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quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Embriologia e design inteligente (parte 3)

                O desenvolvimento fetal

     A partir da nona semana após a concepção tem início o período fetal, que se estende até o dia do nascimento, regra geral, 266 dias ou 38 semanas depois da concepção. Esse período se caracteriza pela maturação de tecidos e órgão e o crescimento rápido do corpo envolvendo um processo de intenso aprimoramento de todos esses órgãos e tecidos, que até então possuíam estrutura rudimentar. Uma das mais notáveis modificações que se verificam nesse período é o desenvolvimento da cabeça do feto que se torna mais lento em relação ao restante do seu corpo. 

       Nessa etapa, o feto já consegue rolar de trás para frente e para todos os lados com elegância e, de tempos em tempos, dá suaves cambalhotas para trás e para a frente. As atividades mais modestas são um balanço para os lados. Faz movimentos preguiçosos com as pernas e escancara os braços. Na nona semana, o comprimento do feto é de cerca de 30 milímetros. Ao longo do período que vai da nona semana até a décima segunda semana após a concepção, começa a formação da urina. Durante o terceiro mês a face adquire uma aparência “mais humana”. Inicialmente mais laterais, os olhos agora movem-se ventralmente na face e as orelhas vêm a situar-se próxima de sua posição definitiva. Os membros atingem seu comprimento relativo em comparação ao resto do corpo, embora os membros inferiores ainda sejam um pouco mais curtos e não estejam tão bem desenvolvidos quanto as extremidades superiores. Centros de ossificação primária estão presentes nos ossos longos e no crânio por volta da 12ª semana, onde já se consegue determinar o sexo do feto através do exame de ultrassonografia. Curioso registrar que a genitália externa dos fetos masculino e feminino tem aparência semelhante até o fim da nona semana.

Funções da Placenta

       Da décima terceira à décima sexta semana após a concepção, o crescimento do feto se intensifica ainda mais, graças ao funcionamento pleno da composição placentária. E com esse crescimento, sua necessidade de fatores nutricionais e outros fatores aumenta, causando alterações importantes na placenta. A principal dentre estas é um aumento da área de superfície entre os componentes maternos e fetais, para facilitar as trocas. A placenta e o cordão umbilical funcionam como um mecanismo de transporte entre a mãe e o feto. Os nutrientes passam do sangue materno para o sangue fetal, enquanto as excretas passam do feto para a mãe. A disposição das membranas fetais também é alterada ao aumentar a produção de líquido amniótico. Além disso, a placenta ainda tem outras funções, que são indispensáveis à vida do feto:

Troca de gases: A troca de gases, como oxigênio, dióxido de carbono e monóxido de carbono é feita por difusão simples. O feto extrai cerca de 20 a 30 ml de oxigênio por minuto da circulação materna e qualquer interrupção desse suprimento de oxigênio é fatal. O fluxo sanguíneo placentário é fundamental para o suprimento de oxigênio, pois a quantidade de oxigênio que chega ao feto depende basicamente da entrada e não da difusão. Durante o período uterino, o bebê não respira – pelo menos não no sentido usual.  Ele recebe todo o oxigênio necessário para as funções do seu organismo através do chamado sistema circulatório fetal, em que a placenta e o cordão umbilical são responsáveis por fornecer oxigênio e nutrientes para o desenvolvimento do feto, bem como pela remoção de produtos residuais. Portanto, o oxigênio chega pelo sangue da mãe e circula do coração para os pulmões do feto; em seguida, para fora do corpo. Leia esse artigo sobre a complexidade da primeira respiração.

Troca de Nutrientes e eletrólitos: A troca de nutrientes e eletrólitos, como aminoácidos, ácidos graxos livres, carboidratos e vitaminas é rápida e aumenta com o avanço da gravidez.

Transmissão de anticorpos maternos: A competência imunológica começa a desenvolver-se tardiamente no primeiro trimestre, ocasião em que o feto produz todos os componentes do complemento. As imunoglobulinas consistem quase totalmente em imunoglobulina materna G (IgG), que começa a ser transportada da mãe para o feto aproximadamente 14 semanas. Desse modo, o feto adquire uma imunidade passiva em relação a diversas doenças infecciosas. Os recém-nascidos começam a produzir sua própria IgG, mas não são atingidos níveis adultos senão por volta dos três anos de idade.

