Mostrando postagens com marcador Hermenêutica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Hermenêutica. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 6 de março de 2018

Destruição da Síria é cumprimento de profecia bíblica?

       Desde o ano passado, quando o cenário de destruição na Síria começou a se aproximar da capital Damasco, alguns teólogos vêm fazendo diferentes análises sobre a possibilidade de isso ser o cumprimento, em nossos dias, de antigas profecias bíblicas. A partir do último dia 18 de fevereiro, as tropas do presidente sírio Basha Al Assad começaram um bombardeio maciço nos subúrbios ao Leste da capital, na região de Ghouta Oriental. Com cerca de 400 mil moradores e dominada por forças rebeldes ao regime, quase que diariamente há notícias de dezenas de civis mortos após os ataques. A ONU tentou negociar uma trégua, que incluiria um cessar-fogo de 30 dias, quando seria possível evacuar a região. Porém, ela não foi seguida e agora surgem denúncias do uso de armas químicas. O conflito em Ghouta se estende desde 2013. Distando cerca de 15 km de Damasco, uma derrota ali permitiria que os opositores do presidente conquistassem a capital, ponto fim ao regime atual.


       Ainda que alguns estudiosos descrevam essa lamentável crise humanitária como evidência do cumprimento de profecias bíblicas, há quem classifique essa conexão como “irresponsável” e “equivocada”. Os textos mais citados são Isaías 17 e Jeremias 49, que falam sobra a destruição de Damasco, que se tornaria um “montão de ruínas”.

"Advertência contra Damasco: "Damasco deixará de ser cidade; e se tornará um monte de ruínas". (Isaías 17:1)

"Damasco tornou-se frágil, ela se virou para fugir, e o pânico tomou conta dela; angústia e dor dela se apoderaram, dor como a de uma mulher em trabalho de parto. Como está abandonada a cidade famosa, a cidade da alegria! Por isso, os seus jovens cairão nas ruas e todos os seus guerreiros se calarão naquele dia", declara o Senhor dos exércitos". (Jeremias 49:24-26)

       Para o renomado escritor evangélico Joel Rosenberg, “Estamos vendo o que parece o fim de Damasco. Não sabemos se esse é o prelúdio para o cumprimento dessas profecias. Porém, Damasco é a cidade mais antiga da Terra a ser habitada continuamente. O fato de ela estar sendo destruída é algo extraordinário… No passado, ela foi atacada, sitiada e conquistada, mas nunca ficou completamente destruída e desabitada”.

       Autor de vários livros sobre escatologia, Rosenberg lembra que “O profeta Ezequiel escreveu há 2.500 anos que, nos ‘últimos dias’, a Rússia [Gogue?] e o Irã [Pérsia] formarão uma aliança militar para atacarem Israel pelo norte. Os estudiosos da Bíblia chamam este conflito escatológico, descrito em Ezequiel 38 e 39 de a guerra de Gogue e Magogue”. O teólogo acredita que a participação ativa de Moscou e Teerã neste conflito nos últimos anos não é apenas uma coincidência, mas um cumprimento profético. Lançado em 2016, o livro “Armageddom Code” [O código do Armagedom] do jornalista cristão
Billy Hallowell possui uma interpretação muito similar a maneira como as cidades e países mencionados no “cenário dos últimos dias” podem ser facilmente identificadas em muitas reportagens exibidas recentemente na TV.

       O grande drama humanitário do Oriente Médio poderá ficar ainda pior nas próximas semanas, uma vez que tantos os Estados Unidos quanto o Reino Unidos ameaçam bombardear Damasco, caso fique comprovado o uso de armas químicas, que violam os acordos da ONU. Embora o alvo primordial seria os arsenais de Assad, isso poderia, definitivamente, fazer com que a capital Síria se torne “um montão de ruínas”. Cabe ressaltar que, a geografia bíblica é distinta da atual e nos dias do Antigo Testamento, a localização de Damasco incluía o que hoje é Ghouta, palavra que significa “oásis” e faz referência a uma fonte de água no deserto, condição essencial para o estabelecimento de cidades na antiguidade.

