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quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Um humilde conselho aos pregadores

     Por: Saulo Nogueira

     Nesses anos de caminhada com Cristo, tenho tido o privilégio de aprender muitas coisas com o mestre. E uma delas é em relação à pregação da Palavra. Eu, como Bacharel em Teologia e professor, dedico grande parte do meu tempo em leituras de Livros apologéticos, história, comentários Bíblicos e, principalmente da Bíblia. Uma boa formação e base teológica é imprescindível para que você consiga entender o contexto histórico, fazer uma boa exegese bíblica e transmitir a mensagem preservando a intenção do autor e do livro. Muitas distorções doutrinárias poderiam ser evitadas simplesmente observando regras básicas de hermenêutica. Porém, aprendi que esse conhecimento é muito importante para que você, como o pregador e professor, compreenda e repasse a informação de forma correta, mas não deve ser exaustivamente explorado na hora da pregação da Palavra. Como assim?

     Você buscar um aprofundamento teológico para tirar o máximo do texto bíblico é muito importante, porém na hora de expor a mensagem, temos que ter o cuidado em filtrar toda essa informação teológica e transmitir a Palavra de Deus de uma maneira mais clara e simples possível, que comunique a Verdade de uma forma inteligível para o as pessoas leigas. A grande maioria das pessoas não está interessada em Argumentos cosmológicos e Ontológicos, sobre Patrística, Concílios Universais, supra ou infra-lapsarianismo, etc. Isso é muito interessante para ser debatidos em estudos acadêmicos, Escola bíblica, e em sites de apologética, como o logos apologética hoje. Mas não são assuntos essenciais para o conhecimento para a Salvação. São assuntos secundários que geram divergências até entre os mais ortodoxos. E alguns pregadores, talvez por falta de bom senso, ou por pura prepotência teológica, tem cavado tão profundo em suas mensagens, que tendem a enlamear as águas e deixar uma mensagem que deveria ser clara, lamacenta e de difícil compreensão. As pessoas comuns querem aprender sobre Salvação, como obedecer a Palavra, receber o perdão e cura espiritual, como ser cheio do Espírito Santo e viver na Plenitude e na Graça de Deus. Devemos usar o púlpito para falar de maneira simples e objetiva, sobre o propósito da morte redentora de Jesus, Seu Plano de Salvação, sobre arrependimento, perdão, gratidão e frutos do espírito.

       Não quero dizer com isso, que nós pregadores devemos trazer uma mensagem “rala” e sem conteúdo. Muito pelo contrário. Ela deve ser profunda nos aspectos importantes para o crescimento do salvo e sua edificação. Os maduros na fé devem receber um alimento mais sólido, mas isso não significa, mais teologia em si, mas um discipulado que o faça crescer no conhecimento e na Graça do Nosso Senhor Jesus Cristo. Porém, não descarto aqui, alguns assuntos que apesar de também serem profundos, devem ser pregados e ensinados, pois sem o entendimento deles o cristão fica com um conhecimento deficiente sobre Deus. A Trindade, a divindade de Jesus Cristo e a pessoalidade do Espírito Santo são um excelente exemplo. São doutrinas indispensáveis para a Salvação do crente e para o pleno conhecimento do Senhor.
“Ora, qualquer que se alimenta de leite é inexperiente na palavra da justiça, pois é criança; mas o alimento sólido é para os adultos, os quais têm, pela prática, as faculdades exercitadas para discernir tanto o bem como o mal. ” (Hebreus 5:13,14)
     A maturidade cristã não se refere a ter o maior conhecimento teológico. Mas sim aqueles que tem uma conduta cristã exemplar e são irrepreensíveis. São aqueles que não se deixam levar pelas dissimulações dos outros, mas que são marcas da sua caminhado com Cristo, a mansidão, longanimidade, benignidade, temperança e acima de tudo, o amor. Cristãos maduros obedecem a Palavra de Deus, amam o seu semelhante, praticam boas obras e acima de tudo, buscam o reino de Deus e sua justiça em primeiro lugar. São constantes em todos os seus caminhos, tem uma linguagem sã e irrepreensível e fogem da aparência do mal. São discípulos e não seguidores. São ovelhas e não bodes. São filhos e não somente criaturas.