Produção de hormônios: No final do quarto mês a placenta produz progesterona em quantidade suficiente para manter a gravidez se o corpo lúteo for removido ou não funcionar adequadamente. Com toda a probabilidade os hormônios são sintetizados no trofoblasto sincicial. Além da progesterona, a placenta produz quantidades crescente de hormônios estrogênicos, predominantemente estriol, somente até antes do fim da gravidez, quando é atingido um nível máximo. Esses níveis elevados de estrógeno estimulam o crescimento uterino e o desenvolvimento das glândulas mamárias. Além de outros hormônios produzidos pela placenta, não podemos de deixar de citar a somatomamotrofina ou somatotrofina coriônica humana (anteriormente lactogênio placentário), substância semelhante ao hormônio de crescimento, que dá ao feto prioridade sobre a glicose sanguínea materna e torna a mãe algo diabetogênica. Essa substância também promove o desenvolvimento da mama para a produção de leite. Infelizmente, muitas drogas e muitos metabólitos de drogas atravessam a barreira placentária e causam danos graves ao bebê. Além disso, o uso materno de heroína e cocaína podem causar hábito no feto.

       Cabem aqui algumas perguntas: se o desenvolvimento humano fosse fruto da evolução, como seria possível essa interligação tão perfeita entre a mãe e o bebê pela placenta? Se a placenta, desde o início, não fosse projetada para nutrir e oxigenar o feto, como seria possível sua sobrevivência, visto que uma “placenta primitiva” não conseguiria cumprir com essas funções? A embriologia é uma das maiores provas de que é necessária uma estreita sintonia entre todas as estruturas, tanto da mãe quanto de bebê, para o correto andamento da gestação. Qualquer falha ou mudança gradual nesse processo, o tornaria fatal para a continuação da espécie.

O crescimento do feto

     Nesse período, inicia-se a ossificação propriamente dita do esqueleto do feto. No término dessa etapa, a cabeça se torna bem menor se comparada com a do feto de doze semanas e os membros inferiores já se apresentam mais longos. No feto feminino, com dezesseis semanas, os ovários estão diferenciados e possuem folículos primordiais com ovogônias. No período que se estende da décima sétima à vigésima semana após a concepção, a velocidade de crescimento do feto diminui, não obstante os membros inferiores atinjam as suas proporções relativas finais e os movimentos do feto já podem ser percebidos pela mãe.

     O feto fica suspenso no líquido amniótico, que tem a função de: absorver golpes, possibilitar os movimentos fetais e impedir a aderência do embrião aos tecidos circundantes. O sistema é tão perfeito e com uma relação tão harmônica, que o feto engole o líquido amniótico, que é absorvido por meio do seu trato digestivo e eliminado pela placenta, pois o volume excessivo de líquido amniótico (hidrâmio) associa-se à anencefalia e atresia esofágica. Já um volume insuficiente do líquido (oligoidrâmio) está relacionado à agenesia renal.

     No feto feminino, com dezoito semanas, o útero já está formado e se inicia a canalização da vagina. No feto masculino, com vinte semanas, os testículos começam a descer, mas ainda estão localizados na parede abdominal posterior. Por volta da vigésima semana após a concepção, o feto já tem todos os neurônios que terá para sempre em seu cérebro. São bilhões deles. Essa também é a ocasião em que ele começa a mostrar variações no número de seus batimentos cardíacos. Da vigésima primeira à vigésima quinta semana após a concepção, o feto tem um considerável ganho de peso. O corpo ainda magro, em seu conjunto, já se mostra bem proporcional. Embora os fetos de vinte e duas a vinte e cinco semanas possam sobreviver, caso dados à luz prematuramente, eles geralmente sucumbem em razão da imaturidade de seu sistema respiratório.

