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quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Nossa Resposta à Reforma

Várias igrejas e organizações têm ideias diferentes
 sobre como os cristãos devem se portar no ano da Reforma.
Qual deve ser a reação aos 500 anos de Reforma?
      Nesse ano recordamos o grande reavivamento espiritual que Deus concedeu em vários países da Europa, há 500 anos. Por que o fazemos? A antiga história do povo de Israel responde a essa pergunta, em Juízes 2.6-11. Quando o povo de Deus esquece as grandes obras de salvação, esquece também de Deus e recai no paganismo e na idolatria. Isso ocorreu no cristianismo protestante, que não sabe mais nada ou não quer saber das grandes obras de Deus à época da Reforma.

 “Combata o bom combate da fé... guarde o que foi confiado a você” (1Tm 6.12,20). “Portanto, não se envergonhe de testemunhar do Senhor, nem de mim, que sou prisioneiro dele, mas suporte comigo os sofrimentos pelo evangelho, segundo o poder de Deus” (2Tm 1.8). “Eu os estou enviando como ovelhas no meio de lobos. Portanto, sejam astutos como as serpentes e sem malícia como as pombas. Tenham cuidado, pois os homens os entregarão aos tribunais e os açoitarão nas sinagogas deles. Por minha causa vocês serão levados à presença de governadores e reis como testemunhas a eles e aos gentios” (Mt 10.16-18).

         No dia 18 de abril de 1521, um monge agostiniano de 38 anos de idade estava diante do rei do Sacro Império Romano da nação alemã, juntamente com os maiorais do reino e dignitários da igreja, e falou as seguintes palavras:
“Se eu não fui convencido pelos testemunhos das Escrituras e pelas claras bases sóbrias – pois não acredito nem no papa nem mesmo unicamente nos concílios, uma vez que estamos no dia em que eles erraram várias vezes e se contradisseram –, assim fui convencido em minha consciência pelas passagens das Escrituras Sagradas que mencionei e cativado na Palavra de Deus. Por isso não posso e não quero revogar nada, pois, fazer algo contra a consciência não é seguro nem saudável”.
      Enquanto o monge Martinho Lutero comparecia diante do parlamento, os olhos de toda a Alemanha estavam voltados para ele. Todos queriam saber como o monge se derrotaria. Quando ele pronunciou as palavras anteriormente citadas, houve a deflagração daquele movimento espiritual que denominamos “Reforma”, do reavivamento espiritual como o cristianismo jamais havia visto desde a primeira geração de cristãos. Esse “minuto de agitação mundial”, ao olharmos retrospectivamente, foi a hora decisiva da Reforma para o reavivamento bíblico que abalou todos os países da Europa e alterou alguns em suas bases. O que levou o monge Martinho Lutero, doutor em teologia, professor da Universidade de Wittenberg, a defender seu posicionamento diante das Escrituras diante do rei do Império?
Em 1517 Lutero fixou suas famosas 95 teses na
porta da catedral de Wittenberg.

    Em 1517, Lutero havia fixado suas famosas 95 teses na porta da catedral de Wittenberg. Ele também enviou essas teses ao cardeal Albrecht, de Mainz, assessor de Tetzel, incluindo o sermão sobre graça e indulgência. Nesse ele afirmou resumindo: “Sobre esses pontos eu não tenho dúvida alguma e são suficientemente fundamentados na Escritura”. O cardeal Albrecht encaminhou os documentos para Roma. Um ano após a publicação das teses, Lutero foi convocado para um interrogatório em Augsburgo (outubro de 1518). O cardeal Caetano, que havia sido encarregado pelo papa, exigiu: “Revoca! Revoca! – Revogue!”. Mas Lutero não conseguiu pronunciar as seis letras REVOCO. Ele permaneceu firme nas provas das Escrituras.

       Nove meses depois, aconteceu a discussão com o dr. Eck, em Leipzig (junho-julho de 1519). Nessa ocasião, Lutero respondeu à respectiva questão de que ele não reconhecia a autoridade do papa nem dos concílios. Essa foi a consequência obrigatória em razão do que ele havia escrito no seu sermão sobre graça e indulgência. Lutero já então havia assinalado o desvio e não podia nem desejava retroceder: somente a Escritura é a fonte da verdade e o direcionamento para a fé e para a vida. Em 1520 surgiram os textos de Lutero: “Sobre o Papado em Roma”, “À Aristocracia Cristã da Nação Alemã”, “Sobre o Cativeiro Babilônico da Igreja”, “Sobre a Liberdade de Uma Pessoa Cristã”, sendo que todos eles, com base somente na autoridade da Escritura, rejeitam a autoridade do papa e ensinam sobre a justificação pela fé. Em junho de 1520 Lutero recebeu a bula de exortação e condenação “Exsurge Domine”: “Levanta-te, ó Senhor, e julgue a tua causa, as raposas procuram destruir a tua vinha e um javali especialmente selvagem é quem a cuida”.

        No dia 10 de dezembro de 1520 Lutero queimou a bula diante do Portão de Elster, em Wittenberg. Em janeiro de 1521 ele recebeu a segunda bula condenatória “Decet Romanum Pontificem”. Diante de tudo isso, Lutero foi intimado pelo parlamento. Na noite de 18 de abril de 1521 ele compareceu diante do parlamento em Worms. Os livros, que haviam sido escritos por Lutero e que haviam sido lidos por toda a Alemanha, estavam expostos em uma mesa e Lutero foi obrigado a responder se ele reconhecia ser o autor desses livros e se ele estaria disposto a revogá-los. Sua resposta foi:
“Se eu não fui convencido pelos testemunhos das Escrituras e pelas claras bases sóbrias – pois não acredito nem no papa nem mesmo unicamente nos concílios, uma vez que estamos no dia em que eles erraram várias vezes e se contradisseram –, assim fui convencido em minha consciência pelas passagens das Escrituras Sagradas que mencionei e cativado na Palavra de Deus. Por isso não posso e não quero revogar nada, pois, fazer algo contra a consciência não é seguro nem saudável. Que Deus me ajude, amém!”.
       A afirmação-chave foi clara: Lutero considerava somente uma autoridade, isto é, a da Bíblia. Todos precisam se curvar diante dela, todos precisam se avaliar com base nela, mesmo o papa e os concílios. Já na 62ª tese das 95, Lutero havia afirmado: “O Evangelho é o verdadeiro tesouro da Igreja...”.

