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segunda-feira, 4 de abril de 2016

O apóstolo Paulo vendia lenços consagrados para curar os enfermos?

      Um pseudoapóstolo tupiniquim disse em resposta á uma pastora, que tem base bíblica para vender indulgências modernas, como os famigerados "lencinhos ungidos". Mas antes de prosseguir, sugiro que para entender a história, leia esse artigo

       Bom, agora que voltamos e, você está de boca aberta com tanta bobagem, perguntamos: existe base bíblica para defender a venda de "lencinhos ungidos"? O texto base usado pelos pregadores da prosperidade é Atos 19, onde se diz:

"E Deus pelas mãos de Paulo fazia milagres extraordinários, de sorte que lenços e aventais eram levados do seu corpo aos enfermos, e as doenças os deixavam e saíam deles os espíritos malignos." (Atos 19:11,12)

     Esse texto pode ser usado para defender essa prática, muito comum nessas denominações? Vamos fazer uma análise sistemática desse versículo, desmascarando que ao contrário do que eles pregam, jamais foi a intenção, nem de Paulo, nem de nenhum outro apóstolo dar brecha para que essa abominação atualmente fosse feita.

Pano de Fundo

      Paulo, após sua miraculosa conversão e chamado, se tornou um pregador itinerante. Porém, exercia trabalhos manuais, como a fabricação de tendas para se sustentar e não ser pesado à nenhuma igreja (At. 18.3). Paulo era um apóstolo e trabalhador incansável, que, quando não estava exercendo seu ofício, estava pregando o evangelho. Durante o período em que passou em Éfeso, um pouco mais de dois anos, Paulo exerceu grande influência e obteve significativo êxito, que foram relatados por Lucas:


“Todos os que habitavam na Ásia ouviram a palavra do Senhor Jesus, tanto judeus como gregos” (19.10); “assim, a palavra do Senhor crescia poderosamente e prevalecia” (19.20).

      "Em Éfeso, ele desempenhou o ministério na sinagoga durante cerca de três meses, e depois passou a pregar no edifício de Tirano durante dois anos. Era uma característica de Paulo levantar cedo e executar a tarefa do dia com as suas mãos — provavelmente junto com Aqüila em sua profissão de fazer tendas para sustentar a si mesmo e aos seus colegas (At. 20.34) — e depois pregar e ensinar durante cinco horas enquanto dispunha do uso do edifício. Evidentemente, ele passava as noites ministrando aos convertidos, pois lembrou aos anciãos de Efeso: "... durante três anos, não cessei, noite e dia, de admoestar, com lágrimas, a cada um de vós” (At. 20.31). Paulo foi um dos mais consagrados e abnegados pregadores de todos os tempos. Uma vez, ele disse: “eu tenho trabalhado mais do que eles” (2 Co 11.23, Phillips). Sua vida e sua obra são um desafio a todo ministro da atualidade que foi chamado por Deus."[1]

       Essa pregação no edifício de Tirano continuou pelo espaço de dois anos. Como aconteceu em Corinto, o ministério de Paulo era dividido em duas partes. Em Corinto, o apóstolo discutiu na sinagoga todo sábado (At. 18.4), durante um desconhecido período de tempo, e ensinou a Palavra de Deus na casa de Justo durante um ano e meio (At. 18.7-11). 

       Analisando a narrativa do livro de Atos dos apóstolos, alguns dos métodos usados podem parecer um pouco surpreendentes para nós. Mas temos que term em mente, que Atos é um livro descritivo, não normativo. E nem tudo que ocorreu naquele momento ímpar da história, ocorrerá necessariamente nos dias de hoje. O texto diz que do corpo de Paulo, eram levados lenços — lenços usados na cabeça e aventais (lit., aventais dos trabalhadores).[2] Estas peças de tecido, que Paulo usava no trabalho, não produziam, de fato, nenhuma cura. Mas Deus pode se ajustar à demanda humana por alguma coisa tangível, pois até o Senhor Jesus usou terra e saliva (Jo. 9.6) como amparos materiais para uma fé frágil demonstrada pelas pessoas (cf. At. 5.15; Lc. 8.44). Deus pode trabalhar com ou sem materiais intermediários. Neste caso, as pessoas não só eram curadas das doenças, como os demônios eram expulsos. Devemos entender essas atitudes, dentro de um contexto judaico, onde sacrifícios, atos proféticos e outras coisas palpáveis eram comuns como forma muito mais didática do que dogmática em si. 