Profecia cumprida no passado

       A ideia que não faria sentido relacionar os eventos atuais com a profecia bíblica é rejeitada por eruditos que acreditam que tanto Isaías quanto Ezequiel se referiam a algo que já ocorreu: o ataque dos assírios contra Damasco no ano 732 a.C. É o que defende Hank Hanegraaff, teólogo com vários livros publicados no Brasil, e apresentador do programa de rádio “Bible Answer Man”, onde esclarece dúvidas sobre a Bíblia. Questionado por um ouvinte sobre o texto de Isaías 17, foi enfático: “Usar essa passagem de Isaías para explicar o que está acontecendo atualmente na Síria é um bom exemplo “escatologia de imprensa”. É uma vergonha os pastores fazerem isso. Ou eles não conhecem a palavra de Deus ou quererem promover o sensacionalismo e sofismas”.

       Hanegraaff defende a ideia, comum nos seminários tradicionais, que Isaías 17 foi cumprido há milhares de anos. “Se olharmos para o que a Bíblia realmente diz, fica muito claro que o cumprimento da profecia também é relatado pelo texto bíblico. Se você olhar para o que começa a ser dito em Isaías 7, verá uma permutação, e seu cumprimento é descrito no capítulo seguinte, em Isaías 8”. No entendimento de Hanegraaff, quem foge da interpretação histórica dessas passagens está tentando “encaixar as profecias em suas próprias visões escatológicas”.

       Ele não está sozinho. A doutora Candida Moss, professora de Novo Testamento e Cristianismo Primitivo na Universidade Católica de Notre Dame, também acredita que a prometida destruição de Damasco ocorreu no século VIII antes de Cristo, mais especificamente na sua conquista pelos assírios, em 732 a.C. “Porém, essa não foi a única vez que Damasco testemunhou grandes conflitos”, sublinha Moss. Entre os conquistadores de cidade, sempre com algum tipo de destruição, incluem-se o rei Nabucodonosor, da Babilônia, e o rei grego Alexandre, o Grande. Menos conhecido no Ocidente, o general islâmico Khalid ibn al-Walid, fez um cerco militar à cidade, no século 7. Posteriormente, na início do século 15, os exércitos turco-mongóis de  Timur-i-Lenk (Tamerlão, em português) conquistaram Damasco, matando toda a sua população. 

Com informações de CBN


Nota do Blog: Obviamente a Profecia Bíblica foi cumprida cronologicamente no século XIII, durante o cerco Assírio. Dizer que a cidade nunca foi destruída totalmente e desabitada, é não entender muitas vezes as figuras de linguagem e os hebraísmos bíblicos! Querer encaixar esses acontecimentos para fazer sensacionalismo  através de sofismas e escatologia forjada, não colabora em nada para a discussão sobre a veracidade das profecias bíblicas. 

terça-feira, 10 de março de 2015

Para que serve a exegese Bíblica?

       A interpretação incorreta de passagens bíblicas pode trazer sérios prejuízos para aqueles que prezam pela sã doutrina e, em alguns casos, pode até comprometer o verdadeiro sentido e a intenção do autor criando uma dificuldade interpretativa ou até mesmo uma heresia. Daí a grande importância da exegese bíblica. Mas o que significam exegese ?