       Todavia, as teses foram escritas em latim e a intenção era que servissem de base para uma disputa científica entre colegas de ofício. Para o povo, Lutero escreveu o sermão sobre indulgência e graça no idioma alemão e ali consta a frase desrespeitada e problemática em referência às 18 teses formuladas no sermão: “Sobre esses pontos eu não tenho dúvida alguma e são suficientemente fundamentados na Escritura. Por isso vocês também não devem ter dúvidas. Deixem que os doutores escolásticos sejam escolásticos”.

       O que eliminou todas as dúvidas? Onde Lutero encontrou tal certeza? O que ele havia escrito estava “suficientemente fundamentado na Escritura”. Aquilo que lemos na Escritura é vinculante, e é “suficiente”, basta! Não há necessidade de saber mais do que isso. Assim, que os escolásticos, os mestres da igreja, ensinem o que quiserem. Essa frase continha teor explosivo que abalou o papado e o levou a ruir em vários países. Era uma frase com potencial ofensivo extremo: alguém estava afirmando que a Escritura seria a única norma a seguir. Isso foi um desafio aberto contra a obviedade do domínio absoluto da igreja do papa. Esta também reconhecia a autoridade da Bíblia. Além dela, no entanto, haveria mais duas fontes adicionais da verdade: as tradições e o ensino da igreja. E isso significava: a igreja decidia e determinava como a Bíblia deveria ser entendida. Essa tese, de que unicamente a Escritura determina e fundamenta a verdade, foi a que deu início ao processo de inquisição, o qual concluiu, primeiramente, que Lutero fosse banido pela igreja e, posteriormente, perdeu o reconhecimento diante do país.


       A igreja do papa reconhecia a autoridade da Bíblia. Além dela, no entanto, haveria mais duas fontes adicionais da verdade: as tradições e o ensino da igreja. E isso significava: a igreja decidia e determinava como a Bíblia deveria ser entendida. Esse foi o motivo do incômodo, e assim permaneceu até hoje: somente a Bíblia e a Bíblia para todas as questões. Essa verdade serviu de tropeço para os da era antiga, da nova, da moderna e da pós-moderna. Ela serve de tropeço para ateus e piedosos, para pensadores e para os que nunca pensam – para todos. Isso é algo insuportável para todos: uma verdade absoluta, ilimitada e imutável, disponível por escrito e formulada claramente, compreensível para todos. Somente a Bíblia e nada mais além dela.

       E para nós, o que significam essas verdades proclamadas por Lutero e também por Martin Bucer, Ulrico Zuínglio e Heinrich Bullinger, João Calvino e Guilherme Farel, John Knox, incluindo os anabatistas Balthasar Hubmaier, Michael Sattler, Menno Simons e outros pregadores do século XVI? Estamos vivendo numa época em que se procura igualar todas as diferenças entre as religiões e confissões. Vivemos em uma época em que se evita imediatamente assumir um posicionamento claro ao distinguir entre verdade e erro. Pertencemos a uma geração em que as igrejas protestantes fazem de tudo para ter boas relações com a igreja católica romana. Em 31 de outubro de 1999, teólogos protestantes e seus colegas católicos assinaram uma declaração, em Augsburgo, na qual ambas as confissões aparentemente creem e defendem a mesma doutrina sobre a justificação (...)

        (...) A pressão do espírito da época é imensa e a tendência ecumênica está cada vez mais forte. Quem se opõe a essa tendência é considerado inimigo do cristianismo, como inimigo da paz e, finalmente, como inimigo das pessoas. Pois hoje a ampla maioria acredita que todas as barreiras religiosas e das maneiras de ver o mundo deveriam ser rompidas e todas as diferenças separatistas deveriam ser igualadas. Considera-se que a Reforma provocou uma cisão na igreja e discussões dogmáticas que culminaram em guerras religiosas.

No entanto: o que diz a Escritura?
“Pois a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais afiada que qualquer espada de dois gumes; ela penetra até o ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e julga os pensamentos e as intenções do coração” (Hb 4.12). “Deus é luz; nele não há treva alguma” (1Jo 1.5). “Não se ponham em jugo desigual com descrentes. Pois o que têm em comum a justiça e a maldade? Ou que comunhão pode ter a luz com as trevas? Que harmonia entre Cristo e Belial? Que há de comum entre o crente e o descrente? Que acordo há entre o templo de Deus e os ídolos? Pois somos santuário do Deus vivo. Como disse Deus: ‘Habitarei com eles e entre eles andarei; serei o seu Deus, e eles serão o meu povo’ Portanto, ‘saiam do meio deles e separem-se’, diz o Senhor. ‘Não toquem em coisas impuras, e eu os receberei’” (2Co 6.14-17). 
     Essas são divisões firmes, claras diferenças, ordens inequívocas. O evangelho é a Palavra de Deus e, assim, a única e exclusiva fonte da verdade. Somente na Bíblia a pessoa encontra a compreensão a respeito da salvação. Cristo é o Salvador das pessoas, e ninguém mais. Somente por meio da graça a pessoa recebe perdão, justificação e, assim, a vida. Sobre essas verdades comprovadas na Bíblia não existe barganha. Precisamos nos afastar de pessoas que não ensinam ou defendem essas verdades. Qual é a nossa resposta à herança da Reforma? Podemos responder à Reforma ao nos colocarmos decididamente contra as opiniões e poderes da época, do mesmo modo como os reformadores o fizeram. Ao contestarmos decididamente as ideias dos líderes da filosofia, da religião e da política. Quando estamos decididos a defender a verdade que Deus nos revela no Evangelho, a ensiná-la e a proclamá-la da maneira como Deus nos ajuda a fazê-lo. Essa é a ordem que recebemos.