      Porém, em momento nenhum, a igreja primitiva usou desses recursos para ganhar dinheiro ou fazer campanhas onde esse material fosse utilizado como elemento místico, como vemos no atual cenário das igrejas neopentecostais. E tem mais: os reformadores lutaram ferozmente contra esse tipo de misticismo durante a Idade Média, abrindo os olhos dos fiéis contra qualquer tipo de doutrina que os levasse à idolatria, veneração de relíquias, ou elementos dotados de "poderes", como água benta e ossos de santos. Por mais que a situação estivesse crítica naquele período, os proponentes da atual venda de indulgências estão conseguindo superar a própria igreja de Roma em seus devaneios heréticos. (Veja aqui, aqui e aqui.)
       
       Interessante é que os modernos "apóstolos" se acham no direito de repetir aquilo que os verdadeiros apóstolos de Cristo faziam, porém, não os imitam nas questões concernentes à viver uma vida de abnegação e renúncia, se afastando da cobiça e da inveja, mas pelo contrário, se degladiam  por horários de TVs superfaturados e só envergonham o Verdadeiro Evangelho do Nosso Senhor Jesus Cristo. Vender lencinho "ungido" é fácil. Difícil mesmo é colocar a própria vida em risco por causa do Evangelho, como Paulo e os demais fizeram. Defender a Verdade das heresias que impregnam as denominações. Se levantar no meio de uma geração corrupta e perversa para desmascarar a hipocrisia, a mentira e o engano. Isso sim é que é difícil. E, já que gostam de imitar o feitos do verdadeiros apóstolos, porque também não são arrebatados de uma nação para outra para a divulgação mais rápida do evangelho, como ocorreu com Felipe (At. 8.39), que nem apóstolos era, ao invés de comprar jatinhos de luxo?

       Mesmo diante desses exemplos, temos que entender que jamais Paulo ou qualquer apóstolo vendeu esses lenços ou, muito menos, construiu impérios e fortunas através desse ato. Muito pelo contrário, morreram sem honras humanas ou riquezas, mas ajuntaram tesouros no céu, "onde a traça e a ferrugem não destroem, e onde os ladrões não arrombam nem furtam". (Mateus 6:20)

     Os defensores dos vendedores e cambistas do templo, tentando defender o indefensável, vão dizer que esses lenços não são vendidos, mas são doados para aqueles que depositam sua "oferta" no "altar de Deus". Bom, chamem do que quiser, mas se um valor é estipulado sobre determinada mercadoria, e o freguês paga aquele valor determinado, ele está de fato comprando o referido produto. E não adianta mentir: eles vendem sim, e de maneira descarado e absurda, tentando enganar os mais incautos de que receberão o lenço em troca de uma oferta. 


        Para finalizar, deixo aqui algumas questões relevantes levantadas pelo Pastor Renato Vargens em seu Blog:

1-) O livro de Atos é um livro histórico, e não doutrinário, além disso não encontramos nas epístolas bem como em todo Novo Testamento orientações por parte de Jesus e dos apóstolos sobre a necessidade de ungir lenços, aventais e semelhantes.

2-) O ocorrido em Atos 19:11-12, foi a narrativa  de que algumas pessoas tiveram contato com as peças de roupa de Paulo sendo curadas de suas enfermidades. Ao ler o texto sou tomado pela convicção que Paulo não tomou a iniciativa de ungir lenços e aventais. Na verdade, o texto nos trás a ideia que isso aconteceu de forma espontânea e não dogmática.

3-) Embora Deus tenha curado inúmeras pessoas através dos lenços e aventais de Paulo, conforme é mencionado no capítulo 19 de Atos, em todo o Novo Testamento não encontramos nenhuma permissão ou ordem nas Escrituras ensinando ou orientando a prática de distribuição de objetos ungidos. Ademais, vale a pena ressaltar que do ponto de vista hermenêutico não devemos elaborar ou instituir doutrinas em textos isolados, o que é o caso de Atos 19.

4-) Em nenhum lugar no Novo Testamento, encontramos Jesus ou os apóstolos orientando a igreja a ungir objetos.

5-) Em Atos 19, vemos que os lenços foram levados aos enfermos e não vendidos ou comercializados, isto é, não existiu o comércio dos lenços ou dos aventais ungidos, como acontece nos dias de hoje, mesmo porque, a  prática da simonia era fortemente rechaçada pelos apóstolos e igreja.

6-) Não encontramos nos reformadores nem tampouco na Reforma protestante o incentivo aos crentes possuírem objetos mágicos. Na verdade, vemos os reformadores condenando o uso de utensílios como instrumentos de bênçãos e milagres.

     Diante do exposto, creio que é indefensável, com base bíblica, a venda de lenços ungidos ou similares e, que somente através de uma distorção do texto é possível defender essa prática em nosso meio. 

Soli Deo Gloria.