    Deixo esse pequeno texto à todos aqueles que amam pregar a Palavra de Deus. Preguem à todo tempo, com coerência, simplicidade e acima de tudo, por amor às almas. Pois é esse amor e compaixão pelos perdidos que fará com que sua mensagem seja profunda o suficiente para libertar aqueles que estão ainda presos aos grilhões do pecado. Termino esse humilde texto com uma frase do grande homem de Deus George Müller:
"Nem a eloquência, nem a profundidade de pensamento faz um verdadeiro grande pregador. Somente uma vida de oração e meditação fará dele um vaso pronto para o uso do Mestre e próprio para ser empregado na conversão de pecadores e na edificação dos santos"
Paz do Senhor. 

Prof. Saulo Nogueira.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Os dias estão se "abreviando" conforme profetizado biblicamente?

      Certo dia, conversando com uma pessoa sobre assuntos cotidianos e como o ano "está passando rapidamente", a mesma, na sua simplicidade, disse que os dias estão passando mais rapidamente e, que na Bíblia existe uma passagem que diz que nos últimos tempos os dias seriam abreviados. Por conhecer o versículo e o contexto em que ele está inserido, rapidamente expliquei aquela irmã, que o versículo em questão não se referia as horas do dia, ou os meses do ano, mas que se referem há um tempo específico.

          Na realidade não era a primeira vez que eu ouvia alguém dizer isso. Até em pregações já ouvi alguns irmãos dizendo que os dias estão se abreviando e cumprindo-se o profetizado pela Bíblia Sagrada. Resolvi então, fazer um artigo tratando sobre a interpretação dessa passagem bíblica e o que de fato ela quer nos ensinar. Vamos ao texto:

"E se aqueles dias não fossem abreviados, ninguém se salvaria; mas por causa dos escolhidos serão abreviados aqueles dias." (Mateus 24:22)

Quais "dias" que seriam abreviados a qual o texto se refere? Voltando simplesmente alguns versículos atrás, podemos verificar a qual período de tempo específico a passagem em questão faz alusão:

"porque haverá então uma tribulação tão grande, como nunca houve desde o princípio do mundo até agora, nem jamais haverá." (Mateus 24:21)

        Enquanto Jesus estava sentado no monte das Oliveiras, que permite visualizar a área do Templo, os discípulos lhe fizeram uma pergunta tríplice: "Dize-nos quando serão essas coisas, (a destruição do Templo) e que sinal haverá da tua vinda e do fim do mundo?"(vs. 3). A resposta de Jesus envolve as questões que se referiam à queda de Jerusalém e consequentemente do Templo, mas também às questões concernentes à Sua Volta e ao fim. Mas é difícil separar as respostas para essas perguntas. Definitivamente, elas não parecem ser respondidas em seqüência, contudo parece que Jesus começa respondendo a segunda pergunta.

      Grande parte do capítulo 24 de Mateus se refere à profecias que ainda irão se cumprir. Porém, algumas passagens tiveram seu cumprimento durante o cerco de Jerusalém, no ano 70 pelo General Tito que, de certa forma foi um "prelúdio" da tribulação que viria sobre todos os moradores da terra. Devemos entender que também houve uma "Tribulação" sobre os Judeus, conforme profetizado por Jesus quando alertou os seus discípulos sobre a "abominação da desolação"(vs. 15). 

      O Comentário Bíblico de Beacon nos traz a seguinte nota:

     "“O termo Thlipsis é usado aqui quase no seu sentido literal para a opressão diária do cerco. Sempre se objetou que as palavras desse versículo são fortes demais, e por isso não poderiam ser aplicadas ao ano 70 d.C. Mas Josefo escreve: “Penso que os infortúnios de todos os homens, desde o princípio do mundo, se comparados ao infortúnio dos judeus, não são tão importantes”. Carr assim resume a situação:

     "Não há palavras que possam descrever os incomparáveis horrores desse cerco. Era a época da Páscoa, e os judeus de todas as partes estavam comprimidos dentro das muralhas. Três facções, inimigas entre si, estavam cravadas em Sião e no monte do Templo (...) o pátio do Templo estava inundado com o sangue da discórdia civil, que literalmente se misturava com o sangue dos sacrifícios."