       A Escritura é soberana. Tudo precisa se submeter ao seu julgamento. Tudo o que a Escritura ensina é a verdade coerente. O cristão verdadeiro reconhece, a exemplo do que fez Lutero em Worms, que ele “foi convencido pelo testemunho da Escritura”. E a Escritura comprova: Cristo o chamou, justificou e santificou. Em Cristo ele é uma nova criatura (2Co 5.17), uma criação de Deus (Ef 2.10). Não é ele quem vive agora, mas é Cristo quem vive nele (Gl 2.20). Ele foi “convencido em sua consciência, cativado na Palavra de Deus”. Ele foi convencido pela verdade de Deus e, assim, convencido, vencido e dominado pelo próprio Deus. Ele não mais pertence a si mesmo (1Co 6.19).
“Quando aquele um, que é maior do que Satanás, ataca e vence a este, então passamos ao domínio desse mais forte. Então igualmente seremos dominados, prisioneiros do Espírito Santo... Então, desejaremos e faremos de boa vontade aquilo que Deus quiser.”
      A doutrina tem prioridade, isto é, a verdade bíblica sobre Deus, a pessoa e a salvação. Lutero compreendia que tudo dependia da doutrina. Em seu trabalho e anseios ele não se preocupava com a decadência dos costumes e da perdição do clero romano e do papa, mas com a doutrina corrompida do sistema romano. Com a clareza própria de Lutero, ele declarou:
“A vida está ruim tanto para nós como para os do papa. Por isso, não discutimos por causa da vida, mas por causa da doutrina”.
       A doutrina era o que importava. É o que aprendemos da Bíblia. Depois que as pessoas se converteram após ouvirem a pregação do evangelho, no dia do Pentecostes, elas permaneceram firmes na doutrina dos apóstolos (At 2.42), pois a tarefa dos cristãos era pregar e defender o evangelho. A igreja é a coluna e o fundamento da verdade (1Tm 3.15). Ela existe para sustentar a verdade da salvação em Cristo e mantê-la efetivamente na doutrina e na pregação. Paulo escreveu a Timóteo: “Ordene e ensine essas coisas. Ninguém o despreze pelo fato de você ser jovem, mas seja um exemplo para os fiéis na palavra, no procedimento, no amor, na fé e na pureza. Até a minha chegada, dedique-se à leitura pública da Escritura, à exortação e ao ensino... Atente bem para a sua própria vida e para a doutrina, perseverando nesses deveres, pois, agindo assim, você salvará tanto você mesmo quanto aos que o ouvem” (1Tm 4.11-16).

       Se a igreja não mantiver essas orientações, ela perdeu seu objetivo e perdeu a razão de ser. Ela se degenera tornando-se um “clube social” ou, como Martyn Lloyd Jones o definiu certa vez, uma associação de lazer. Ou se torna um fórum de discussões para troca de ideias sobre as múltiplas possibilidades da vida religiosa e de estilos de vida piedosa, o que seria uma das características de nossa civilização. Uma igreja dessas vendeu sua alma, tornou-se uma prostituta espiritual. São essas as alternativas. Nós, que pertencemos à noiva eleita de Cristo, permanecemos firmes no evangelho de Deus, nos separamos de todos que diluem, adaptam e reinterpretam o evangelho. O próprio Deus nos ordenou:
“Não se ponham em jugo desigual com descrentes. Pois o que têm em comum a justiça e a maldade? Ou que comunhão pode ter a luz com as trevas? Que harmonia entre Cristo e Belial? Que há de comum entre o crente e o descrente? Que acordo há entre o templo de Deus e os ídolos?” (2Co 6.14-16).
       Ou seguimos com crescente anseio em direção ao grande dia das bodas do Cordeiro, ou adaptaremos o evangelho ao gosto das pessoas e praticamos prostituição com o príncipe dessa era. A grande prostituta será condenada nos juízos que em breve se abaterão sobre o globo terrestre.

       A doutrina precisa ser pregada. A verdade sobre a salvação em Cristo precisa ser divulgada. Foi Deus que determinou isso, que a justificação ocorre somente por meio de Cristo e somente pela fé. Por essa razão, Cristo e a salvação conquistada por ele na cruz precisam ser proclamados; pois Deus providenciou a Palavra como o único meio que proporciona a salvação: “Consequentemente, a fé vem por se ouvir a mensagem, e a mensagem é ouvida mediante a palavra de Cristo” (Rm 10.17; cf. Jo 17.20). Heiko Oberman escreveu na biografia sobre Lutero: “A Reforma conseguiu penetrar tão profundamente no povo porque Lutero descobriu uma surpreendente consequência do princípio da Escritura: ela precisa ser pregada”.

     Em seus escritos “Contra os Profetas Celestes”, de 1525, Lutero escreveu sobre a necessidade de proclamar a Palavra: “A Palavra, a Palavra, a Palavra o faz. Mesmo que Cristo fosse entregue e crucificado mil vezes em nosso lugar, tudo seria em vão se a Palavra de Deus não tivesse vindo, repartido comigo e me presenteado, e tivesse dito: isso é para você; tome-o e guarde-o para si”.

       A Palavra de Deus e a verdade estão sempre em oposição aos desejos das pessoas. Por isso surgem lutas. Precisamos, no entanto, tentar compreender o efeito da resposta de Lutero diante do parlamento. Ela foi um prenúncio de luta, uma declaração de guerra contra a ordem que estava em vigor desde o início da Idade Média: a igreja era representante do céu e o imperador era responsável pelo governo do mundo. O que o mundo deseja é ordem, paz e bem-estar, mas ele quer tudo isso sem Deus, e sem a sua verdade. Lutero falou as seguintes palavras contra isso diante do parlamento reunido:
“Para mim... de todos os aspectos, o mais aceitável é que surgem ciúmes e brigas por causa da Palavra de Deus. Aliás, essa é a tendência, o efeito da Palavra de Deus conforme o próprio Cristo diz: eu não vim para trazer paz, mas espada”.
       O que o mundo deseja é ordem, paz e bem-estar, mas ele quer tudo isso sem Deus, e sem a sua verdade. Acontece que a Palavra de Cristo, o evangelho da salvação, é a espada, e isso transforma em inimigos os membros da uma mesma família, e os que até então eram amigos em opositores. No entanto, esta Palavra é o poder de Deus para a salvação. Por isso ela deve ser testificada, mesmo que isso conduza inexoravelmente à indignação e controvérsia. 