       Na etapa da trigésima à trigésima quarta semana após a concepção, a pele rosada do feto deixa de ser enrugada e os seus membros inferiores e superiores exibem um aspectos mais arredondados. Da trigésima quinta à trigésima oitava semana, toda a aparência do feto é rechonchuda, como consequência do depósito de gordura subcutânea e a sua cabeça possui circunferência maior do que qualquer outra parte do corpo, que é um fator de extrema importância em relação à sua passagem pelo canal de parto.

Preparado para nascer

       
       O parto é o processo de nascimento durante o qual, após a dilatação (aumento) e a obliteração (achatamento) da cérvix (orifício na base do útero), o feto, a placenta e as membranas fetais são expelidos do trato reprodutivo da mãe. Com o nascimento, estabelece-se uma mudança radical no ambiente existencial do ser humano dado à luz. O bebê passa a obter alimentos pela boca e oxigênio através dos pulmões. Esta mudança, entretanto, exige adaptações e não rompimentos. Os pulmões, por exemplo, não são “funcionais” durante a vida pré-natal, já que o sistema cardiovascular do feto é estruturalmente projetado de modo que o sangue seja oxigenado na placenta. Assim, as modificações que estabelecem o padrão circulatório pós-natal não são abruptas, mas estendem-se ao longo da primeira infância. 


     Nas primeiras 34 a 38 semanas de gestação, o miométrio uterino não responde a sinais para o parto (nascimento). Durante as duas a quatro últimas semanas da gravidez, porém, esse tecido passa por uma fase de transição em preparação para o início do trabalho de parto. Essa fase terminal afinal com o miométrio na região superior do útero mais espesso, enquanto na região inferior e no colo ele é mais mole e mais fino. Quando o útero se contrai a parte superior se retrai, produzindo uma luz cada vez menor, enquanto a parte inferior se expande, dando assim direção à força. As contrações se iniciam geralmente e intervalos de cerca de 10 minutos. Mas durante o segundo estágio do trabalho de parto podem ocorrer em intervalos de menos de um minuto e durar de 30 a 90 segundos. Sua ocorrência em pulsos é essencial para a sobrevida fetal, pois elas têm força suficiente para comprometer o fluxo sanguíneo uteroplacentário para o feto.

     É interessante pontuarmos, que durante a fase fetal, os ossos do bebê continuam a endurecer, exceto os do crânio, que se mantêm macios e flexíveis. Isso irá permitir que, no parto eles se sobreponham durante a passagem da cabeça do bebê pelo canal vaginal. Por seu turno, os ossos mantêm-se separados por uma zona membranosa flexível, a que se chama fontanelas (moleiras), até sensivelmente os dois anos de idade, período em que se finaliza a ossificação. Sem esse engenhoso mecanismo os bebês não conseguiriam passar pelo canal vaginal. Além disso, o corpo da mulher produz um hormônio chamado relaxina, que causa um amolecimento das articulações pélvicas e das suas cápsulas articulares, o que dá a flexibilidade necessária para o parto, diminuindo a união dos ossos da pelve e alargando o canal de passagem do feto. Assim, a pelve da mulher também dilata para permitir a passagem do bebê. Para facilitar ainda mais o parto, o recém-nascido nasce coberto por um material esbranquiçado e gorduroso denominado vérnix caseosa. Ele ajuda a diminuir o atrito, facilitando a saída do bebê através do canal do parto, e também funciona como uma barreira de proteção contra bactérias e fungos e na termo regulação. Prova incontestável de um projeto muito bem elaborado!

        É importante lembrar que os órgãos reprodutivos da mulher têm uma capacidade elástica muito grande. O útero vazio não mede mais de 8cm de diâmetro, e se expande para sustentar um bebê, sua placenta e líquido amniótico, que às vezes passam dos cinco quilos. A vagina da mulher também faz coisas incríveis. É um espaço virtualmente inexistente, ou seja, só existe quando preenchido. Quando não tem nada dentro, as paredes da vagina se tocam. E ela se adapta exatamente à forma e ao tamanho do que a preenche, inclusive um bebê! Mãe e bebê vão adaptar seus corpos para o nascimento, e ambos são feitos de forma que seus corpos voltem ao normal depois.

