser humano verdadeiro, como agente moral responsável, como pessoa possuidora de espírito que permanece em um relacionamento de pacto com Deus, é que descende todo o restante da raça humana (Rm 5.12-21). Pode ter havido hominídeos adiantados e inteligentes que viveram e morreram antes de Adão, mas que não foram criados à imagem de Deus. Essa é uma linha de distinção à qual  a  Palavra  de  Deus  nos  compele,  e  é  aqui  que  devemos  rejeitar qualquer interpretação  de  dados  paleantropológicos  que  suponha  que  uma semelhança  no  esqueleto estabelece os  antropoides  pré-adâmicos  como  verdadeiros seres humanos, no sentido bíblico do  termo. Embora esses habitantes primitivos das cavernas possam ter desenvolvido certas aptidões em sua busca de alimento e se engajado em guerras  entre  si —  como o  fazem outros  animais —, não há,  todavia, nenhuma evidência arqueológica de que uma alma humana verdadeira animava seus corpos. Portanto, evidências de inteligência semelhante no "homem" pré-histórico não são provas decisivas de humanidade no sentido adâmico  nem  de  capacidade  moral  e  espiritual.  Portanto, essas raças não-adâmicas,  pré-adâmicas, não  ameaçam  de  forma  alguma  a credibilidade bíblica, não importa quão antigas sejam.

Fontes:
Geisler, Norman.Enciclopédia de Temas Bíblicos. 
Site criacionismo
Gazeta do Povo

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Os "gigantes" sobreviveram ao Dilúvio?

    Recentemente, o Pastor Caio Fábio em uma entrevista dada ao programa The noite, conforme postado aqui, disse que os gigantes (nefilins)  haviam sobrevivido ao dilúvio e que Noé e sua família não eram os únicos sobreviventes. Para ele a narrativa de Gênesis era apenas o "olhar de um observador finito", ou seja, aquela narrativa estava mostrando apenas o ponto de vista do observador Noé em relação ao Dilúvio. Porém essa afirmativa contraria a inspiração divina do aludido Livro, além de contradizê-lo.

      A primeira pergunta que nos vem á mente é quem são esses nefilins?

 
     Os nefilins eram homens de grande estatura, gigantes e poderosos sobre a face da terra. Não eram frutos de uma relação sobrenatural entre anjos e humanos, conforme foi desmistificado nesse artigo e nem eram homens com vários metros de altura, mas possivelmente com seus 3,10 m como era Golias. Eles já existiam antes dos casamentos entre a linhagem piedosa de Sete, com os descendentes de Caim e simplesmente eram homens comuns, com uma força e estatura acima da média, ou como trazem algumas traduções, eram os homens de poder e influência da época. Algumas pessoa pensam que pelo fato deles serem mencionados em Gn. 6 (antes do Dilúvio) e em Nm. 13.33, eles sobreviveram á catástrofe.
"Também vimos ali gigantes, filhos de Anaque, descendentes dos gigantes; e éramos aos nossos olhos como gafanhotos, e assim também éramos aos seus olhos. (Números 13:33)
     O fato deles serem descendentes dos gigantes, não significa necessariamente que eles mantiveram uma linhagem ininterrupta, sobrevivendo ao Dilúvio e chegando aos dias de Josué. Eram da descendência, mantinham as mesmas características genéticas dos seus antecessores, repassadas pela linhagem dos filhos de Noé, seus parentes. Hoje mesmo, vemos pessoas que nascem com uma estatura bem acima da média, sendo seus pais de estatura mediana, sem sofrerem de qualquer anomalia. Claro que não podemos comparar homens grandes de hoje, com aqueles homens da antiguidade, que talvez devido a uma genética mais privilegiada, (que talvez com o tempo e aos grandes cruzamentos e variações de genes, essa característica tenha se perdido) chegavam a um tamanho e força de forma natural, sem a necessidade de uso de qualquer substância anabólica.