       Quatro anos após os acontecimentos em Worms, Lutero escreveu para Erasmo, esse intelectual proeminente que sabia equilibrar tudo respeitosamente, a esse talvez maior humanista que se esforçava ao máximo para não causar brigas e inquietações:
“Com o seu conselho, você [Erasmo] pretende determinar que, por consideração ao papa e aos maiorais ou em favor da paz na terra, deixemos temporariamente de proclamar a verdade. [...] Você não leu ou não observou que desde sempre o destino da verdade foi de causar revolução no mundo? Foi isso que também Cristo afirmou, quando disse abertamente: ‘Não vim trazer paz, mas espada’ (Mt 10.34). E mais: ‘Vim trazer fogo à terra, e como gostaria que já estivesse aceso!’ (Lc 12.49). [...] Leia em Atos dos Apóstolos! Veja tudo o que aconteceu apenas porque Paulo pregou! O quanto esse homem conseguiu motivar gentios e judeus! O quanto ele movimentou toda a terra! Foi o que disseram até os seus inimigos (At 17.6)”.
       Devemos manter a verdade escondida somente para que tenhamos calmaria e para salvar a paz no mundo? Trata-se da única mensagem de salvação; trata-se do destino de almas; trata-se, acima de tudo, da glória de Deus. Lutero sabia o que dizer se fosse acusado diante do parlamento, e ele sabia claramente das devidas consequências. No dia 29 de dezembro de 1520, ele escreveu para Georg Spalatin:
“Um chamado do imperador significa que sou chamado por Deus. E mais: se eles usarem de violência contra mim, o que é muito provável, [...] então preciso confiar tudo às mãos do Senhor. [...] Nesse caso não se pode levar em conta o perigo ou bem-estar; nesse caso permanece uma só preocupação: que nós não nos descuidemos do evangelho com o qual aqui comparecemos, permitindo que sejamos zombados pelos ímpios, que não demos motivo de vitória para nossos inimigos como se não ousássemos professar livremente nossa doutrina, que não tenhamos medo de derramar nosso sangue em favor do evangelho. Que Cristo, em sua misericórdia, nos resguarde de tal covardia e de uma tal vitória deles. Amém!”.
       Quando Lutero esteve diante do imperador, ele sabia que este precisaria apenas falar uma palavra e o herege seria preso e encaminhado para Roma. E isso teria sido o seu fim. Cremos que somente a Bíblia é a Palavra de Deus e que somente o evangelho de Deus é o poder de Deus para a salvação? Se for assim, então também estamos dispostos a pôr nossa cabeça a prêmio por ela. Todos os servos de Deus precisaram enfrentar a batalha pela verdade da Bíblia e do evangelho bíblico. Vejamos isso rapidamente na vida de John Knox, Heinrich Bullinger e do pastor Wilhelm Busch.

       John Knox, o reformador na Escócia, nasceu em 1514 e faleceu em 1572. Pelas suas incansáveis viagens e pregações através de todos os recantos da Escócia, a Reforma se espalhou e, em 1560, a igreja escocesa assumiu uma confissão de fé reformada na Confessio Scoticana. A Escócia se tornou um Estado protestante. Todavia, havia inimigos convictos contra a Reforma. Maria Stuart foi da França para a Escócia a fim de, na condição de rainha, reintroduzir a fé católico romana. No dia 24 de agosto de 1561, em seu primeiro domingo em solo escocês, ela mandou celebrar a missa no Palácio de Holyrood, em Edimburgo. Diante disso, John Knox não conseguiu se calar; na primeira oportunidade, “no domingo após o primeiro ato da monarquia em Holyrood, os moradores de Edimburgo ouviram o sonoro tom de fanfarra da sua voz, falando do púlpito: "Uma missa é mais terrível do que se o reino tivesse sido invadido por dez mil inimigos armados".

        A ideia de Knox a respeito da missa ele já havia inserido na Confessio Scoticana, a confissão de fé escocesa. Ali, no capítulo 23, consta: “Essa doutrina é uma ofensa a Cristo Jesus e uma negação da suficiência do seu sacrifício salvador único [...] por esse motivo nós a detestamos ao máximo, a odiamos e a rejeitamos”. Toda a sua vida estava marcada por testemunhos de alerta contra a missa: “Quero prestar contas por constantemente explicar que a missa é, e sempre foi, um culto idólatra e uma abominação [...] a idolatria mais abominável praticada desde o início do mundo”.

     Joseph Chambon avalia a julgamento do reformador escocês com as seguintes palavras: “A ideia de que uma pessoa possa se atrever [...] por meios próprios, tornar concreto o Santo Deus em Cristo, para adoração dessa substância pela igreja, para constantemente repetir a morte vicária de Cristo na cruz em todo seu valor e efeito através dessa matéria, faz com que seu sangue ferva incessantemente. Para definir a vida de Knox se poderia escrever: ‘O zelo pela tua casa me consome’. O fato de que o protestantismo de nossos dias mal compreende o horror diante da missa, ou é algo que fala em favor da missa, a qual não se modificou, ou fala contra o protestantismo, que estaria modificado”. Knox foi imediatamente acusado perante a rainha e convocado a se responsabilizar. (...) Resultado: ódio incansável e mortal dessa fina dama contra um pregador do evangelho. Ela tentou, por todos os meios, eliminá-lo do mundo. No entanto, nada deteve John Knox. Por isso Joseph Chambon fala da “vontade quase terrivelmente imprevisível e obstinada do homem John Knox em varrer a falsa doutrina romana e de implantar a fé evangélica para a salvação em todo o país”.

       Lancemos o olhar sobre o segundo centro de Reforma, em Zurique. Heinrich Bullinger (1504-1575) era o colaborador 20 anos mais jovem de Ulrico Zuínglio. Após a morte deste, continuou com a implantação da Reforma e a consolidou. Em 1567, nove anos antes de sua morte, publicou uma detalhada apresentação da Reforma na Suíça, sob o título “História da Reforma”. No prefácio, ele escreveu as seguintes frases sobre o objetivo de sua “História da Reforma”:
“Aqui o leitor [...] verá claramente o que a cidade de Zurique suportou em termos de trabalho, agitação, custos, medo e dificuldades antes da Palavra divina ou a proclamação do santo evangelho ter sido amplamente divulgado na confederação. [...] O leitor encontrará muitas obras maravilhosas de Deus, principalmente a tremenda luta da verdadeira religião contra a falsa, assim como também conhecerá as duas. Além disso, quem tem um coração sério [...] vai adquirir e carregar uma eterna animosidade contra a falsa religião”.
      Por fim, um exemplo de épocas mais recentes. O pastor evangélico Wilhelm Busch (1897-1966) era um dos poucos cristãos a exercer oposição ao Partido Nacional Socialista. Em 1935, ele escreveu um panfleto com o título: “A Tua Palavra é a Resistência do Nosso Coração: Um alerta para a cristandade evangélica”. Entre outros, nele constava o seguinte:
“A verdadeira igreja de Jesus Cristo não é uma companhia de seguros, mas um acampamento militar. [...] Novamente surgiram forças de paganismo entre nosso povo e que enfrentam o evangelho. [...] Um novo paganismo se levanta como uma tempestade, cheio de ódio contra o evangelho da Bíblia. [...] Nós, no entanto, atacamos o paganismo moderno. Por quê? Atacamos o paganismo por causa de sua idolatria”.
     Busch foi intimado pela Gestapo. No dia 17 de maio de 1935 ele declarou para o protocolo da Gestapo: “Eu redigi o folheto ‘A Tua Palavra é a Resistência do Nosso Coração’ porque, como pregador da Palavra de Deus, estou comprometido em alertar nossas igrejas contra todas as doutrinas de homens, que as afastam de Cristo”.