Prof. Saulo Nogueira

Referências:
[1] Comentário Bíblico Beacon, João à Atos, Vol. 7. 1ª edição - Rio de Janeiro: CPAD, 2006. pg. 353
[2] Ibid. pg. 354
Dicionário Bíblico Wyclif.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Se Jesus é Deus, por que Ele diz que o Pai é maior que Ele?


     Conforme prometido nesse artigo, onde eu disse que em postagens posteriores eu faria uma refutação aos argumentos dos muçulmanos, que negam a divindade de Cristo. Não somente adeptos do Islã, mas também Testemunhas de Jeová, Espiritas ou os modernos adeptos do Arianismo, se utilizam de alguns versículos bíblicos para tentarem argumentar que Jesus não se considerava igual com o Pai. Um desses versículos, que analisaremos agora, se encontra em João 14.28, onde Jesus diz o seguinte:
 "Se vocês me amassem, ficariam contentes porque vou para o Pai, pois o Pai é maior do que eu". 
      A Trindade é definida no Breve Catecismo de Westminster (n.° 6) como segue: "Há três pessoas na Trindade: o Pai, o Filho e o Espírito Santo; esses três são o único Deus, e cada um o mesmo em substância, igual em poder e glória". Como, pois, então pode o Filho afirmar que o Pai é maior (meizon) do que ele?

     A resposta à essa afirmação se encontra no próprio contexto. Jesus está falando aqui, não de sua natureza divina, mas da humana, como Filho do homem. Cristo veio para sofrer e morrer, não como Deus, que não pode padecer, mas como o segundo Adão, nascido de Maria. Só como ser humano poderia Jesus servir como o Messias, ou Cristo (o Ungido). A menos que tivesse uma natureza humana verdadeira, genuína, jamais poderia ter representado os descendentes de Adão e levar sobre si os nossos pecados na cruz. Por isso, como Filho do homem, é certo que ele era inferior a Deus, o Pai. Isaías 52.13-53 esclarece a questão: Jesus só poderia ser nosso Salvador ao tornar-se o Servo de Iavé que, por definição, jamais pode ser tão grande como seu senhor. Mas o que envolve sua transformação num servo? Um estado de sujeição a qual a pessoa é levada a prestar obediência. Daí decorre que Jesus só entraria na presença do Pai, que é maior em dignidade e posição do que o Filho do homem, como o Redentor que venceu a morte. Filipenses 2.5-11 nos esclarece esse espírito voluntário de Cristo:

"Tende em vós aquele sentimento que houve também em Cristo Jesus, o qual, subsistindo em forma de Deus, não considerou o ser igual a Deus coisa a que se devia aferrar, mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, tornando-se semelhante aos homens; e, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz."
    Todavia, como Deus, o Filho, à parte a encarnação, as Escrituras nunca sugerem a existência de algum contraste em glória, entre o Pai e o Filho. As seguintes passagens deixam esse ponto claríssimo:
"No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus." (João 1.1);
 "Respondeu-lhe Jesus: Há tanto tempo que estou convosco, e ainda não me conheces, Felipe? Quem me viu a mim, viu o Pai; como dizes tu: Mostra-nos o Pai? (Jo. 14.9) 
"Pois a qual dos anjos Deus alguma vez disse: "Tu és meu Filho; eu hoje te gerei"? E outra vez: "Eu serei seu Pai, e ele será meu Filho"? E ainda, quando Deus introduz o Primogênito no mundo, diz: "Todos os anjos de Deus o adorem". Quanto aos anjos, ele diz: "Ele faz dos seus anjos ventos, e dos seus servos, clarões reluzentes". Mas a respeito do Filho, diz: "O teu trono, ó Deus, subsiste para todo o sempre; cetro de equidade é o cetro do teu Reino. (Hebreus 1:5-8) 
"(...) de quem são os patriarcas; e de quem descende o Cristo segundo a carne, o qual é sobre todas as coisas, Deus bendito eternamente. Amém. (Rm. 9.5)
"Esforço-me para que eles sejam fortalecidos em seus corações, estejam unidos em amor e alcancem toda a riqueza do pleno entendimento, a fim de conhecerem plenamente o mistério de Deus, a saber, Cristo." (Colossenses 2.2);
"(...) enquanto aguardamos a bendita esperança: a gloriosa manifestação de nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo. (Tito 2.13); 
"Sabemos também que o Filho de Deus veio e nos deu entendimento, para que conheçamos aquele que é o Verdadeiro. E nós estamos naquele que é o Verdadeiro, em seu Filho Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna." (1 João 5.20)
(cf. também Isaías 9.6 (afirma que Emanuel, nascido da virgem também é Deus forte — ’el gibbôr).[2] (ver também: Jo 8.58; 10.30; 17.5) 
       Não nos resta dúvida que essa aparente inferioridade de Jesus em relação ao Pai fica claramente explicada quando entendemos a necessidade de Sua encarnação como homem para morrer pelos nossos pecados.