   "Todas as heresias e aberrações doutrinárias são provenientes de interpretações errôneas da Bíblia e significados diferentes às palavras básicas da fé cristã. O sentido correto de um texto só é possível mediante a aplicação correta da exegese e da hermenêutica. O exegeta sincero procede conforme certos princípios básicos para uma análise honesta do texto. Para a interpretação é necessário considerar o sentido contextual, analógico e histórico. O vocábulo "exegese" vem do grego exegesis, duas palavras ek e egeomai, que juntas significam: "extraio, tiro, saco", de sacar, conduzir para fora. A "exegese" é a ciência da interpretação, é a extração do autêntico sentido da palavra. É a análise do que a palavra diz, e não do que eu quero que ela diga. As doutrinas bíblicas são de dentro para fora. Isso se chama exegese. As dos homens, são de fora para dentro, a eisegese. Esse último os cristãos ortodoxos rejeitam, mesmo que apareçam travestidas de roupagens bíblicas."[1]

       "Podemos afirmar também que "a exegese é o estudo cuidadoso e sistemático da Escritura para descobrir o significado original que foi pretendido. (...) É a tentativa de escutar a Palavra conforme os destinatários originais devem tê-la ouvido; descobrir qual era a intenção original das Palavras da Bíblia" [2]

        Quando lemos um capítulo ou versículos da Bíblia, por mais que saibamos que aquela passagem se destina também á nós hoje (pois a Palavra de Deus é viva), temos que entender que ela tinha um objetivo, um destinatário, um propósito um pouco diferente da nossa realidade. Tirar um texto do seu contexto pode acarretar em um sério problema interpretativo. Por exemplo: algumas pessoas pegam sua Bíblia e pedem á Deus que falem com elas. Abrem aleatoriamente em qualquer versículo, completamente descontextualizado e acreditam que a sua interpretação pessoal ou sua "eisegese" seria a resposta de Deus para os seus problemas. Conta-se que certo cristão pegou sua Bíblia e foi ver o que Deus tinha para ele. Abriu aleatoriamente e caiu em Mt. 27.5:  "E ele, atirando para o templo as moedas de prata, retirou-se e foi-se enforcar."
Pensou: bom, vamos ver o que Deus quer falar. E abriu novamente sua Bíblia. O texto que saiu foi Lc. 10.37: "E ele disse: O que usou de misericórdia para com ele. Disse, pois, Jesus: Vai, e faze da mesma maneira."

       Será que Jesus queria que o irmão fosse se enforcar como Judas? Ou corremos sérios riscos quando descontextualizamos os versículos Bíblicos? Não podemos colocar as nossas emoções, sentimentos e vontades acima da exegese."O que fala a mim" ou "o que me toca" são preocupações egocêntricas de quem quer ver na Palavra de Deus uma caixinha de promessas, pronta para tirarmos bênção e prosperidade, sem entender que existe um "se" por trás dessas dádivas de Deus. A "caixinha de promessas" só mostra o que você vai receber, mas não traz as condições para isso.

A Bíblia e as seitas

       De todos os livros do mundo, creio que a Bíblia seja o mais maltratado, pois muitas pessoas usam de passagens isoladas para construir doutrinas e seitas. As inúmeras seitas cristãs ou igrejas pseudocristãs se utilizam de interpretações equivocadas para embasar as mais variadas heresias e distorções. Por exemplo: algumas igrejas neopentecostais se utilizam do Antigo Testamento para criar as mais absurdas campanhas em seus templos, ignorando completamente a sociedade, cultura, dispensação, cronologia e propósitos divinos para a ocasião. Se utilizam de "atos proféticos" e de elementos sincréticos, como Arca da Aliança, Candelabro, Talit, kipá desassociando esses elementos de seus reais propósitos e fazendo um tremendo malabarismo e uma péssima exegese para tentar se utilizar desses recursos na atual dispensação. 

       Seitas como os testemunhas de Jeová e os mórmons, além de usarem de uma falsa interpretação, mutilam o texto bíblico ou complementam com outras literaturas "divinamente" reveladas. Os espíritas vão além, criando a sua própria interpretação dos textos sagrados, negligenciando completamente a boa hermenêutica. E, ainda grupos ortodoxos, que por falhas na observância das regras de exegese, criam doutrinas que escravizam seus membros, proibindo coisas que a Bíblia não proíbe ou colocando fardos pesados sobre seus membros, baseados em opiniões pessoais, doutrinas humanas, falsa piedade ou interpretações particulares.