       O evangelho nos transforma em escravos de Deus. Enquanto éramos pecadores não estávamos livres; também como redimidos não somos livres. Enquanto éramos pecadores, estávamos presos no pecado e na morte e, assim, estávamos livres da justiça (Rm 6.20). Sendo salvos, estamos libertos do pecado e da morte e, assim, escravos da justiça (Rm 6.18). Sendo escravos de Cristo, temos a obrigação de obedecê-lo. Temos a obrigação hoje perante o povo de Deus de guardar, defender e ensinar a verdade do evangelho, aconteça o que acontecer. Hoje temos a obrigação, diante de nossos concidadãos, de lhes transmitir a mensagem salvadora da redenção de modo legítimo e sem cortes. E isso significa: Sola scriptura; o que, por sua vez, significa: a Escritura é inequívoca, a Escritura é clara, a Escritura é suficiente e a Escritura é eficaz. O que impulsionou os testemunhos da época da Reforma e um pastor Wilhelm Busch, e o que deve nos impulsionar, é o imenso e insuperável anseio:

Soli Deo gloria! – A Glória seja dada unicamente a Deus! — Benedikt Peters

Via: Chamada

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Martinho Lutero e a Reforma Protestante

       Martinho Lutero nasceu a 10 de novembro de 1483 no centro da Alemanha, em Eisleben, Turíngia/Alemanha. Seus pais, João e Margarida, eram pobres. João era mineiro e lenhador, porém não iletrado, de modo que puderam dar-lhe boa orientação educacional. Visando a melhorar a vida econômica, fixaram residência, em 1484, em Mansfeld, onde Martinho iniciou seus estudos. Terminando o curso da escola daquela localidade, então com 14 anos, deixou a casa paterna e ingressou na escola superior de Magdeburgo. Depois de um ano ali, teve que retornar à casa paterna acometido de grave enfermidade, indo por esta razão, no ano seguinte, estudar em Eisenach. Três anos cursou o colégio de Eisenach. Em 1501 ingressava na Universidade de Erfurt, cidade conhecida como "Roma Alemã" pelo número de suas igrejas e mosteiros. Obteve ali os graus de Bacharel (1502) e Mestre em Arte (1505). No mesmo ano ingressou no curso de Direito.

       Este, porém, foi interrompido visto que, a 02 de julho de 1505, regressando da casa paterna, teve sua vida seriamente ameaçada por uma tempestade que, por pouco, lhe tirara a vida. Fez, nesta oportunidade, um voto a Sant’ana que, se lhe fosse dado viver, ingressaria no mosteiro para tornar-se monge. No dia 17 de julho de 1505 as portas do convento da Ordem dos Agostinhos fechavam-se atrás dele.

Sacerdote

   Em fevereiro de 1507 foi ordenado sacerdote. Vivia, no entanto, em completo desespero, buscando, dias e noites a fio, em tremendos tormentos espirituais, resposta à pergunta: "De que maneira conseguirei um Deus misericordioso?" Reconheceu muito logo que jamais seria possível obter certeza de sua salvação mediante boas obras, pela impossibilidade de saber se são suficientes, mormente em se tratando de uma alma de consciência extremamente sensível.

Professor

     Por indicação do vigário da ordem, João de Staupitz, que reconhecia em Lutero uma erudição e inteligência incomuns, Lutero foi designado professor na Universidade de Wittenberg, fundada em 1502 por Frederico, o Sábio, duque da Saxônia e presidente dos sete eleitores civis que, juntamente com sete autoridades religiosas, elegiam o imperador do Sacro Império-Romano da Nação Alemã. Ocupou ali a cadeira de Teologia. Continuou também seus estudos, instruindo-se principalmente nas línguas gregas e hebraica. A 09 de março de 1509 obteve o grau de Baccalaureus Biblicus.

Viagem a Roma

    Em 1511, então com 28 anos, foi enviado em missão diplomática a Roma, para solucionar uma divergência entre sete conventos de sua Ordem e o vigário geral da mesma. A corrupção, imoralidade, as zombarias, o desrespeito do clero e da cúpula da igreja para com as coisas sagradas marcaram nele uma profunda decepção. Embora profundamente entristecido, as esmagadoras desilusões sofridas não o levaram a descrer de sua igreja.

Doutor em Teologia

      Em outubro de 1512, recebia, das mãos do decano da faculdade de Teologia, o grau de Doutor em Teologia. Assumiu, a seguir, a cadeira de Lectura in Bíblia lecionando, à base das línguas originais, o hebraico do Antigo Testamento e o grego do Novo Testamento, incorporando conquistas do humanismo na ciência da interpretação de textos. Ainda em 1512, foi eleito subprior do convento de Wittenberg. Em maio de 1515 foi designado vigário do distrito, que compreendia onze conventos sob sua orientação e autoridade.

Preleções

      As suas preleções eram tão concorridas que a elas acorriam estudantes de todas as partes e países vizinhos. Os professores assistentes também aumentavam. O reitor da Universidade chegou a declarar, como que em antevisão: "Este frade derrotará todos os doutores; introduzirá uma nova doutrina e reformará toda a igreja; pois ele se funda sobre a palavra de Cristo, e ninguém no mundo pode combater nem destruir esta Palavra..." (Melchior, Adam. Vita Lutheri, p. 104). Ocupando o púlpito, a capela logo não mais podia comportar os assistentes. O senado o convidou então a ocupar a igreja paroquial da cidade.

Justificação pela fé

       Nos seus conflitos espirituais, o texto bíblico que lhe trouxe a luz da verdade e a paz de consciência veio a ser a célebre passagem da Epístola aos Romanos (1.17), em que o apóstolo cita o profeta Habacuque: "0 justo viverá por fé" .Viu que São Paulo fazia do sacrifício de Cristo o centro da verdade em religião. Seus pecados, angústias, sofrimentos haviam caído sobre os ombros de Cristo na cruz; Cristo fizera o que ao pecador teria sido impossível fazer com suas penitências e méritos pessoais.