    Josefo afirma que mais de um milhão de judeus morreram nessa catástrofe, e que aproximadamente cem mil foram vendidos como escravos. Parece que a melhor maneira de interpretar o versículo 21 é permitir a aplicação dupla - à queda de Jerusalém em 70 d.C., e também à “grande tribulação” do final desta era.[1](grifo meu)

      Em relação á abreviação daqueles dias, o comentarista continua:

  "Abreviar aqueles dias (versículo 22) se refere ao cerco final de Jerusalém, que surpreendentemente durou menos de cinco meses (de abril a setembro de 70 d.C.). Isto aconteceu por causa dos escolhidos - para que os judeus cristãos da Judeia não fossem, em sua totalidade, eliminados em uma guerra que visava o extermínio dos judeus. A frase por causa dos escolhidos também poderia significar “por causa das orações dos cristãos em Pella, orações pelos judeus que eles tinham deixado para trás”.[2]

         Lembrando-se das profecias de Jesus sobre a queda do Templo de Jerusalém, alguns cristãos vendo que o cerco romano era iminente, fugiram para Pella, cidade localizada do outro lado do Jordão. De alguma forma, durante a "Grande Tribulação" que virá sobre todo o mundo, podemos entender que aqueles dias também serão abreviados. 

      Alguém poderia dizer que grandes mudanças, como grandes terremotos poderiam mudar a rotação da Terra, fazendo com que ela girasse mais rapidamente. De fato, existem algumas mudanças fortes o suficiente para alterar a rotação da Terra. Por exemplo, o terremoto de 8,9 graus na escala Richter que assolou o Japão em 2011 foi tão forte que acelerou a rotação da Terra e encurtou os dias em 1,6 microssegundo, segundo a Nasa. Algo parecido ocorreu por causa do terremoto no Chile, um ano antes. Já o abalo de Sumatra, em 2004, causou uma aceleração de 6,8 microssegundos, segundo cientistas.[3] Porém essas mudanças são tão sutis que são imperceptíveis á nós.
    
Conclusão

      Os dias que foram abreviados se referiam aos dias do cerco Romano contra Jerusalém, caso contrário ninguém suportaria tamanha Tribulação. Algo parecido também ocorrerá na grande tribulação mundial, onde aqueles dias serão abreviados, para que os redimidos não sejam completamente destruídos. Tanto Daniel 7.25, quanto Ap.12.14 sugerem que o comprimento real do tempo durante o qual a Besta terá permissão de aterrorizar o mundo está fixado em três anos e meio.  Em relação a impressão que temos que o tempo está "passando mais rapidamente", é simplesmente uma questão de percepção. Devido à nossa rotina, com correria e excesso de trabalho, não encontramos tempo suficiente para realizar todas as atividades que nos propomos à fazer. A modernidade e a velocidade em que as informações chegam até nós, aliados á prazos curtos de entregas de planilhas, memorandos ou trabalhos de faculdade, nos faz ter a percepção de que o tempo de fato está passando mais rapidamente. Mas é só ficar um dia sem fazer nada, olhando para o relógio que iremos ter a percepção que de as horas custaram a passar!

Paz do Senhor Jesus à todos

Prof. Saulo Nogueira


Notas: 

[1]Comentário Bíblico Beacon, pg. 165-166
[2]Ibid.
[3]Uol Notícias Ciência

terça-feira, 10 de março de 2015

Para que serve a exegese Bíblica?

       A interpretação incorreta de passagens bíblicas pode trazer sérios prejuízos para aqueles que prezam pela sã doutrina e, em alguns casos, pode até comprometer o verdadeiro sentido e a intenção do autor criando uma dificuldade interpretativa ou até mesmo uma heresia. Daí a grande importância da exegese bíblica. Mas o que significam exegese ?