     Não eram tão comuns, como se percebe nos textos de Samuel, e quando existiam, eram prontamente colocados como os seus "campeões", para travarem batalhas individuais, que resultariam em entrega do exército inimigo conforme o texto de 1Sm. 17:8-10
"E parou, e clamou às companhias de Israel, e disse-lhes: Para que saireis a ordenar a batalha? Não sou eu filisteu e vós servos de Saul? Escolhei dentre vós um homem que desça a mim. Se ele puder pelejar comigo, e me ferir, a vós seremos por servos; porém, se eu o vencer, e o ferir, então a nós sereis por servos, e nos servireis.Disse mais o filisteu: Hoje desafio as companhias de Israel, dizendo: Dai-me um homem, para que ambos pelejemos."
     Em relação ao fato de que algum gigante ou qualquer outra pessoa tenha sobrevivido ao Dilúvio, o próprio livro de Gênesis diz, sem sombra de dúvida, que não sobrou ninguém:
"Porque eis que eu trago o dilúvio sobre a terra, para destruir, de debaixo do céu, toda a carne em que há espírito de vida; tudo o que há na terra expirará. (Gênesis 6:17)
     Essa era a intenção do Senhor, purificar a terra através da destruição do dilúvio. E percebemos que isso foi cumprido cabalmente:
"Pereceu toda a carne que se movia sobre a terra, tanto ave como gado, animais selvagens, todo réptil que se arrasta sobre a terra, e todo homem." (Gênesis 7:21) (grifo meu)    
     Bom, isso já seria suficiente. Mas vamos ver se conseguimos mai argumentos para o nosso ponto de vista. Será que os escritores do Novo Testamento acreditavam que gigantes sobreviveram ao Dilúvio? 

   Pedro na sua segunda carta nos diz:
"se não poupou ao mundo antigo, embora preservasse a Noé, pregador da justiça, com mais sete pessoas, ao trazer o dilúvio sobre o mundo dos ímpios;" (2 Pedro 2:5) (grifo meu).
     Deus reduziu a população global para apenas oito pessoas, destruindo completamente o restante da população. Se alguém crê num Dilúvio universal deve também crer nessa afirmativa. 
      Agora vamos ver o que O Senhor Jesus nos diz sobre quantos sobreviveram ao Dilúvio:
"Porquanto, assim como nos dias anteriores ao dilúvio, comiam, bebiam, casavam e davam-se em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca, e não o perceberam, até que veio o dilúvio, e os levou a todos; assim será também a vinda do Filho do homem." (Mateus 24:38-39). (grifo meu)
     Para quem crê na inerrância Bíblica e na sua inspiração Divina e infalibilidade, como eu creio, esses versículos são suficientes para refutar a argumentação de que outras pessoas se salvaram. Além do mais, Deus mandou essa grande catástrofe hídrica, justamente para exterminar toda a raça humana, e tenho certeza de que o Senhor não cometeria tão grosseiro erro de permitir que alguns "gigantes" escapassem pelo Seu descuido. Dizer que alguns se salvaram sem se utilizar da Arca, é como dizer que é possível se salvar hoje por outro caminho a não ser Jesus Cristo.    

     Mas não seria possível, essa ser uma afirmação apenas do ponto de vista do observador, como disse Caio Fábio? A resposta é não! Vejamos:

- Quem escreveu o livro de Gênesis foi Moisés, não Noé;
- Moisés tinha uma visão universal dos fatos, pois foi o próprio Deus quem o revelou;
- Jesus no Novo Testamento, também com sua visão Divina e universal, confirma que todos foram destruídos;
-Pedro, inspirado na sua segunda epístola confirma a visão de Jesus;
-Não nos resta outra opção a não ser ficar com a opinião de Jesus, que com certeza sabe mais sobre algo que Ele presenciou.

Prof. Saulo Nogueira
Paz a todos que estão em Cristo Jesus.



quarta-feira, 2 de julho de 2014

A expressão "filhos de Deus" em Gênesis 6.2 refere-se a anjos?