Paz do  Senhor à todos 

Prof. Saulo Nogueira

Referência Bibliográficas:

ARCHER, Gleason L. Enciclopédia de Temas Bíblicos. 2ª edição - São Paulo : Editora Vida, 2001

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Se eu me converter, toda a minha família será salva?

Imagem: Revista Critério
       Muitas pessoas têm dúvidas sobre uma passagem bíblica que se encontra no Livro de Atos: "Responderam eles: Crê no Senhor Jesus e serás salvo, tu e tua casa." (Atos 16:31) e se indagam se existe a possibilidade de um membro da família ser "salvo por tabela" pelos méritos de outro membro da família, salvo em cristo Jesus. Uma análise superficial do versículo poderia sim dar essa impressão, mas não podemos nos esquecer que a Bíblia como um Livro inerrante não se contradiz e dever ser entendida num plano geral e não em versículos isolados. Vamos analisar o texto á luz de outras passagens Bíblicas e de seu próprio contexto:

1 - A Palavra de Deus é muito clara quando diz que a Salvação é individual. (cf. Rm. 14.12; Ap. 22.12; 2Co. 5.10;)

2 - O texto pose ser visto como uma promessa e não como uma garantia. Os demais membros da família só serão salvos mediante a sua experiência particular de uma fé salvadora em Cristo Jesus.

3 - A condição para a Salvação da família, incluía que todos ouvissem e cressem no Senhor Jesus, sem exceção. Se algum membro deixasse de ouvir o Evangelho ou não cresse, de forma alguma seria salvo; 

4 - Quando continuamos a ler o texto, percebemos que toda a família do carcereiro deu uma resposta favorável à pregação do Evangelho: "Então lhe pregaram a palavra de Deus, e a todos os que estavam em sua casaTomando-os ele consigo naquela mesma hora da noite, lavou-lhes as feridas; e logo foi batizado, ele e todos os seusEntão os fez subir para sua casa, pôs-lhes a mesa e alegrou-se muito com toda a sua casa, por ter crido em Deus. (Atos 16:32-34), pela exegese do texto, temos a certeza que todos ouviram e aceitaram a mensagem de Salvação e, consequentemente "sua casa" foi toda salva.

5- Em Atos 11.13-14 ocorre praticamente a mesma situação:  "E ele nos contou como vira o anjo em pé em sua casa e que lhe dissera: Envia a Jope e manda chamar Simão, por sobrenome Pedro, o qual te dirá palavras mediante as quais serás salvo tu e toda a sua casa". O princípio exegético aqui é o mesmo: aceitação do Evangelho por toda a família como pré requisito para a Salvação de todos.

        Conclusão: Devemos entender então, que os membros da família do carcereiro foram salvos mediante a fé verdadeira que professaram após ouvirem crerem na Mensagem dos apóstolos. O carcereiro serviu como um "missionário" para os seus, pois pela sua fé, proporcionou que toda a sua família ouvisse o Evangelho e fossem salvas.

        Se você tem algum membro da sua família, esposo, esposa ou filhos que ainda não entregaram a sua vida á Jesus, não se sinta frustrado pelo fato de que a Salvação dependa da resposta individual de cada um ao chamado de Deus. Jamais desista. Use desse fato para ser um referencial de fé para eles, através de suas atitudes, devoção, conversão verdadeira, pois sendo assim, através do seu testemunho e da obra que o Senhor tem feito em sua vida, eles possam abrir seu coração para que o Espírito Santo ente a faça morada. Como pais, devemos ensinar nossos filhos no caminho da Salvação e instruí-los a viver uma fé viva e verdadeira no Senhor Jesus.

Paz do Senhor Jesus á todos.

Prof. Saulo Nogueira

terça-feira, 10 de março de 2015

Para que serve a exegese Bíblica?

       A interpretação incorreta de passagens bíblicas pode trazer sérios prejuízos para aqueles que prezam pela sã doutrina e, em alguns casos, pode até comprometer o verdadeiro sentido e a intenção do autor criando uma dificuldade interpretativa ou até mesmo uma heresia. Daí a grande importância da exegese bíblica. Mas o que significam exegese ?