   "Todas as heresias e aberrações doutrinárias são provenientes de interpretações errôneas da Bíblia e significados diferentes às palavras básicas da fé cristã. O sentido correto de um texto só é possível mediante a aplicação correta da exegese e da hermenêutica. O exegeta sincero procede conforme certos princípios básicos para uma análise honesta do texto. Para a interpretação é necessário considerar o sentido contextual, analógico e histórico. O vocábulo "exegese" vem do grego exegesis, duas palavras ek e egeomai, que juntas significam: "extraio, tiro, saco", de sacar, conduzir para fora. A "exegese" é a ciência da interpretação, é a extração do autêntico sentido da palavra. É a análise do que a palavra diz, e não do que eu quero que ela diga. As doutrinas bíblicas são de dentro para fora. Isso se chama exegese. As dos homens, são de fora para dentro, a eisegese. Esse último os cristãos ortodoxos rejeitam, mesmo que apareçam travestidas de roupagens bíblicas."[1]

       "Podemos afirmar também que "a exegese é o estudo cuidadoso e sistemático da Escritura para descobrir o significado original que foi pretendido. (...) É a tentativa de escutar a Palavra conforme os destinatários originais devem tê-la ouvido; descobrir qual era a intenção original das Palavras da Bíblia" [2]

        Quando lemos um capítulo ou versículos da Bíblia, por mais que saibamos que aquela passagem se destina também á nós hoje (pois a Palavra de Deus é viva), temos que entender que ela tinha um objetivo, um destinatário, um propósito um pouco diferente da nossa realidade. Tirar um texto do seu contexto pode acarretar em um sério problema interpretativo. Por exemplo: algumas pessoas pegam sua Bíblia e pedem á Deus que falem com elas. Abrem aleatoriamente em qualquer versículo, completamente descontextualizado e acreditam que a sua interpretação pessoal ou sua "eisegese" seria a resposta de Deus para os seus problemas. Conta-se que certo cristão pegou sua Bíblia e foi ver o que Deus tinha para ele. Abriu aleatoriamente e caiu em Mt. 27.5:  "E ele, atirando para o templo as moedas de prata, retirou-se e foi-se enforcar."
Pensou: bom, vamos ver o que Deus quer falar. E abriu novamente sua Bíblia. O texto que saiu foi Lc. 10.37: "E ele disse: O que usou de misericórdia para com ele. Disse, pois, Jesus: Vai, e faze da mesma maneira."

       Será que Jesus queria que o irmão fosse se enforcar como Judas? Ou corremos sérios riscos quando descontextualizamos os versículos Bíblicos? Não podemos colocar as nossas emoções, sentimentos e vontades acima da exegese."O que fala a mim" ou "o que me toca" são preocupações egocêntricas de quem quer ver na Palavra de Deus uma caixinha de promessas, pronta para tirarmos bênção e prosperidade, sem entender que existe um "se" por trás dessas dádivas de Deus. A "caixinha de promessas" só mostra o que você vai receber, mas não traz as condições para isso.

A Bíblia e as seitas

       De todos os livros do mundo, creio que a Bíblia seja o mais maltratado, pois muitas pessoas usam de passagens isoladas para construir doutrinas e seitas. As inúmeras seitas cristãs ou igrejas pseudocristãs se utilizam de interpretações equivocadas para embasar as mais variadas heresias e distorções. Por exemplo: algumas igrejas neopentecostais se utilizam do Antigo Testamento para criar as mais absurdas campanhas em seus templos, ignorando completamente a sociedade, cultura, dispensação, cronologia e propósitos divinos para a ocasião. Se utilizam de "atos proféticos" e de elementos sincréticos, como Arca da Aliança, Candelabro, Talit, kipá desassociando esses elementos de seus reais propósitos e fazendo um tremendo malabarismo e uma péssima exegese para tentar se utilizar desses recursos na atual dispensação. 

       Seitas como os testemunhas de Jeová e os mórmons, além de usarem de uma falsa interpretação, mutilam o texto bíblico ou complementam com outras literaturas "divinamente" reveladas. Os espíritas vão além, criando a sua própria interpretação dos textos sagrados, negligenciando completamente a boa hermenêutica. E, ainda grupos ortodoxos, que por falhas na observância das regras de exegese, criam doutrinas que escravizam seus membros, proibindo coisas que a Bíblia não proíbe ou colocando fardos pesados sobre seus membros, baseados em opiniões pessoais, doutrinas humanas, falsa piedade ou interpretações particulares.