As Teses

     Em 1517, Lutero quis provocar um debate público sobre a venda de indulgências promovidas pelo Papa Leão X e o arcebispo Alberto de Mogúncia através da Ordem dos Dominicanos. Quando pregou à porta da Igreja do Castelo de Wittenberg, em 31 de outubro de 1517, o pergaminho com as 95 teses em latim para serem debatidas entre os acadêmicos, conforme o costume da época, não desejava desencadear um movimento na história da igreja. Era o pároco que, com preocupado, via como as almas dos fiéis eram desnorteadas por um grande escândalo, descaradamente apregoado em nome da santa Igreja: a venda do perdão de Deus, como se fosse mercadoria, por meio de cartas de indulgência, cujo lucro se destinava ao término da basílica de São Pedro e à cruzada contra os turcos. Seu principal proclamador era o dominicano Tetzel. Eis algumas das teses apresentadas por Lutero:  

Dizendo nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo: Arrependei-vos... etc., pretendia falar da vida interior do cristão que deveria ser um contínuo e ininterrupto arrependimento (Tese I)

Pregam futilidades humanas quantos alegam que no momento em que a moeda soa ao cair na caixa a alma se vai do purgatório (Tese 27)

Todo o cristão que se arrepende verdadeiramente dos seus pecados e sente pesar por ter pecado, tem pleno perdão da pena e da dívida, perdão esse que lhe pertence mesmo sem breve de indigência (Tese 36)

Esperar ser salvo mediante breves de indulgência é vaidade e mentira, mesmo se o comissário de indulgências e o próprio papa oferecessem sua alma como garantia (Tese 52) 

     As proposições sobre as indulgências eram completadas por algumas outras, que continham o que viria a ser fundamental na doutrina luterana: Aos olhos de Deus, não há na criatura senão concupiscências; ninguém se salva senão pela graça de Deus através da fé. O efeito dessas teses foi tão inesperado, que elas não ficaram entre os letrados; traduzidas ao alemão, em poucas semanas se espalharam por toda a Alemanha e outras partes da Europa, chegando ao conhecimento do povo em geral.

Reação de Roma

      Em 1518, Roma tratou de liquidar o caso do monge de Wittenberg. Lutero foi chamado para responder um processo em Roma, dentro de sessenta dias. Mas, por interferência de Frederico, o Sábio, Príncipe da Saxônia, o Papa consentiu que a questão fosse tratada em Augsburgo, pelo Cardeal Cajetano. Este exigia simplesmente que Lutero se retratasse, o que este, naturalmente, não fez. Tinha Lutero nessa época o apoio da Ordem dos Agostinhos e do corpo docente da Universidade de Wittenberg. Cajetano declararia depois dos três encontros com Lutero: "Ele tem olhos que brilham, e raciocínio que esconcertam".

      O Papa temia suscitar oposição cerrada entre os príncipes alemães. Valeu-se, para que isso não acontecesse, da diplomacia. Condecorou o protetor de Lutero, Frederico, o Sábio, com a "Ordem da Rosa Áurea da Virtude" para afastá-lo de Lutero, e enviou o conselheiro Karl von Miltitz. Este conseguiu, com brandura, que Lutero escrevesse uma carta ao papa, declarando sua fiel submissão; mas reafirmou, também, sua doutrina da justificação pela fé somente, sem os méritos de obras. Expôs e defendeu sua posição num debate com o Dr. João Eck em Leipzig. O que precipitou o rumo das coisas foi sua declaração de que nem todas as doutrinas de João Huss (queimado como herege em Constança, em 1415) eram falsas, e que os concílios são passíveis de erros em suas decisões. Isto o colocou à margem da igreja papal, que se fundamentava sobre a infalibilidade do papa e dos concílios.

Primeiros Escritos

     Em 1520 escreveu três livros fundamentais mostrando o antagonismo do sistema de salvação papal e o ensino bíblico: "À Sua Majestade Imperial e à Nobreza Cristã sobre a Renovação da Vida Cristã", "Sobre a Escravidão Babilônica da Igreja" e "Da Liberdade Cristã". Alguns de seus pensamentos-chave aí registrados são estes: "O cristão é um livre senhor sobre todas as coisas e não submisso a ninguém - pela fé"; "o cristão é servidor de todas as coisas e submisso a todos - pelo amor". "Não fazem as boas obras um bom cristão, mas um bom cristão faz boas obras".

Excomunhão

     A resposta do Papa foi a bula de excomunhão Exsurge Domine. Tinha ainda 60 dias para retratar-se do que havia escrito e ensinado. Em 03 de janeiro de 1521 esgotou-se o prazo dado na bula, sendo então proferido o anátema definitivo, pela bula Decet Romanum Pontificem.

Dieta de Worms

     Em 1521 reunia-se a primeira Dieta ou Assembléia do império, presidida pelo jovem imperador Carlos V, eleito em 1520, em sucessão a Maximiliano, para dirigir o reino "em que o sol não se punha". Lutero, intimado, compareceu diante da assembléia em 17 de abril de 1521. Perguntado se renunciava ao que tinha escrito, respondeu: "Não posso, nem quero retratar-me, a menos que seja convencido do erro por meio da palavra bíblica ou por outros argumentos claros. Aqui estou; não posso de outra maneira! Que Deus me ajude. Amém".

Tradução do Novo Testamento

     Proscrito pelo imperador, foi posto em segurança pelo duque Frederico, através de um sequestro simulado de cavaleiros embuçados, durante sua viagem de retomo, e escondido no Castelo de Wartburgo, nas proximidades de Eisenach. Sua principal realização nesse período foi a tradução do Novo Testamento grego para um alemão fluente de grande aceitação popular. Os primeiros 5 mil exemplares esgotaram-se em 3 meses. Em cerca de dez anos houve 58 edições. Em 1522, com risco de vida, reassumiu as funções de professor em Wittenberg. Juntamente com Felipe Melanchthon (cognominado Praeceptor Germaniae - educador da Alemanha), seu grande amigo e colaborador, instruiu centenas de estudantes alemães, boêmios, poloneses, finlandeses, escandinavos.

Guerra dos Camponeses

     Marcou o ano de 1525 a Guerra dos Camponeses, uma revolução armada em que os camponeses, sob federação, reivindicaram mais liberdade aos latifundiários. Em seus objetivos políticos sociais idealizaram Martinho Lutero como chefe. Confundiram reivindicações políticas com aspirações religiosas. Lutero, embora compreendendo suas necessidades, viu-se forçado a distanciar-se do movimento porque não era política a missão dele. A carnificina, com batalha final em Frankenhausen, trouxe prejuízos ao movimento da Reforma. Mas esta, a despeito de todos os abusos praticados em seu nome, se expandia. Lutero procurava consolidar as igrejas e escolas que haviam aderido à Reforma em território alemão e países vizinhos. Neste mesmo ano (1525) casou-se com uma ex-freira, Catarina de Bora, de cujo casamento lhes nasceram 6 filhos.

Culto e Liturgia

      De 1527 a 1529 esteve empenhado na organização da Igreja Evangélica. Compositor e poeta, compôs trinta e sete hinos. Cabe-lhe a celebridade de popularizar o Lied eclesiástico. Era também conhecido como o "Rouxinol de Wittenberg". Traduziu a ordem da missa para o alemão - Deutsche Messe 1526 - a partir do que os cultos passaram a ser celebrados na língua do povo, e não no latim que ninguém entendia.