   "Todas as heresias e aberrações doutrinárias são provenientes de interpretações errôneas da Bíblia e significados diferentes às palavras básicas da fé cristã. O sentido correto de um texto só é possível mediante a aplicação correta da exegese e da hermenêutica. O exegeta sincero procede conforme certos princípios básicos para uma análise honesta do texto. Para a interpretação é necessário considerar o sentido contextual, analógico e histórico. O vocábulo "exegese" vem do grego exegesis, duas palavras ek e egeomai, que juntas significam: "extraio, tiro, saco", de sacar, conduzir para fora. A "exegese" é a ciência da interpretação, é a extração do autêntico sentido da palavra. É a análise do que a palavra diz, e não do que eu quero que ela diga. As doutrinas bíblicas são de dentro para fora. Isso se chama exegese. As dos homens, são de fora para dentro, a eisegese. Esse último os cristãos ortodoxos rejeitam, mesmo que apareçam travestidas de roupagens bíblicas."[1]

       "Podemos afirmar também que "a exegese é o estudo cuidadoso e sistemático da Escritura para descobrir o significado original que foi pretendido. (...) É a tentativa de escutar a Palavra conforme os destinatários originais devem tê-la ouvido; descobrir qual era a intenção original das Palavras da Bíblia" [2]

        Quando lemos um capítulo ou versículos da Bíblia, por mais que saibamos que aquela passagem se destina também á nós hoje (pois a Palavra de Deus é viva), temos que entender que ela tinha um objetivo, um destinatário, um propósito um pouco diferente da nossa realidade. Tirar um texto do seu contexto pode acarretar em um sério problema interpretativo. Por exemplo: algumas pessoas pegam sua Bíblia e pedem á Deus que falem com elas. Abrem aleatoriamente em qualquer versículo, completamente descontextualizado e acreditam que a sua interpretação pessoal ou sua "eisegese" seria a resposta de Deus para os seus problemas. Conta-se que certo cristão pegou sua Bíblia e foi ver o que Deus tinha para ele. Abriu aleatoriamente e caiu em Mt. 27.5:  "E ele, atirando para o templo as moedas de prata, retirou-se e foi-se enforcar."
Pensou: bom, vamos ver o que Deus quer falar. E abriu novamente sua Bíblia. O texto que saiu foi Lc. 10.37: "E ele disse: O que usou de misericórdia para com ele. Disse, pois, Jesus: Vai, e faze da mesma maneira."

       Será que Jesus queria que o irmão fosse se enforcar como Judas? Ou corremos sérios riscos quando descontextualizamos os versículos Bíblicos? Não podemos colocar as nossas emoções, sentimentos e vontades acima da exegese."O que fala a mim" ou "o que me toca" são preocupações egocêntricas de quem quer ver na Palavra de Deus uma caixinha de promessas, pronta para tirarmos bênção e prosperidade, sem entender que existe um "se" por trás dessas dádivas de Deus. A "caixinha de promessas" só mostra o que você vai receber, mas não traz as condições para isso.

A Bíblia e as seitas

       De todos os livros do mundo, creio que a Bíblia seja o mais maltratado, pois muitas pessoas usam de passagens isoladas para construir doutrinas e seitas. As inúmeras seitas cristãs ou igrejas pseudocristãs se utilizam de interpretações equivocadas para embasar as mais variadas heresias e distorções. Por exemplo: algumas igrejas neopentecostais se utilizam do Antigo Testamento para criar as mais absurdas campanhas em seus templos, ignorando completamente a sociedade, cultura, dispensação, cronologia e propósitos divinos para a ocasião. Se utilizam de "atos proféticos" e de elementos sincréticos, como Arca da Aliança, Candelabro, Talit, kipá desassociando esses elementos de seus reais propósitos e fazendo um tremendo malabarismo e uma péssima exegese para tentar se utilizar desses recursos na atual dispensação. 

       Seitas como os testemunhas de Jeová e os mórmons, além de usarem de uma falsa interpretação, mutilam o texto bíblico ou complementam com outras literaturas "divinamente" reveladas. Os espíritas vão além, criando a sua própria interpretação dos textos sagrados, negligenciando completamente a boa hermenêutica. E, ainda grupos ortodoxos, que por falhas na observância das regras de exegese, criam doutrinas que escravizam seus membros, proibindo coisas que a Bíblia não proíbe ou colocando fardos pesados sobre seus membros, baseados em opiniões pessoais, doutrinas humanas, falsa piedade ou interpretações particulares.

E o Espírito Santo? Como que Ele ilumina os cristãos para compreenderem a Palavra?