       A ocitocina endógena, que estava sendo produzida em grandes quantidades para aliviar a dor, agora está sendo produzida sem que haja dor, e acontece o que se chama de pico de ocitocina. Esse pico de ocitocina produz uma sensação de imenso amor e prazer, a sensação de se apaixonar, que, juntamente com o alívio pela dor ter acabado e da alegria pela chegada do bebê. Pai e mãe, agora podem tomar o novo ser nos braços e contemplar mais uma fascinante obra prima, com a assinatura de um designer. 



Esse vídeo resume todo o processo, desde a concepção:



Prof. Saulo Nogueira

Colaborou nesse artigo: Everton Fernando Alves - Enfermeiro - Mestre em Ciências da Saúde pela UEM.

Referências:

Sadler, TW. Langman Fundamentos de embriologia médica. Rio de Janeiro (RJ): Guanabara Koogan; 2007.

MOORE, Keith L. Embriologia básica. Tradução de Fernando Simão Vugman. Rio de Janeiro: Editora Guanabara Koogan, 1991.

HARRISON, R. G. Clinical embryology. Embriologia clínica. Tradução de Patrícia Lydie Voeux Pinho. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1980.

SILVA, Reinaldo Pereira. Reflexões éticas sobre o estatuto da Vida: Uma abordagem político-jurídica da concepção humana (Tese apresentada ao curso de pós-graduação em direito para a obtenção do título de Doutor em Direito), disponível em 
file:///D:/Meus%20documentos/Downloads/179126%20(1).pdf

http://www.criacionismo.com.br/2015/07/a-primeira-respiracao-do-bebe-e.html;




sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Embriologia e design inteligente (parte 2)

           
            Gastrulação

O chamado período embrionário em sentido restrito, que sucede imediatamente ao período do embrião pré-implantatório, se inicia na terceira semana após a concepção e se estende até o final da oitava semana. Ao término desse período, todos os órgãos e os tecidos do corpo humano já possuem uma estrutura rudimentar e o desenvolvimento do trofoblasto, com a troca de nutrientes e outras substâncias entre as circulações materna e embrionária, garante a formação total das várias estruturas de apoio, entre elas, a placenta e o âmnio. A placenta, com o seu desenvolvimento completo após quatro semanas a contar da concepção, serve de fígado, pulmões e rins para o embrião e para o feto.

O evento mais característico durante a terceira semana de gestação é a gastrulação, processo que estabelece os três folhetos germinativos (ectoderma, mesoderma e endoderma) no embrião. Esse é um dos processos mais fascinantes dentro do período gestacional, pois segundo Keith Moore, “é o processo formativo pelo qual as três camadas germinativas, que são precursoras de todos os tecidos embrionários, e a orientação axial são estabelecidas”. Dessa forma, será neste período que o disco embrionário bilaminar transformar-se-á em um disco embrionário trilaminar, ocorrendo inúmera mudanças morfológicas, rearranjo movimentos das células e mudanças nas propriedades adesivas, contribuindo para o processo de gastrulação. Neste período, o embrião também pode ser chamado de gástrula. 

A gastrulação começa pela formação da linha primitiva na superfície do epiblasto. Inicialmente a linha é mal definida, mas num embrião de 15 a 16 dias ela é bem visível como um sulco estreito, com regiões discretamente salientes de cada lado. A extremidade cefálica da linha, o nó primitivo, conhecido como nó de Hansen, consiste em uma área discretamente elevada circuncidando a fosseta primitiva. Logo em seguida, as células do epiblasto migram em direção à linha primitiva tomando a forma de um frasco, desprendendo-se do epiblasto e passam sobre o mesmo. Este movimento internamente dirigido é denominado invaginação. Uma vez invaginadas as células, algumas delas deslocam o hipoblasto (ou endoblasto), contribuindo para a sua diferenciação em endoderma, enquanto outras situam-se entre o epiblasto e o recém originado endoderma, formando o mesoderma. As células remanescentes no epiblasto formam então, por diferenciação, o ectoderma. Por meio da gastrulação, portanto, deduz-se que o epiblasto é responsável pela origem de todos os folhetos germinativos e que as células destes folhetos darão origem a todos os tecidos e órgão no embrião. Essas diferenciações das células dos folhetos germinativos darão origem as estruturas de acordo com o esboço a seguir:

Ectoderma:
- Epiderme e anexos cutâneos (pelos e glândulas mucosas);
- Todas as estruturas do sistema nervoso (encéfalo, nervos, gânglios nervosos e medula espinhal);
- Epitélio de revestimento das cavidades nasais, bucal e anal.