Os dois Catecismos

     Em 1529 redigiu dois manuais de instrução, até hoje em uso nas igrejas luteranas: "Catecismo Menor" e "Catecismo Maior". Os dois volumes apresentam, em seis partes, um sumário da doutrina cristã. O primeiro é escrito, especialmente, para as crianças; o segundo, para os pais. Justificando, o Reformador afirma: "A lamentável e mísera necessidade experimentada recentemente, quando também fui visitador, é que me obrigou e impulsionou a preparar este Catecismo ou doutrina cristã nesta forma breve, simples e singela. Meu Deus, quanta miséria não vi! O homem comum simplesmente não sabe nada da doutrina cristã, especialmente nas aldeias". Numa outra oportunidade afirma: "Eu também sou doutor e pregador, e, na verdade, tenho de continuar diariamente a ler e estudar, e ainda assim não me saio como quisera, e devo permanecer criança e aluno do Catecismo".

Somente a Escritura

     No mesmo ano realizou-se, no mês de outubro, um encontro entre Ulrico Zwínglio e Lutero para um debate doutrinário, denominado Colóquio de Marburgo, uma controvérsia eucarística. O pregador Zwínglio, que vivia na Suíça, também reconhecera a apostasia da igreja romana, pregando a Palavra e testemunhando contra as indulgências. Diferia, no entanto, da doutrina de Lutero e a discrepância básica resumia-se na pergunta: Os artigos de fé devem basear-se exclusivamente na Palavra de Deus ou também na razão humana? Não chegaram a um acordo, visto que a resposta de Lutero não admitia dúvida: A Escritura, e nada além dela, é fonte de artigos de fé, como também, mais tarde, a Fórmula de Concórdia o expressa: "Cremos, ensinamos e confessamos que somente os escritos proféticos e apostólicos do Antigo e do Novo Testamento são a única regra e norma segundo a qual devem ser ajuizadas e julgadas igualmente todas as doutrinas e todos os mestres".

Confissão de Augsburgo

     Auxiliou o duque João Frederico a delinear sua estratégia em relação à Dieta de Augsburgo (153O), convocada Pelo imperador para superar o cisma. Acompanhou a redação, por Felipe Melanchthon, duma defesa oficial, que veio a chamar-se Confissão de Augsburgo. O documento, a primeira e mais notável das confissões evangélicas, foi lido em público à assembléia imperial, em nome de príncipes e cidades partidárias da Reforma, a 25 de junho de 1530. Era Composto o documento de duas partes: uma, dogmática; outra, apologética. Argumentavam na Confissão que, quanto à doutrina, continuavam fiéis ao que a igreja vinha ensinando à base das Escrituras Sagradas, conforme os Credos Apostólico e Niceno; com respeito ao culto, mantinham os ritos antigos consentâneos ao evangelho, cancelando apenas aqueles costumes, ritos e cerimônias que obscureciam a glória de Jesus Cristo como o único Mediador entre Deus e os homens. Reivindicaram, por conseguinte, o direito de conviver em Paz com o papa e os bispos no seio da igreja do império. O imperador, ouvida a Confissão, determinou que os teólogos de Roma elaborassem a Confutação Católica à confissão de Augsburgo. A 03 de agosto fez-se a leitura desta. Não terminava ainda a apresentação de confissões religiosas, e Lutero e Melanchthon responderam à Confutação com a Apologia da Confissão de Augsburgo, de alto valor teológico, mas da qual a Dieta não quis tomar conhecimento. 

       A Dieta lhes concedeu o prazo até 15 de abril de 1531 para voltarem ao seio da igreja romana e exigiu rigoroso cumprimento do Édito de Worms. Embora desaconselhados por Lutero, constituiu-se em fevereiro de 1531 uma poderosa agremiação política dos príncipes luteranos, denominada "Liga de Esmalcalde". Porém, em vista do perigo dos turcos às portas do império, em Viena, o imperador dependia do auxilio militar dos príncipes evangélicos; por isso, pela Paz de Nüremberg, para a qual Lutero muito contribuiu, em 1532, permitiu aos adeptos da Confissão de Augsburgo a persistirem nas suas doutrinas e concedia-lhes ainda outros privilégios. Essa tolerância seria dada até a realização de um concílio da igreja.

Tradução do Antigo Testamento

     Não houve, assim, apesar dos esforços, uma maneira de restabelecer a unidade na igreja e no império. Em 1534 Lutero terminava uma tarefa em que havia trabalhado mais de 10 anos: a tradução do Antigo Testamento para o alemão. No mesmo ano pode-se publicar, então, a Bíblia completa. Em 1536 Lutero redigiu, por solicitação do duque João da Saxônia, artigos para serem apresentados num "Concilio geral livre" convocado pelo Papa. Os Artigos de Esmalcalde, porém, não chegaram a ser apresentados. Os líderes evangélicos concluíram que o concilio não seria livre e se negaram a participar do Concílio de Trento (1545 - 1563), que desencadeou a contra-reforma, no pontificado de Paulo III.

Paz de Augsburgo

      A Paz de Augsburgo, em 1555, atendeu, de certa forma, aos reclames dos evangélicos. Substituiu a tolerância religiosa nestes termos: os príncipes e cidadãos do império respeitariam a filiaçao religiosa de cada um, e o povo teria a opção de adotar a confissão religiosa do respectivo domínio ou de emigrar a território que tivesse a confissão desejada. Martinho Lutero faleceu aos 62 anos de idade, em 18 de fevereiro de 1546, em sua cidade natal, Eisleben, depois de solucionar um litígio entre os condes de Mansfeld. Com grande cortejo fúnebre e ao som de todos os sinos, Lutero foi sepultado sob as lajes da igreja do Castelo de Wittenberg, onde sempre pregava o evangelho.

Contra-Reforma

     A Contra-reforma, liderada pela ordem dos jesuítas, reconquistou vários territórios que tinham aderido à Reforma. Não obstante, a doutrina, o culto e a piedade preconizados por Lutero se enraizaram na Alemanha, nos países bálticos, nos países escandinavos e na Finlândia. Através doutros reformadores, foram acolhidos na França, Inglaterra, Escócia e Países Baixos. Em todos estes países, a Reforma ocasionou extraordinário desenvolvimento cultural, notadamente na educação, ciência, economia e política. Pela emigração, os "Luteranos" se espalharam por todos os continentes. Contam, hoje, cerca de 70 milhões. Frade, sacerdote, professor, doutor em Teologia, pregador considerado o primeiro de seu tempo, escritor vigoroso e de grande riqueza lexicográfica, fixador da língua alemã, poeta e músico, Lutero abalou o mundo de seus dias e sobre ele se tem pronunciado o juízo dos séculos.