       "Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente. Mas o que é espiritual discerne bem tudo, e ele de ninguém é discernido. Porque, quem conheceu a mente do Senhor, para que possa instruí-lo? Mas nós temos a mente de Cristo.(1 Coríntios 2:14-16)


       Um professor Universitário de Teologia pode compreender perfeitamente toda a Doutrina Bíblica mas ser um ateu. Ele pode saber usar todas as regras de Hermenêutica  e exegese, conhecer as línguas originais, saber interpretar corretamente as parábolas, símiles, alegorias e mesmo assim ser um descrente inveterado. Ele pode fazer aquilo que a nossa razão e inteligência permite, mas se ele não tiver uma disposição intelectual para aceitar aquilo que ele conhece, ou seja, permitir que o Espírito Santo, o ilumine para aplicar em sua vida o conhecimento divino, ele não passará de um mero entendedor de regras.  

       "Não há dúvidas que a Bíblia exige um conjunto diferente de regras. É preciso que o intérprete seja iluminado espiritualmente para que possa compreender a Escritura.Todavia é preciso não exagerar na dose. Não há duas lógicas e duas hermenêuticas no mundo, uma natural e outra espiritual. O que Paulo tem em mente em 1Coríntios 2.14-16 é a aplicação e a significação pessoal do significado básico que se depreende de suas palavras. É lógico que o indivíduo precisa também revestir-se de um estado mental e de uma disposição intelectual própria para começar a compreender assuntos para os quais não se acha naturalmente inclinado - seja no campo da astrofísica, da matemática, da poesia ou da Bíblia. Consequentemente, não se pode tomar a palavra de Paulo e afirmar com base nela que sem o Espírito ninguém pode compreender a Bíblia, a menos que se deixe guiar por Ele. Tal afirmativa contradiz frontalmente tanto a experiência quanto os ensinamentos da Escritura, segundo o qual os homens serão julgados também por rejeitarem aquilo que a Bíblia declara ser extremamente claro a todos, porque recusam-se a aceitá-lo.(...) Cremos que é obra especial do Espírito Santo convencer as pessoas a entenderem essa relação, acreditarem nela e a viverem de acordo com ela. Isso, porém, não contradiz o fato de que Deus quis que Sua revelação fosse compreendida".[3]

        "Em contraste com o homem espiritual está o homem natural. A palavra para natural (psychikos) sempre denota “a vida do mundo natural e aquilo que pertence a ele, em contraste com o mundo sobrenatural, que é caracterizado pelo pneuma (espírito)”. Portanto, o homem natural é “aquele que possui... simplesmente o órgão da percepção puramente humana, mas que ainda não possui o órgão da percepção religiosa no... espírito”. O homem natural possui apenas os poderes comuns do homem separado de Deus; como tal, ele não compreende as coisas do Espírito de Deus... e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente. Visto que as habilidades naturais do homem “são totalmente corruptas por causa do pecado, consequentemente toda a atividade de sua alma e mente será obscurecida”[4]

     As regras de hermenêutica e exegese Bíblicas servem como um norteador para estudantes, professores, críticos e cristãos, crentes e descrentes e para um bom entendimento dos textos e doutrinas, mas ela é ineficiente para salvar o pecador, pois essa é a função do Espírito Santo de Deus, que "convence o homem do pecado, da justiça e do juízo" (Jo. 16.8) Mas isso não significa de devemos deixar de lado o estudo sistemático da Palavra de Deus, pois na hora de instruirmos as pessoas no caminho da Salvação, ou argumentarmos com pessoas escravizadas pelas seitas, o Espírito Santo usará o nosso conhecimento e nos lembrará das palavras previamente aprendidas, "para estarmos sempre preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós."(1Pe. 3.15)

       A hermenêutica, como toda ciência, tem seus critérios e métodos que se não forem bem observados trarão um resultado final diferente para cada observador. E infelizmente temos visto isso muito por aí.

Professor Saulo Nogueira
Paz á todos que estão em Cristo Jesus.


Referências Bibliográficas:

[1]Soares, Ezequias. Manual de Apologética cristã. Defendendo os fundamentos da verdadeira fé bíblica - São Paulo; 2º edição: CPAD, 2003

[2]D. Free, Gordon, Stuart, Douglas. Entendes o que lês? São Paulo; 2º edição: Editora Vida Nova, 1997

[3]Geisler, Norman L. A inerrância da Bíblia - São Paulo: Editora Vida, 2003

[4]Comentário Bíblico Beacon - Rio de Janeiro; 1° edição: CPAD, 2006

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

O que significa batismo com fogo em Lucas 3.16?