Mesoderma:
- Forma a camada interna da pele (derme).
 - Músculos lisos e esqueléticos;
- Sistema circulatório (coração, vasos sanguíneos, tecido linfático, tecido conjuntivo);
- Sistema esquelético (ossos e cartilagem);
- Sistema excretor e reprodutor (órgãos genitais, rins, uretra, bexiga e gônadas).

Endoderma:
- Epitélio de revestimento e glândulas do trato digestivo, com exceção da cavidade oral e anal;
- Sistema respiratório (pulmão);
- Fígado e pâncreas.



FORMAÇÃO DA NOTOCORDA

Ainda no começo da terceira semana, o nó primitivo produz células mesenquimais que formam o processo notocordal. Enquanto o hipoblasto (endoblasto) é substituído por células endodérmicas movendo-se para a linha primitiva, as células da placa notocordal proliferam e se destacam do endoderma. Elas formam então um sólido cordão de células, o notocórdio definitivo, subjacente ao tubo neural e que serve como base para o esqueleto axial. Como o alongamento do notocórdio é um processo dinâmico, a extremidade cefálica se forma primeiro e as regiões caudais são adicionadas quando a linha primitiva assume uma posição mais caudal. As células do notocórdio se estendem cefalicamente, a partir do nó- primitivo, como um bastão de células entre o ectoderma e o endoderma. A fosseta primitiva penetra no processo notocordal para formar o canal notocordal. Quando totalmente formado, o processo notocordal vai do nó primitivo à placa procordal. Surgem aberturas no soalho do canal notocordal que logo coalescem, deixando uma placa notocordal. A placa notocordal dobra-se para formar a notocorda:

-  A notocorda define o eixo primitivo do embrião dando-lhe uma certa rigidez;
- Fornece os sinais necessários para o desenvolvimento do embrião axial (ossos da cabeça e da coluna vertebral) e do sistema nervoso central;
- Contribui na formação dos discos intervertebrais.




FORMAÇÃO DO TUBO NEURAL

A placa neural aparece como um espessamento na linha média do ectoderma embrionário, em posição cefálica ao nó primitivo. Nessa fase começa a formação do primórdio do sistema nervoso central. O desenvolvimento da placa neural e o seu dobramento para formar o tubo neural é chamado neurulação. A placa neural é induzida a formar-se pelo desenvolvimento da notocorda e do mesênquima que lhe é adjacente. Um sulco neural, longitudinal forma-se na placa neural; o sulco neural é flanqueado pelas pregas neurais, que se juntam e se fundem para originarem o tubo neural. Estes processos, que se iniciam na terceira semana após a concepção, estão concluídos pelo fim da quarta semana, quando se fecham as aberturas nas extremidades cefálica e caudal do tubo neural, denominadas neuroporos rostral e caudal. Interessa ressaltar que, devido às pregas neurais, o disco embrionário trilaminar assume ao longo da quarta semana após a concepção uma forma ligeiramente curvada no plano mediano. Nessa etapa do desenvolvimento embrionário, o coração, que produz uma grande proeminência ventral, bombeia um filete de sangue recém-formado através de vasos ínfimos. 

     O dobramento do embrião também se dá no plano horizontal e produz as pregas laterais direita e esquerda. No entanto, a velocidade de crescimento lateral do embrião não acompanha a do crescimento do eixo longitudinal. Daí porque, ao final da quarta semana após a concepção, a cauda atenuada do embrião é-lhe um traço característico, sendo reconhecíveis, antes ainda, os brotos dos membros superiores, por primeiro, e dos membros inferiores, na sequência. Ainda durante o dobramento nos planos mediano e horizontal, convertendo o disco embrionário trilaminar em um cilindro em forma de "c", ocorre um evento importante: parte do saco vitelino é incorporada pelo embrião e origina o intestino primitivo, do qual derivam o epitélio da traqueia, dos brônquios, dos pulmões e do trato digestivo. É importante pontuar que o saco vitelino, desempenha um papel essencial na transferência de nutrientes para o embrião durante a quarta e a quinta semanas após a concepção, período em que a circulação uteroplacentária ainda está se formando.