Pronunciamentos sobre Lutero

     O historiador Schaff diz que "este foi o maior homem que a Alemanha produziu e um dos maiores vultos da história". Goethe dá o seu testemunho nestes termos: 'Dificilmente compreendemos o que devemos a Lutero e à Reforma em geral. Ficamos livres dos grilhões da estreiteza espiritual (... ) compreendemos o cristianismo em sua pureza". Heinrich Heine, o poeta excelso, exclama: "Honra a Lutero, a quem devemos a reconquista dos nossos direitos mais sagrados, e de cujos benefícios vivemos hoje em dia. Através de Lutero adquirimos a liberdade religiosa. Criou a palavra para o pensamento. Criou a língua alemã, através da tradução da Bíblia". Dollinger, historiador católico liberal, diz: "Lutero deu aos alemães o que nenhum outro jamais dera a seu povo: a língua, a Bíblia, a hinologia..." É reconhecido como "pai da alfabetização". Dirigiu-se aos pais através de profusas publicações, encarecendo-lhe a escola e a educação dos filhos como necessidade inadiável, para a pátria e a igreja verem melhores dias. Um escritor moderno declarou: "A Lutero deve a Alemanha seu esplendido sistema educacional - em suas origens e concepções. Porque ele foi o primeiro a reclamar uma educação universal, uma educação do povo todo, sem consideração de classe"

     Deixou à posteridade, em sua fecundidade literária, dezenas de volumes contendo obras doutrinárias, apologéticas, exegéticas, homiléticas, pastorais e pedagógicas. Frantz Funck Brentano, célebre historiador contemporâneo assim se expressa: "Qualquer que seja o julgamento formulado em torno da doutrina religiosa de Martinho Lutero, é preciso reconhecer nele uma das mais poderosas personalidades que o mundo conheceu. Sua energia, seu valor, sua poderosa ação, que decorriam em grande parte da intensidade de suas convicções, estão acima de todo elogio. Calculou-se que seriam precisos a um homem dez anos de vida para simples cópia das cartas, orações e inumeráveis escritos do reformador e, Lutero não só redigiu suas obras, mas pensou-as, deu-lhes estudo e reflexões, corrigiu-as, e isso entre ocupações múltiplas, quase sempre absorventes e das mais diversas, suas prédicas, sua atividade social e política, os cuidados e o tempo que consagrou aos antigos e à família" (Martim Lutero, pág. 22, Ed Veccki). Dezenas de testemunhos dessa natureza poder-se-ia acrescentar à sua pessoa. Os exemplos citados, porém, exemplificam o veredito sobre sua pessoa e a obra deixada até os nossos dias atesta a sua grandiosidade.



Nota do Blog:

Esse é um resumo da vida de um homem que Deus levantou para trazer um avivamento no séc. XVI, para restaurar os pilares da fé apostólica fragilizados por anos de trevas espirituais e dogmas que deturpavam a verdadeira Palavra de Deus. Que hoje, principalmente nessa data, possamos reavaliar a nossa conduta de cristãos e valorizar o que homens da estirpe de Lutero, Huss, Wycliffe, Calvino, entre outros fizeram em defesa do Evangelho do Nosso Senhor Jesus Cristo. Que essa atitude de coragem, nos fortaleça e nos impulsione cada dia mais à batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos. (Jd. 1.3) e lutar contra as heresias do nosso tempo e contra os mercadores da fé, que tentam ressuscitar doutrinas já combatidas pelos santos homens de Deus. 

Soli Deo Gloria.

Prof. Saulo Nogueira

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Dia da Reforma Protestante

         Dia 31 de outubro de 1517 foi a data escolhida por Martinho Lutero para divulgar suas 95 teses contra o papa e a Igreja Católica. Era o início da Reforma Protestante, que gerou o movimento evangélico. Já leu as teses? Leia aqui.
   Pregadas na porta da Catedral da cidade Wittenberg, Alemanha, os argumentos do ex-monge Lutero não pediam que a Igreja se dividisse, mas que passasse por uma reforma teológica, abandonando práticas que contrariavam as Escrituras Sagradas. Rejeitadas pelo Vaticano, foram o início do que seria mais tarde a Igreja Luterana.
       Entre as propostas de Lutero estava a de traduzir a Bíblia para que todos pudessem conhecer a Palavra de Deus. Até então isso era privilégio do clero. Foi uma verdadeira revolução no cristianismo. Lutero baseava-se em “5 pilares” que são usados até hoje para definir a fé protestante: “Somente a Escritura, somente a Fé, somente a Graça, somente Cristo e Glória somente a Deus”.
        Os ideais se espalharam pela Europa e encontraram eco em vários movimentos similares. Essa é a raiz das igrejas evangélicas que se espalham por todo o mundo até hoje. Embora pouco divulgada pelas igrejas no Brasil, o fato é que a Reforma ajudou a mudar a história.
     Prestes a completar cinco séculos, a Reforma continua inspirando milhares de cristãos no mundo inteiro. Em 2012, foi lançada pelo evangélico Orley José da Silva a campanha “500 anos de Reforma, 100 milhões de evangélicos no Brasil”.
      Segundo Orley, o número de evangélicos no Brasil hoje gira em torno de 50 milhões. Sua proposta é que cada crente do país se esforce para “evangelizar uma pessoa não cristã, levá-la a decidir-se por Cristo e a discipular” até 31 de outubro de 2017. Assim, no aniversário de 500 anos da Reforma teremos 100 milhões de evangélicos no Brasil. “É claro que somente isto não basta, precisamos urgentemente de um reavivamento bíblico, que reflita profundamente na espiritualidade, na moral e na ética, primeiro da igreja e depois da sociedade”, esclarece.
Gospel Prime

Nota do Blog: 31 de Outubro, Dia da Reforma. Momento de refletir sobre o nosso cristianismo e se hoje, 497 anos depois, estamos valorizando o que os reformadores fizeram pela fé. Será que hoje os cristãos lutam por essa mesma fé com a mesma garra e dedicação que os reformadores lutaram. Será que defendemos em nossas mensagens os 5 pilares da reforma e estamos sendo coerente com a mensagem deixadas por aqueles homens de Deus? Pregamos a Salvação somente pela fé? Damos glória somente a Deus, através de Cristo Jesus? Confiamos plenamente nas Escrituras Sagradas como regra de fé e prática? Pregamos sobre a graça maravilhosa de Deus? Aos amigos pastores e alunos do Seminário, que possamos refletir nesse momento sobre os rumos que o evangelicalismo tem tomado e rogarmos ao Senhor da Seara que nos oriente, pois nós também podemos ser os reformadores do nosso tempo. Paz á todos que estão em Cristo.

Prof. Saulo Nogueira