E o Espírito Santo? Como que Ele ilumina os cristãos para compreenderem a Palavra?


       "Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente. Mas o que é espiritual discerne bem tudo, e ele de ninguém é discernido. Porque, quem conheceu a mente do Senhor, para que possa instruí-lo? Mas nós temos a mente de Cristo.(1 Coríntios 2:14-16)


       Um professor Universitário de Teologia pode compreender perfeitamente toda a Doutrina Bíblica mas ser um ateu. Ele pode saber usar todas as regras de Hermenêutica  e exegese, conhecer as línguas originais, saber interpretar corretamente as parábolas, símiles, alegorias e mesmo assim ser um descrente inveterado. Ele pode fazer aquilo que a nossa razão e inteligência permite, mas se ele não tiver uma disposição intelectual para aceitar aquilo que ele conhece, ou seja, permitir que o Espírito Santo, o ilumine para aplicar em sua vida o conhecimento divino, ele não passará de um mero entendedor de regras.  

       "Não há dúvidas que a Bíblia exige um conjunto diferente de regras. É preciso que o intérprete seja iluminado espiritualmente para que possa compreender a Escritura.Todavia é preciso não exagerar na dose. Não há duas lógicas e duas hermenêuticas no mundo, uma natural e outra espiritual. O que Paulo tem em mente em 1Coríntios 2.14-16 é a aplicação e a significação pessoal do significado básico que se depreende de suas palavras. É lógico que o indivíduo precisa também revestir-se de um estado mental e de uma disposição intelectual própria para começar a compreender assuntos para os quais não se acha naturalmente inclinado - seja no campo da astrofísica, da matemática, da poesia ou da Bíblia. Consequentemente, não se pode tomar a palavra de Paulo e afirmar com base nela que sem o Espírito ninguém pode compreender a Bíblia, a menos que se deixe guiar por Ele. Tal afirmativa contradiz frontalmente tanto a experiência quanto os ensinamentos da Escritura, segundo o qual os homens serão julgados também por rejeitarem aquilo que a Bíblia declara ser extremamente claro a todos, porque recusam-se a aceitá-lo.(...) Cremos que é obra especial do Espírito Santo convencer as pessoas a entenderem essa relação, acreditarem nela e a viverem de acordo com ela. Isso, porém, não contradiz o fato de que Deus quis que Sua revelação fosse compreendida".[3]

        "Em contraste com o homem espiritual está o homem natural. A palavra para natural (psychikos) sempre denota “a vida do mundo natural e aquilo que pertence a ele, em contraste com o mundo sobrenatural, que é caracterizado pelo pneuma (espírito)”. Portanto, o homem natural é “aquele que possui... simplesmente o órgão da percepção puramente humana, mas que ainda não possui o órgão da percepção religiosa no... espírito”. O homem natural possui apenas os poderes comuns do homem separado de Deus; como tal, ele não compreende as coisas do Espírito de Deus... e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente. Visto que as habilidades naturais do homem “são totalmente corruptas por causa do pecado, consequentemente toda a atividade de sua alma e mente será obscurecida”[4]

     As regras de hermenêutica e exegese Bíblicas servem como um norteador para estudantes, professores, críticos e cristãos, crentes e descrentes e para um bom entendimento dos textos e doutrinas, mas ela é ineficiente para salvar o pecador, pois essa é a função do Espírito Santo de Deus, que "convence o homem do pecado, da justiça e do juízo" (Jo. 16.8) Mas isso não significa de devemos deixar de lado o estudo sistemático da Palavra de Deus, pois na hora de instruirmos as pessoas no caminho da Salvação, ou argumentarmos com pessoas escravizadas pelas seitas, o Espírito Santo usará o nosso conhecimento e nos lembrará das palavras previamente aprendidas, "para estarmos sempre preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós."(1Pe. 3.15)

       A hermenêutica, como toda ciência, tem seus critérios e métodos que se não forem bem observados trarão um resultado final diferente para cada observador. E infelizmente temos visto isso muito por aí.