"João respondeu a todos: "Eu os batizo com água. Mas virá alguém mais poderoso do que eu, tanto que não sou digno nem de curvar-me e desamarrar as correias das suas sandálias. Ele os batizará com o Espírito Santo e com fogo." (Lucas 3:16) NVI. (grifo meu)
          
      Esse versículo, encontrado nos Evangelhos de Mateus 3.11, Marcos 1.8 e Lucas 3.16, causam uma grande polêmica no meio Evangélico. Alguns defendem que esse batismo é um simbolismo do fogo purificador, que queima o pecado e as impurezas que contaminam o cristão. Outros concluem que esse batismo se refira ao juízo de Deus sobre os ímpios e, consequentemente, não faz referência aos cristãos. Sem querer criar polêmica, mas simplesmente querendo colaborar com o bom diálogo e interpretação, darei minha contribuição nessa questão, baseado na opinião de grandes especialistas, tanto da ala Pentecostal quando da ala Reformada.

       Todo bom estudioso e intérprete Bíblico deve conhecer algumas regras simples e básicas de hermenêutica. E uma dessas regras é que o próprio contexto define o sentido do versículo em questão. Já no começo do capítulo, João Batista se refere a um juízo vindouro de Deus sobre aqueles que praticam todo tipo de impiedade: "João dizia às multidões que saíam para serem batizadas por ele: "Raça de víboras! Quem lhes deu a ideia de fugir da ira que se aproxima?" (Lucas 3:7). A ideia  transmitida por João aqui é de serpentes fugindo de um incêndio numa floresta.

       E acrescenta: "O machado já está posto à raiz das árvores, e toda árvore que não der bom fruto será cortada e lançada ao fogo" (Lucas 3:9). Indicando que a punição era iminente.

      Fica claro, já no início do capítulo, que a mensagem de João era direcionada a dois grupos de pessoas: Aquelas que realmente estavam arrependidas e queriam o perdão de Deus e aquelas que se auto-justificavam por crerem que a obediência á Lei e por serem filhos de Abraão era garantia de Salvação: "Dêem frutos que mostrem o arrependimento. E não comecem a dizer a si mesmos: ‘Abraão é nosso pai’. Pois eu lhes digo que destas pedras Deus pode fazer surgir filhos a Abraão." (Lucas 3:8).

      Que existe a necessidade absoluta do crente ser batizado com o Espírito Santo é uma verdade inegável nas escrituras sagradas. Mas pensar que o batismo com o Espírito Santo é o mesmo batismo de fogo é não compreender o significado real do versículo.

       Mas isso não é uma questão de opinião, vejamos o que dizem os especialistas em hermenêutica:

     A Bíblia de Estudo Plenitude, de orientação pentecostal, no texto de Lc 3.16 remete para um comentário de Mt 3.11 como segue:

“O batismo de João é um tipo de experiência de salvação de ser batizado no Espírito. Como o batismo de João colocava o indivíduo dentro da água, o batismo de Jesus coloca o cristão no Espírito, identificando-o como totalmente ligado ao Senhor. O fogo purifica ou destrói. Portanto, a salvação em Jesus Cristo será purificadora para os verdadeiros judeus que o aceitarem como o Messias, e destruidora para aqueles que o rejeitarem.”

       A Bíblia de Estudo Genebra comenta assim a questão do fogo em Lc 3.16: “O batismo com fogo aponta para o juízo (v.9 nota). A pá para limpar sua eira’ é outro símbolo para o juízo (v. 17)...”. 

      A Bíblia de Estudo NVI assim comenta o mesmo texto: “... e com fogo. Aqui, o fogo está associado ao juízo (v.17)...”.

     A Bíblia de Estudo Shedd analisa o texto assim: “... Fogo. O contexto (17) parece exigir o sentido de prova, de  julgamento (Lc 12.39-53; 1 Co 3.13).”  Ainda a mesma Bíblia comenta Mt 3.11 assim: “Com o Espírito Santo e com fogo. Refere-se ao ministério espiritual de Cristo. Sua obra começou acompanhada pela energia sobrenatural do Espírito Santo, colhendo-se algum ‘trigo’ (os fiéis), e revelando-se quem seria ‘palha’ para julgamento. A doutrina do batismo no Espírito Santo não recebe luzes neste trecho, pois o assunto pertence à época posterior à ressurreição de Jesus (1 Co 12.13)".   

    R. N. Champlin, em sua obra “O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo”, relaciona o texto de Lc 3.16 com o comentário de Mt 3.11, como segue: “...Há várias interpretações dessas palavras: 1. Alguns acham que aqui temos dois batismos, um do Espírito e outro de fogo, e que esse último fala de juízo, provavelmente até de inferno. Assim interpretaram Orígenes e outros pais da igreja...alguns bons intérpretes reputam esse batismo de fogo como algo que se refere ao juízo."

       John F. MacArthur na sua Bíblia de Estudo traz a seguinte nota de rodapé: "com fogo". Pelo fato de, nesse contexto, o fogo ser usado como meio de punição (v. 9), isso é provavelmente uma referência a um batismo de castigo sobre os ímpios.