E o Espírito Santo? Como que Ele ilumina os cristãos para compreenderem a Palavra?


       "Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente. Mas o que é espiritual discerne bem tudo, e ele de ninguém é discernido. Porque, quem conheceu a mente do Senhor, para que possa instruí-lo? Mas nós temos a mente de Cristo.(1 Coríntios 2:14-16)


       Um professor Universitário de Teologia pode compreender perfeitamente toda a Doutrina Bíblica mas ser um ateu. Ele pode saber usar todas as regras de Hermenêutica  e exegese, conhecer as línguas originais, saber interpretar corretamente as parábolas, símiles, alegorias e mesmo assim ser um descrente inveterado. Ele pode fazer aquilo que a nossa razão e inteligência permite, mas se ele não tiver uma disposição intelectual para aceitar aquilo que ele conhece, ou seja, permitir que o Espírito Santo, o ilumine para aplicar em sua vida o conhecimento divino, ele não passará de um mero entendedor de regras.  

       "Não há dúvidas que a Bíblia exige um conjunto diferente de regras. É preciso que o intérprete seja iluminado espiritualmente para que possa compreender a Escritura.Todavia é preciso não exagerar na dose. Não há duas lógicas e duas hermenêuticas no mundo, uma natural e outra espiritual. O que Paulo tem em mente em 1Coríntios 2.14-16 é a aplicação e a significação pessoal do significado básico que se depreende de suas palavras. É lógico que o indivíduo precisa também revestir-se de um estado mental e de uma disposição intelectual própria para começar a compreender assuntos para os quais não se acha naturalmente inclinado - seja no campo da astrofísica, da matemática, da poesia ou da Bíblia. Consequentemente, não se pode tomar a palavra de Paulo e afirmar com base nela que sem o Espírito ninguém pode compreender a Bíblia, a menos que se deixe guiar por Ele. Tal afirmativa contradiz frontalmente tanto a experiência quanto os ensinamentos da Escritura, segundo o qual os homens serão julgados também por rejeitarem aquilo que a Bíblia declara ser extremamente claro a todos, porque recusam-se a aceitá-lo.(...) Cremos que é obra especial do Espírito Santo convencer as pessoas a entenderem essa relação, acreditarem nela e a viverem de acordo com ela. Isso, porém, não contradiz o fato de que Deus quis que Sua revelação fosse compreendida".[3]

        "Em contraste com o homem espiritual está o homem natural. A palavra para natural (psychikos) sempre denota “a vida do mundo natural e aquilo que pertence a ele, em contraste com o mundo sobrenatural, que é caracterizado pelo pneuma (espírito)”. Portanto, o homem natural é “aquele que possui... simplesmente o órgão da percepção puramente humana, mas que ainda não possui o órgão da percepção religiosa no... espírito”. O homem natural possui apenas os poderes comuns do homem separado de Deus; como tal, ele não compreende as coisas do Espírito de Deus... e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente. Visto que as habilidades naturais do homem “são totalmente corruptas por causa do pecado, consequentemente toda a atividade de sua alma e mente será obscurecida”[4]

     As regras de hermenêutica e exegese Bíblicas servem como um norteador para estudantes, professores, críticos e cristãos, crentes e descrentes e para um bom entendimento dos textos e doutrinas, mas ela é ineficiente para salvar o pecador, pois essa é a função do Espírito Santo de Deus, que "convence o homem do pecado, da justiça e do juízo" (Jo. 16.8) Mas isso não significa de devemos deixar de lado o estudo sistemático da Palavra de Deus, pois na hora de instruirmos as pessoas no caminho da Salvação, ou argumentarmos com pessoas escravizadas pelas seitas, o Espírito Santo usará o nosso conhecimento e nos lembrará das palavras previamente aprendidas, "para estarmos sempre preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós."(1Pe. 3.15)

       A hermenêutica, como toda ciência, tem seus critérios e métodos que se não forem bem observados trarão um resultado final diferente para cada observador. E infelizmente temos visto isso muito por aí.

Professor Saulo Nogueira
Paz á todos que estão em Cristo Jesus.