Professor Saulo Nogueira
Paz á todos que estão em Cristo Jesus.


Referências Bibliográficas:

[1]Soares, Ezequias. Manual de Apologética cristã. Defendendo os fundamentos da verdadeira fé bíblica - São Paulo; 2º edição: CPAD, 2003

[2]D. Free, Gordon, Stuart, Douglas. Entendes o que lês? São Paulo; 2º edição: Editora Vida Nova, 1997

[3]Geisler, Norman L. A inerrância da Bíblia - São Paulo: Editora Vida, 2003

[4]Comentário Bíblico Beacon - Rio de Janeiro; 1° edição: CPAD, 2006

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

O que significa batismo com fogo em Lucas 3.16?

"João respondeu a todos: "Eu os batizo com água. Mas virá alguém mais poderoso do que eu, tanto que não sou digno nem de curvar-me e desamarrar as correias das suas sandálias. Ele os batizará com o Espírito Santo e com fogo." (Lucas 3:16) NVI. (grifo meu)
          
      Esse versículo, encontrado nos Evangelhos de Mateus 3.11, Marcos 1.8 e Lucas 3.16, causam uma grande polêmica no meio Evangélico. Alguns defendem que esse batismo é um simbolismo do fogo purificador, que queima o pecado e as impurezas que contaminam o cristão. Outros concluem que esse batismo se refira ao juízo de Deus sobre os ímpios e, consequentemente, não faz referência aos cristãos. Sem querer criar polêmica, mas simplesmente querendo colaborar com o bom diálogo e interpretação, darei minha contribuição nessa questão, baseado na opinião de grandes especialistas, tanto da ala Pentecostal quando da ala Reformada.

       Todo bom estudioso e intérprete Bíblico deve conhecer algumas regras simples e básicas de hermenêutica. E uma dessas regras é que o próprio contexto define o sentido do versículo em questão. Já no começo do capítulo, João Batista se refere a um juízo vindouro de Deus sobre aqueles que praticam todo tipo de impiedade: "João dizia às multidões que saíam para serem batizadas por ele: "Raça de víboras! Quem lhes deu a ideia de fugir da ira que se aproxima?" (Lucas 3:7). A ideia  transmitida por João aqui é de serpentes fugindo de um incêndio numa floresta.

       E acrescenta: "O machado já está posto à raiz das árvores, e toda árvore que não der bom fruto será cortada e lançada ao fogo" (Lucas 3:9). Indicando que a punição era iminente.

      Fica claro, já no início do capítulo, que a mensagem de João era direcionada a dois grupos de pessoas: Aquelas que realmente estavam arrependidas e queriam o perdão de Deus e aquelas que se auto-justificavam por crerem que a obediência á Lei e por serem filhos de Abraão era garantia de Salvação: "Dêem frutos que mostrem o arrependimento. E não comecem a dizer a si mesmos: ‘Abraão é nosso pai’. Pois eu lhes digo que destas pedras Deus pode fazer surgir filhos a Abraão." (Lucas 3:8).

      Que existe a necessidade absoluta do crente ser batizado com o Espírito Santo é uma verdade inegável nas escrituras sagradas. Mas pensar que o batismo com o Espírito Santo é o mesmo batismo de fogo é não compreender o significado real do versículo.

       Mas isso não é uma questão de opinião, vejamos o que dizem os especialistas em hermenêutica:

     A Bíblia de Estudo Plenitude, de orientação pentecostal, no texto de Lc 3.16 remete para um comentário de Mt 3.11 como segue:

“O batismo de João é um tipo de experiência de salvação de ser batizado no Espírito. Como o batismo de João colocava o indivíduo dentro da água, o batismo de Jesus coloca o cristão no Espírito, identificando-o como totalmente ligado ao Senhor. O fogo purifica ou destrói. Portanto, a salvação em Jesus Cristo será purificadora para os verdadeiros judeus que o aceitarem como o Messias, e destruidora para aqueles que o rejeitarem.”