     Alguns eruditos Bíblicos, baseados na passagem de Gênesis 6, tem afirmado categoricamente que os "filhos de Deus" são anjos que mantiveram relação sexual com mulheres e dessa relação nasceram seres híbridos, que se tornaram gigantes e poderosos sobre a terra, os "varões de renome". De fato, essa é uma questão muito controversa, que traz uma grande dor de cabeça para aqueles que tentam interpretar esse texto á luz de outra passagens Bíblicas. Esse talvez seja um dos textos onde haja maior grau de dificuldade de interpretações, pois dependendo das conclusões que o estudante chegar, ele se verá diante de outros dilemas.  Henry Halley, em seu Manual Bíblico, deixa a questão suspensa:
"Os filhos de Deus (Gen.6.2), pensa-se terem sido os anjos caídos, a que talvez se refiram 2 Pe. 2.4 e Jd.6, ou pessoas de evidências das famílias Setitas que se misturaram pelo casamento com os ímpios, descendentes de Caim. Tais casamento anormais, qualquer que fossem, encheram a terra de violência.

      John F. MacArthur acredita que são anjos que coabitaram com as filhas dos homens:
"Os filhos de Deus, identificados em outro lugar, quase que exclusivamente como anjos (jó 1.6;2.1;38.7), viram e tomaram esposas da raça humana. Isso gerou uma união sobrenatural que violava a ordem dada por Deus a respeito do casamento e da procriação (Gn. 2.24)(...) a passagem coloca forte ênfase no contraste entre e angélico versus humano. O NT coloca esse relato na sequencia com outros acontecimentos de Gênesis e identifica-o como envolvendo anjos caídos que habitavam em sere humanos (2 Pe. 2.4; jd. 6). A passagem de Mateus não nega, necessariamente, a possibilidade de os anjos serem capazes de procriar, mas diz apenas que eles não se casam. Para procriarem fisicamente eles teriam que possuir um corpo humano masculino". 

     MacArthur já se previne das perguntas que surgiriam baseado em Mt. 22.30 e, por mais que creia que exista a possibilidade dos anjos terem tomado esposas na raça humana, ele nega que essa relação gerou os gigantes:
" A palavra Nephilim, provém de uma raiz que significa "cair" (naphal), indicando que eles eram homens muito fortes que "caíram"sobre outros no sentido de superá-los em força (o único outro uso desse termo se encontra em Nm. 13.33). Os gigantes já estavam na terra quando os "valentes, varões de renome" nasceram. Os caídos não são fruto dessa união"
Essa explicação encontra uma grande quantidade de adeptos e é uma teoria muito bem aceita nos meios acadêmicos e entre alguns dos Pais da Igreja. Norman Geisler, jogando ainda mais lenha na fogueira nos dá mais uma alternativa:
"Alguns eruditos bíblicos creem que a expressão "filhos de Deus" seja uma referência à linhagem piedosa de Sete (através da qual viria o redentor - Gn 4:26), que se entremeou com a linha ímpia de Caim. Eles alegam que: (a) isso se coaduna com o contexto imediato; (b) evita todo o problema decorrente da interpretação de que eram anjos; (c) está de acordo com o fato de que os seres humanos também são mencionados no AT como "filhos" de Deus (Is 43:6). Outros estudiosos acreditam que "filhos de Deus" seja uma referência a grandes homens, a "varões de renome na antiguidade". Apontam para o fato de que o texto refere-se a "gigantes" e "valentes" (v. 4). Ainda, isso evita o problema de os anjos (espíritos) coabitarem com seres humanos. Outros ainda combinam estas interpretações e especulam que os "filhos de Deus" eram anjos que "não guardaram o seu estado original" (Jd 6) e que na realidade possuíram seres humanos, levando-os a um cruzamento com "as filhas dos homens", produzindo assim uma raça superior, cuja semente foram os "gigantes" e os "varões de renome". Esta posição parece explicar todos os pontos, exceto o problema insuperável de os anjos, não tendo corpos (Hb 1:14) e sendo assexuados, coabitarem com seres humanos."
     Talvez Geisler não tenha notado, mas essa terceira opção traz ainda outro problema: Se o fato de demônios possuírem homens e esses homens manterem relações sexuais com mulheres, e dessa relação nascerem seres híbridos, hoje teríamos esses seres híbridos nascendo o tempo todo, pois existem muitas pessoas que são morada dos espíritos imundos hoje ainda. A não ser que esses anjos, sejam diferentes ou façam parte de uma hierarquia mais elevada, ou sejam os próprios anjos incorporados em forma humana, conforme Gn.18 e 19.4-5, que pareciam de fato humanos de carne e osso, a ponto dos habitantes de Sodoma e Gomorra quererem ter relações sexuais com eles. Mas isso não resolve a questão.