       Charlie C. Ryrie, grande comentarista bíblico, autor da Bíblia de estudo anotada, na versão expandida, traz a seguinte informação:"fogo". Provavelmente uma referência aos julgamentos associados á segunda vinda de Cristo. O batismo com o Espírito Santo ocorreu no dia de Pentecostes, ao passo de que o batismo com fogo se refere aos juízo que acompanharão a segunda vinda de Cristo.


     Lendo a ilustração que o Apóstolo Pedro faz sobre a Vinda de Cristo, conseguimos visualizar o quadro profetizado por João Batista: " Ora, os céus que agora existem e a terra, pela mesma Palavra, têm sido entesourados para fogo, estando reservados para o Dia do Juízo e destruição dos homens ímpios" (2Pe. 3.7). E também o escritor de Hebreus: "Pois o nosso Deus é um fogo consumidor"


      Podemos apresentar ainda outros versículos bíblicos que corroboram com nossa conclusão: no início do Livro de Atos dos Apóstolos, também escrito pelo médico Lucas, vemos Jesus ratificando sua promessa aos seus discípulos fazendo a seguinte declaração:
"Certa ocasião, enquanto comia com eles, deu-lhes esta ordem: "Não saiam de Jerusalém, mas esperem pela promessa de meu Pai, da qual lhes falei. Pois João batizou com água, mas dentro de poucos dias vocês serão batizados com o Espírito Santo". (Atos 1:4,5) 
      Note que pelo fato de Jesus estar se referindo apenas aos seus discípulos ele não faz nenhuma referência à nenhum tipo de batismo de fogo, confirmando a ideia de que este seria somente para os ímpios no fim dos tempos.

       Também no Livro de Atos, quando Pedro se defende diante dos Judaizantes pelo fato de ter levado o Evangelho aos gentios, ele relembra a promessa do Batismo feita por Jesus:
"Quando comecei a falar, o Espírito Santo desceu sobre eles como sobre nós no princípio. Então me lembrei do que o Senhor tinha dito: ‘João batizou com água, mas vocês serão batizados com o Espírito Santo’. (Atos 11:15,16)

     Além disso, podemos traçar um paralelo entre os versículos, para que a conclusão fique ainda mais clara e óbvia:

"... ele vos batizará com os Espírito Santo." ______"... para limpar completamente a sua                                                                                 eira e recolher o trigo no seu celeiro"


"...e com fogo"________________________________  "...porém queimará a palha em                                                                                              fogo inextinguível"



Mas, então por que a referência ao fogo em Atos 2? Não seria o cumprimento da Palavra de João Batista: "com o Espírito Santo e com fogo"?


Vamos ao texto:
"Ao cumprir-se o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar. De repente veio do céu um ruído, como que de um vento impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam sentados. E lhes apareceram umas línguas como que de fogo, que se distribuíam, e sobre cada um deles pousou uma. E todos ficaram cheios do Espírito Santo, e começaram a falar noutras línguas, conforme o Espírito lhes concedia que falassem. (Atos 2:1-4)
       Lucas não disse que as línguas eram de fogo ou que desceu fogo literal do céu, mas que pareciam "línguas como que de fogo". O autor de Atos se utiliza aqui de uma linguagem comparativa, ou seja, uma analogia, para repassar de uma maneira compreensível aquilo que estava além da compreensão humana. Os discípulos não podiam compreender o significado da Vinda do Espírito sem que o Senhor ilustrasse soberanamente com um fenômeno visível o que estava acontecendo. O uso que Deus faz com aparência de fogo aqui é paralelo ao que faz com a pomba quando Jesus foi batizado. (Lc. 3.21-22). Nenhum cristão em sã consciência diz que o Espírito Santo é uma pomba. Além disso, se Atos 2 cumprisse totalmente Lc. 3.16, o próprio autor, que escreveu tanto um quanto o outro faria menção ao cumprimento proposto por João Batista.

Conclusão


       Por mais que haja discordância de alguns em relação ao texto, o sentido mais fluente e natural da narrativa é que o batismo de fogo de Jesus, se refere claramente a uma condenação na Sua segunda Vinda, que não será administrada sobre os cristão, mas sobre os ímpios.

Prof. Saulo Nogueira.

Bibliografia:

Bíblia de Estudo Plenitude;
Bíblia de Estudo de Genebra;
Bíblia de Estudo NVI;
Bíblia de Estudo Shed;
Bíblia de Estudo MacArthur;
Bíblia de Estudo Anotada Expandida;
Champlin; R.N. O Novo Testamento interpretado.