       A Bíblia de Estudo Genebra comenta assim a questão do fogo em Lc 3.16: “O batismo com fogo aponta para o juízo (v.9 nota). A pá para limpar sua eira’ é outro símbolo para o juízo (v. 17)...”. 

      A Bíblia de Estudo NVI assim comenta o mesmo texto: “... e com fogo. Aqui, o fogo está associado ao juízo (v.17)...”.

     A Bíblia de Estudo Shedd analisa o texto assim: “... Fogo. O contexto (17) parece exigir o sentido de prova, de  julgamento (Lc 12.39-53; 1 Co 3.13).”  Ainda a mesma Bíblia comenta Mt 3.11 assim: “Com o Espírito Santo e com fogo. Refere-se ao ministério espiritual de Cristo. Sua obra começou acompanhada pela energia sobrenatural do Espírito Santo, colhendo-se algum ‘trigo’ (os fiéis), e revelando-se quem seria ‘palha’ para julgamento. A doutrina do batismo no Espírito Santo não recebe luzes neste trecho, pois o assunto pertence à época posterior à ressurreição de Jesus (1 Co 12.13)".   

    R. N. Champlin, em sua obra “O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo”, relaciona o texto de Lc 3.16 com o comentário de Mt 3.11, como segue: “...Há várias interpretações dessas palavras: 1. Alguns acham que aqui temos dois batismos, um do Espírito e outro de fogo, e que esse último fala de juízo, provavelmente até de inferno. Assim interpretaram Orígenes e outros pais da igreja...alguns bons intérpretes reputam esse batismo de fogo como algo que se refere ao juízo."

       John F. MacArthur na sua Bíblia de Estudo traz a seguinte nota de rodapé: "com fogo". Pelo fato de, nesse contexto, o fogo ser usado como meio de punição (v. 9), isso é provavelmente uma referência a um batismo de castigo sobre os ímpios.

       Charlie C. Ryrie, grande comentarista bíblico, autor da Bíblia de estudo anotada, na versão expandida, traz a seguinte informação:"fogo". Provavelmente uma referência aos julgamentos associados á segunda vinda de Cristo. O batismo com o Espírito Santo ocorreu no dia de Pentecostes, ao passo de que o batismo com fogo se refere aos juízo que acompanharão a segunda vinda de Cristo.


     Lendo a ilustração que o Apóstolo Pedro faz sobre a Vinda de Cristo, conseguimos visualizar o quadro profetizado por João Batista: " Ora, os céus que agora existem e a terra, pela mesma Palavra, têm sido entesourados para fogo, estando reservados para o Dia do Juízo e destruição dos homens ímpios" (2Pe. 3.7). E também o escritor de Hebreus: "Pois o nosso Deus é um fogo consumidor"


      Podemos apresentar ainda outros versículos bíblicos que corroboram com nossa conclusão: no início do Livro de Atos dos Apóstolos, também escrito pelo médico Lucas, vemos Jesus ratificando sua promessa aos seus discípulos fazendo a seguinte declaração:
"Certa ocasião, enquanto comia com eles, deu-lhes esta ordem: "Não saiam de Jerusalém, mas esperem pela promessa de meu Pai, da qual lhes falei. Pois João batizou com água, mas dentro de poucos dias vocês serão batizados com o Espírito Santo". (Atos 1:4,5) 
      Note que pelo fato de Jesus estar se referindo apenas aos seus discípulos ele não faz nenhuma referência à nenhum tipo de batismo de fogo, confirmando a ideia de que este seria somente para os ímpios no fim dos tempos.