     Flávio Josefo, na sua Obra História dos Hebreus, escreveu:
"...Não prestavam mais a Deus a honra que lhe era devida nem exerciam mais a justiça para com os homens, mas se entregavam com mais ardor ainda a toda sorte de crimes, enquanto os seus antepassados se haviam dedicado à prática de toda espécie de virtudes. Assim, atraíram sobre si a cólera de Deus, e os grandes da terra, que se haviam casado com as filhas dos descendentes de Caim, produziram uma raça indolente que, pela confiança que depositavam na própria força, se vangloriava de calcar aos pés a justiça e imitava os gigantes de que falam os gregos."
     Na visão de Josefo, os filhos de Deus, são aqueles que mantiveram a pureza do culto verdadeiro á Deus, contrariamente aqueles que se corromperam da linhagem de Caim. Na mesma linha de raciocínio, Gleason Archer, na sua Enciclopédia de temas Bíblicos, diz que os filhos de Deus, se referem a linhagem piedosa de Sete, que se relacionou com a linhagem impiedosa de Caim. Ele diz:
"O termo "filhos de Deus" (bene elohim) é empregado no AT para anjos ou homens, verdadeiros crentes, compromissados totalmente com a obra de Deus. Entre as passagens que se referem a anjos como bene elohim estão Jó 1.6; 2.1; 38.7; Salmos 29.1; 89.6 (89.7 no Texto Massorético). (...)
     O que Gênesis 6.1, 2, 4 registra é a primeira ocorrência de casamento misto entre crentes e incrédulos e o resultado característico de tais uniões: total falta de testemunho do Senhor e pleno desprezo pelos padrões morais. Em outras palavras, os "filhos de Deus" dessa passagem eram descendentes da linhagem piedosa de Sete. Em vez de permanecer fiéis ao Senhor e leais à sua herança espiritual, permitiram-se ser tentados e seduzidos pela beleza de mulheres ímpias, as "filhas dos homens" — a saber, as seguidoras da tradição e do exemplo de Caim. O resultado desses casamentos foi a depravação da natureza humana, no tocante às gerações mais jovens, até que as civilizações antediluvianas se afundaram na iniqüidade e na perversão. "O SENHOR viu que a perversidade do homem tinha aumentado na terra e que toda a inclinação dos pensamentos do seu coração era sempre e somente para o mal" (v. 5). O resultado inevitável foi o julgamento, a terrível destruição pelo Dilúvio. Talvez fosse necessário aqui um último comentário sobre os anjos. Se admitíssemos que os espíritos conseguem, de alguma forma, manter relações sexuais com seres humanos — e eles não podem — nem assim deveriam enquadrar-se na passagem que estamos estudando. Caso fossem demônios, isto é, seres decaídos que seguiram Satanás, de modo algum poderiam ser chamados "filhos de Deus". Os espíritos maus destinados ao inferno jamais são assim designados ("filhos de Deus") nas Escrituras. Tampouco poderiam ter sido anjos de Deus, visto que estes vivem em obediência total ao Senhor. Não têm outro objetivo ou desejo senão o de fazer a vontade de Deus e glorificar seu nome. Portanto, está fora de cogitação qualquer envolvimento sórdido de anjos, como "filhos de Deus", com jovens mulheres impiedosas. Portanto, a única explicação viável é a que apresentamos no parágrafo anterior.
     As ocorrências de bene elohim com referência a homens que têm um relacionamento de aliança com Deus são tão numerosas no AT quanto aquelas que se referem a anjos (cf. Dt 14.1; 32.5; Sl 73.15; Os 1.10 — e, cremos, Gn 6.2 também). As razões por que entendemos que Gênesis 6.2 refere-se a membros da família da aliança, descendentes da linhagem de Sete, são muito fortes. As Escrituras ensinam com clareza que os anjos são espíritos, "espíritos ministradores, enviados para servir aqueles que hão de herdar a salvação" (Hb 1.14). Embora possam de vez em quando aparecer sob forma corpórea semelhante a homens, não têm corpo físico e, por isso, não conseguem manter relações sexuais com mulheres. A especulação rabínica de que Gn 6.2 faz referência a anjos constitui uma curiosa intrusão de superstição pagã sem nenhuma base nas Escrituras. A idéia de seres humanos incomuns dotados de estatura gigantesca (nefilins, v. 4) terem resultado desses casamentos não se baseia em nenhuma evidência de paternidade angelical. Não consta que os filhos de Anaque ou Golias e seus irmãos tivessem ligação com os anjos por causa de sua grande estatura; tampouco há razões para supor que os gigantes antediluvianos tinham ascendência angélica."
     Complementando a visão de Archer: se os gigantes fosse descendentes dessa união de anjos com humanas, teríamos que admitir então que além de Noé e sua família, os gigantes também sobreviveram ao Dilúvio e Deus foi frustrado no seu intento, pois existiam gigantes também depois do dilúvio. A única explicação que nos resta é admitir que os homens de grande estatura depois da grande catástrofe hídrica (que não eram tão altos assim como as pessoas imaginam com 11 metros de altura, mas talvez como Golias com seus 3,10 m de altura) são filhos de seres humanos normais, pois não existe nenhuma evidência de paternidade angelical. (cf. Nm. 13.33 e 1 Sm.17.4)