Referências Bibliográficas:

[1]Soares, Ezequias. Manual de Apologética cristã. Defendendo os fundamentos da verdadeira fé bíblica - São Paulo; 2º edição: CPAD, 2003

[2]D. Free, Gordon, Stuart, Douglas. Entendes o que lês? São Paulo; 2º edição: Editora Vida Nova, 1997

[3]Geisler, Norman L. A inerrância da Bíblia - São Paulo: Editora Vida, 2003

[4]Comentário Bíblico Beacon - Rio de Janeiro; 1° edição: CPAD, 2006

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

A Parábola do bom Samaritano como você nunca viu.

"Irmãos, não sejais meninos no entendimento,
mas sede meninos na malícia, e adultos no entendimento."
(
1 Coríntios 14:20)
      Ótima ilustração! Leia essa engraçada descrição da Parábola do Bom Samaritano, escrita pelo Teólogo Luiz Gustavo Assis, bacharel em teologia. Conhecimento superficial da Bíblia não era exatamente o problema desse jovem. Compreendê-la de maneira sensata e lógica era sua maior necessidade. 

       “Sam, poderia nos contar a parábola do bom samaritano?”, perguntou o pastor responsável por entrevistar o jovem que desejava se tornar ministro. Sam começou a contá-la: “Um homem estava viajando de Jerusalém para Jericó e ele caiu no meio dos espinheiros. Aconteceu que ele perdeu o dinheiro. Então, ele se dirigiu à rainha de Sabá, e ela lhe deu mil talentos de ouro e uma centena de vestes. O homem tomou uma carruagem e dirigiu ferozmente. Enquanto ele dirigia, seu cabelo ficou preso numa árvore. Ele ficou pendurado lá muitos dias e os corvos trouxeram comida para ele comer e água para beber. Mais tarde, quando novamente estava faminto, ele comeu cinco pães e dois pequenos peixes. E uma noite, enquanto ele estava dormindo, pendurado ali, sua esposa Dalila veio e cortou seu cabelo, e ele caiu em um solo pedregoso. Nisso, começou a chover por quarenta dias e quarenta noites, até que ele entrou numa caverna e sobreviveu comendo gafanhotos e mel silvestre. Então, ele encontrou um servo de Deus que disse: ‘Venha jantar em minha casa’, mas ele começou a dar desculpas e respondeu: ‘Não, eu não vou. Casei-me com uma mulher e não posso ir.’ Após ter sido pressionado pelo servo de Deus, ele foi. Logo depois do jantar, ele se dirigiu para Jericó. Chegando lá, ele viu a rainha Jezabel sentada numa janela, no alto. Ela riu desse homem o que o fez ordenar: ‘Joguem essa mulher para baixo.’ Eles a jogaram. O homem novamente disse: ‘Joguem-na para baixo.’ E eles a jogaram de novo, setenta vezes sete. Os restos que sobraram encheram doze cestas. Então eles lhe perguntaram: ‘Na ressurreição, de quem ela será esposa?’”

       Por mais engraçada que essa ilustração seja, nos mostra a necessidade de um conhecimento mais aprofundado das Escrituras Sagradas. Decorar versículos a esmo e utilizá-los fora do contexto causa tantos problemas como não conhecer a Bíblia.

"Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino." (1 Coríntios 13:11)

Paz á todos que estão em Cristo Jesus.
Prof. Saulo Nogueira

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Posso todas as coisas Naquele que me fortalece?


       Muitas vezes andando na rua, vemos muitos carros de pessoas cristãs ou não, com dizeres supostamente Bíblicos, estampados em seus vidros ou lataria, evidenciando uma promessa ou uma vitória que tenha recebido. Não tenho nada contra quem coloca adesivos tipo "Deus é fiel", "propriedade do Senhor Jesus", "foi Deus que me deus", etc. Essa não é a questão aqui. A questão é que muitas dessas interpretações fogem do escopo de uma boa exegese Bíblica. Um versículo muito utilizado é Filipenses 4.13: "Posso todas as coisas naquele que me fortalece". Infelizmente, também é um dos versículos  mais mal compreendidos das Escrituras. Na realidade este texto é entendido exatamente o contrário do que pretendido pelo autor. A interpretação popular,  muitas vezes vinculada á uma Teologia Triunfalista, imagina que esse texto diz: "Eu posso alcançar tudo o que eu desejar" ou "vencerei todos os  meus obstáculos", ou até "comigo ninguém pode", nada mais distante da realidade.