       Também no Livro de Atos, quando Pedro se defende diante dos Judaizantes pelo fato de ter levado o Evangelho aos gentios, ele relembra a promessa do Batismo feita por Jesus:
"Quando comecei a falar, o Espírito Santo desceu sobre eles como sobre nós no princípio. Então me lembrei do que o Senhor tinha dito: ‘João batizou com água, mas vocês serão batizados com o Espírito Santo’. (Atos 11:15,16)

     Além disso, podemos traçar um paralelo entre os versículos, para que a conclusão fique ainda mais clara e óbvia:

"... ele vos batizará com os Espírito Santo." ______"... para limpar completamente a sua                                                                                 eira e recolher o trigo no seu celeiro"


"...e com fogo"________________________________  "...porém queimará a palha em                                                                                              fogo inextinguível"



Mas, então por que a referência ao fogo em Atos 2? Não seria o cumprimento da Palavra de João Batista: "com o Espírito Santo e com fogo"?


Vamos ao texto:
"Ao cumprir-se o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar. De repente veio do céu um ruído, como que de um vento impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam sentados. E lhes apareceram umas línguas como que de fogo, que se distribuíam, e sobre cada um deles pousou uma. E todos ficaram cheios do Espírito Santo, e começaram a falar noutras línguas, conforme o Espírito lhes concedia que falassem. (Atos 2:1-4)
       Lucas não disse que as línguas eram de fogo ou que desceu fogo literal do céu, mas que pareciam "línguas como que de fogo". O autor de Atos se utiliza aqui de uma linguagem comparativa, ou seja, uma analogia, para repassar de uma maneira compreensível aquilo que estava além da compreensão humana. Os discípulos não podiam compreender o significado da Vinda do Espírito sem que o Senhor ilustrasse soberanamente com um fenômeno visível o que estava acontecendo. O uso que Deus faz com aparência de fogo aqui é paralelo ao que faz com a pomba quando Jesus foi batizado. (Lc. 3.21-22). Nenhum cristão em sã consciência diz que o Espírito Santo é uma pomba. Além disso, se Atos 2 cumprisse totalmente Lc. 3.16, o próprio autor, que escreveu tanto um quanto o outro faria menção ao cumprimento proposto por João Batista.

Conclusão


       Por mais que haja discordância de alguns em relação ao texto, o sentido mais fluente e natural da narrativa é que o batismo de fogo de Jesus, se refere claramente a uma condenação na Sua segunda Vinda, que não será administrada sobre os cristão, mas sobre os ímpios.

Prof. Saulo Nogueira.

Bibliografia:

Bíblia de Estudo Plenitude;
Bíblia de Estudo de Genebra;
Bíblia de Estudo NVI;
Bíblia de Estudo Shed;
Bíblia de Estudo MacArthur;
Bíblia de Estudo Anotada Expandida;
Champlin; R.N. O Novo Testamento interpretado.



segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Posso todas as coisas Naquele que me fortalece?


       Muitas vezes andando na rua, vemos muitos carros de pessoas cristãs ou não, com dizeres supostamente Bíblicos, estampados em seus vidros ou lataria, evidenciando uma promessa ou uma vitória que tenha recebido. Não tenho nada contra quem coloca adesivos tipo "Deus é fiel", "propriedade do Senhor Jesus", "foi Deus que me deus", etc. Essa não é a questão aqui. A questão é que muitas dessas interpretações fogem do escopo de uma boa exegese Bíblica. Um versículo muito utilizado é Filipenses 4.13: "Posso todas as coisas naquele que me fortalece". Infelizmente, também é um dos versículos  mais mal compreendidos das Escrituras. Na realidade este texto é entendido exatamente o contrário do que pretendido pelo autor. A interpretação popular,  muitas vezes vinculada á uma Teologia Triunfalista, imagina que esse texto diz: "Eu posso alcançar tudo o que eu desejar" ou "vencerei todos os  meus obstáculos", ou até "comigo ninguém pode", nada mais distante da realidade.