    A argumentação de Gleason Archer é mais plausível e que se melhor harmoniza com o restante das Escrituras, ou seja, os filhos de Deus são a descendência piedosa de Sete (chamados assim por fazerem a vontade soberana de Deus) em contraste com os filhos dos homens, que seguiram a dissimulação de Caim, chamados assim, por representarem a humanidade corrompida e por tentarem destruir a promessa da descendência da Mulher, ou seja, o Messias prometido.

Mas e 2Pe. 2.4 e Jd. 6 ?

"Porque, se Deus não perdoou aos anjos que pecaram, mas, havendo-os lançado no inferno, os entregou às cadeias da escuridão, ficando reservados para o juízo;" (2 Pedro 2:4)
 "E aos anjos que não guardaram o seu principado, mas deixaram a sua própria habitação, reservou na escuridão e em prisões eternas até ao juízo daquele grande dia;" (Judas 1:6)
     Os textos em questão fazem apenas referências á grandes juízos de Deus, sobre anjos e humanos. Alguns estudiosos fazem ligações entre esses textos e Gn. 6, devido ao fato de Pedro, por exemplo, após citar os versículos supra citados, fala acerca do Dilúvio:
"E não perdoou ao mundo antigo, mas guardou a Noé, a oitava pessoa, o pregoeiro da justiça, ao trazer o dilúvio sobre o mundo dos ímpios; (2 Pedro 2:5)
     Pedro apenas faz uma análise dramática do juízo de Deus sobre aqueles que desobedeceram as ordens Divinas, ensinando heresias de perdição:
"E também houve entre o povo falsos profetas, como entre vós haverá também falsos doutores, que introduzirão encobertamente heresias de perdição, e negarão o Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina perdição.E muitos seguirão as suas dissoluções, pelos quais será blasfemado o caminho da verdade. E por avareza farão de vós negócio com palavras fingidas; sobre os quais já de largo tempo não será tardia a sentença, e a sua perdição não dormita. (2 Pedro 2:1-3
     Assim como Deus não poupou nem os anjos, ele não poupará os falsos mestre e falsos doutores. Já Judas faz a citação dos anjos, porém se cala em relação ao Dilúvio, citando, assim como Pedro a destruição de Sodoma e Gomorra. Tentar fazer um paralelo entre esses textos e Gênesis é fazer uma interpretação forçada.

Prof. Saulo Nogueira
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Bibliografia:
L. Archer jr, Gleason; Enciclopédia de Temas Bíblicos;
Henry, Halley; Manual Bíblico;
MacArthur, John F.; Bíblia de Estudo MacArthur;
Josefo, Flávio; História dos Hebreus
Geisler, Norman; Howe, Thomas; Manual popular de dúvidas, enigmas e "contradições" da Bíblia.