       Todo estudante e leitor da Bíblia, tem uma obrigação de buscar o sentido correto do texto, ou seja, aquele pretendido por Deus, e transmitido pelo se interlocutor humano, pois as Palavras de Deus, descontextualizadas, se transformam nas palavras do Diabo (cf. Mt.4). A ideia que se pode descobrir algo "escondido","oculto" ou "especial" no texto é falsa e deve ser abandonada, pois reflete um pensamento do movimento gnóstico, considerado como herético pela Igreja desde longa data. Mas vamos ao texto. O que o Apóstolo Paulo tinha em mente quando escreveu essas Palavras para os irmãos Filipenses?

       Primeiramente, quando queremos nos aprofundar no sentido verdadeiro de uma passagem, devemos recorrer ao texto grego (ou Hebraico) para entender o sentido original do texto. A palavra "fortalece" nesse contexto, segundo Strong 1412, vem de "dunamis" (cf. dinamite), que nos traz o sentido de poder, força, o que intensifica o fortalecimento dado por Cristo no versículo. Mas nesse caso e na maioria das vezes, o texto em português, expressa com suficiência o conteúdo do verso em grego, devido a boa qualidade das versões que temos na nossa língua. Então  teremos que recorrer a uma das regras básicas da exegese Bíblica: o contexto.

        Filipenses é conhecida por ser uma das epístolas da prisão, juntamente com Efésios, Colossenses e Filemon. Os textos de 1.7,13,14 e 17 deixam muito claro que o Apóstolo Paulo estava encarcerado quando escreveu suas epístolas. Surpreendentemente Filipenses é uma das epístolas mais pacíficas do Novo Testamento, pois Paulo quase não apresenta censura á Igreja. Luiz Sayão Teólogo e Hebraísta nos traz uma interessante nota:
"(...) um dos temas de encorajamento que marca a epístola é "alegria". O verbo alegrar-se (chairo) aparece em 1.18,2.17,18,28,3.1,4.4 e 4.10; regozijar (synkairo) está em 2.17 e 18. O imperativo plural é contundente, aparecendo em 2.18 e 4.4, o famoso texto que diz: "Alegrem-se sempre no Senhor. Novamente direi: alegrem-se!" É impressionante ver um preso exortando os demais á alegria".[1]
      
       Apesar da alegria de Paulo e de sua motivação aos irmãos de Filipos, o local de onde a carta foi escrita foi de uma prisão fria, mal cheirosa e repugnante, (Roma talvez) demonstrando exatamente o sentido real que o autor quer transmitir, ou seja: posso estar preso, com frio, fome e  nudez. Posso estar enfermo ou com saúde, empregado ou desempregado, ter fartura ou estar em dificuldades, mas apesar de todas essas coisas e de enfrentar qualquer situação difícil o Senhor me fortalece e me dá forças suficientes para suportar as agruras do meu ministério. Não adianta recitar o versículo 4.13 e passar por cima do contexto dos versos 11 e 12:

"Não estou dizendo isso porque esteja necessitado, pois aprendi a adaptar-me a toda e qualquer circunstância. Sei o que é passar necessidade e sei o que é ter fartura. Aprendi o segredo de viver contente em toda e qualquer situação, seja bem alimentado, seja com fome, tendo muito, ou passando necessidade." (NVI)
      
       Agora sim, você pode soltar a máxima: "posso (ou suporto) todas as coisas Naquele que me fortalece", afinal o que Paulo "pode" aqui não significa "tenho capacidade para conseguir", muito menos quer dizer que "tenho direito a isso", mas ao contrário, "poder" aqui significa que a fartura também não permite que Paulo sirva menos á Deus. A essência e a máxima do texto seria, como diz Sayão: "aprendi o segredo de viver contente com toda e qualquer situação"[2].

Paz á todos que estão em Cristo Jesus.
Prof. Saulo Nogueira

[1] Sayão, Luiz A. Agora sim! Teologia na prática do começo ao fim, São Paulo: Hagnos, 2012.
[2]ibid.