       Todo estudante e leitor da Bíblia, tem uma obrigação de buscar o sentido correto do texto, ou seja, aquele pretendido por Deus, e transmitido pelo se interlocutor humano, pois as Palavras de Deus, descontextualizadas, se transformam nas palavras do Diabo (cf. Mt.4). A ideia que se pode descobrir algo "escondido","oculto" ou "especial" no texto é falsa e deve ser abandonada, pois reflete um pensamento do movimento gnóstico, considerado como herético pela Igreja desde longa data. Mas vamos ao texto. O que o Apóstolo Paulo tinha em mente quando escreveu essas Palavras para os irmãos Filipenses?

       Primeiramente, quando queremos nos aprofundar no sentido verdadeiro de uma passagem, devemos recorrer ao texto grego (ou Hebraico) para entender o sentido original do texto. A palavra "fortalece" nesse contexto, segundo Strong 1412, vem de "dunamis" (cf. dinamite), que nos traz o sentido de poder, força, o que intensifica o fortalecimento dado por Cristo no versículo. Mas nesse caso e na maioria das vezes, o texto em português, expressa com suficiência o conteúdo do verso em grego, devido a boa qualidade das versões que temos na nossa língua. Então  teremos que recorrer a uma das regras básicas da exegese Bíblica: o contexto.

        Filipenses é conhecida por ser uma das epístolas da prisão, juntamente com Efésios, Colossenses e Filemon. Os textos de 1.7,13,14 e 17 deixam muito claro que o Apóstolo Paulo estava encarcerado quando escreveu suas epístolas. Surpreendentemente Filipenses é uma das epístolas mais pacíficas do Novo Testamento, pois Paulo quase não apresenta censura á Igreja. Luiz Sayão Teólogo e Hebraísta nos traz uma interessante nota:
"(...) um dos temas de encorajamento que marca a epístola é "alegria". O verbo alegrar-se (chairo) aparece em 1.18,2.17,18,28,3.1,4.4 e 4.10; regozijar (synkairo) está em 2.17 e 18. O imperativo plural é contundente, aparecendo em 2.18 e 4.4, o famoso texto que diz: "Alegrem-se sempre no Senhor. Novamente direi: alegrem-se!" É impressionante ver um preso exortando os demais á alegria".[1]
      
       Apesar da alegria de Paulo e de sua motivação aos irmãos de Filipos, o local de onde a carta foi escrita foi de uma prisão fria, mal cheirosa e repugnante, (Roma talvez) demonstrando exatamente o sentido real que o autor quer transmitir, ou seja: posso estar preso, com frio, fome e  nudez. Posso estar enfermo ou com saúde, empregado ou desempregado, ter fartura ou estar em dificuldades, mas apesar de todas essas coisas e de enfrentar qualquer situação difícil o Senhor me fortalece e me dá forças suficientes para suportar as agruras do meu ministério. Não adianta recitar o versículo 4.13 e passar por cima do contexto dos versos 11 e 12:

"Não estou dizendo isso porque esteja necessitado, pois aprendi a adaptar-me a toda e qualquer circunstância. Sei o que é passar necessidade e sei o que é ter fartura. Aprendi o segredo de viver contente em toda e qualquer situação, seja bem alimentado, seja com fome, tendo muito, ou passando necessidade." (NVI)
      
       Agora sim, você pode soltar a máxima: "posso (ou suporto) todas as coisas Naquele que me fortalece", afinal o que Paulo "pode" aqui não significa "tenho capacidade para conseguir", muito menos quer dizer que "tenho direito a isso", mas ao contrário, "poder" aqui significa que a fartura também não permite que Paulo sirva menos á Deus. A essência e a máxima do texto seria, como diz Sayão: "aprendi o segredo de viver contente com toda e qualquer situação"[2].

Paz á todos que estão em Cristo Jesus.
Prof. Saulo Nogueira

[1] Sayão, Luiz A. Agora sim! Teologia na prática do começo ao fim, São Paulo: Hagnos, 2012.
[2]ibid.