      Cabe uma pergunta aqui: como esses processos seriam realizados perfeitamente, visto que, segundo a concepção evolucionista se deram por um processo cego e ao acaso? Será que todas essas estruturas evoluíram simultaneamente, para conferir nutrição adequada ao embrião, possibilitando seu desenvolvimento? Ou será que essas estruturas já foram criadas com esse propósito, por um design, que desde o início “programou” nosso DNA para que, através dessa “programação” todas essas estruturas trabalhassem perfeitamente? De onde veio essa informação. Existe uma lei da informação que diz que nenhum processo natural pode produzir informação inteligente e que informação inteligente somente pode ser produzida por um intelecto.  Mediante as evidências e a extrema complexidade desses eventos, cremos num design inteligente, autor da vida e não em processos cegos e aleatórios que visam produzir o caos e não a ordem.

FORMAÇÃO DOS SOMITOS

O mesoderma de cada lado da notocorda se espessa para formar as colunas longitudinais do mesoderma paraxial. A divisão dessas colunas mesodérmicas paraxiais em pares de somitos começa cefalicamente, no final da terceira semana. Os somitos são agregados compactos de células mesenquimais, de onde migram células que darão origem às vértebras, costelas e musculatura axial.

FORMAÇÃO DO CELOMA

O celoma intra-embrionário surge como espaços isolados no mesoderma lateral e no mesoderma cardiogênico. Estes espaços celômicos coalescem em seguida para formarem uma cavidade única em forma de ferradura, que, no final, dará origem às cavidades corporais (e.g.,a cavidade peritoneal). Nesse primeiro mês de vida o embrião sofrerá várias transformações maravilhosas, a maior mudança no desenvolvimento de uma vida. As centenas de células se transformam em milhares e, juntos, tornam-se 10 mil vezes maior que o aglomerado de células inicial. A maravilha de tudo isso é que essas inúmeras células se organizam em um corpo humano, com o início de todos os seus componentes perfeitamente especializados, todos em seus lugares certos e alguns já praticam suas funções.

Durante a quinta semana após a concepção, o aumento da cabeça excede o de outras regiões do corpo do embrião, causado principalmente pelo desenvolvimento do encéfalo, e os membros superiores começam a exibir alguma diferenciação local. Ao longo da sexta semana, os membros superiores do embrião mostram uma rápida diferenciação em relação aos membros inferiores. Nessa etapa, a cabeça do embrião é muito maior em relação ao seu tronco e se apresenta mais curvada sobre a saliência cardíaca. Na penúltima semana do período embrionário, todos os órgãos e todos os tecidos de um ser humano adulto já estão esboçados em miniatura e em franco funcionamento, destacando-se, no processo morfogenético, os membros superiores e os membros inferiores, que passam, então, por significativa transformação, como a formação dos dedos. Se na sexta semana após a concepção o embrião já mede 8 milímetros de comprimento, na sétima semana o seu comprimento é quase duplicado: 15 milímetros. A partir daí o que se presencia no embrião é um aumento de tamanho e de peso, uma mudança nas proporções e o aprimoramento da estrutura e das funções.

 Muitos órgãos e sistemas orgânicos importantes são formados durante o período que vai da terceira à oitava semana. Este período é crítico para o desenvolvimento normal, designado como período da organogênese. É nesse período que são induzidos muitos defeitos estruturais, influenciados na maioria das vezes por fatores externos, como fumo, álcool e medicamentos. Uma mãe que leva uma vida desregrada  pode causar danos irreversíveis ao seu bebê!

 É oportuno ressaltar que, se no início da última semana do período embrionário ainda permanece visível no embrião a cauda grossa e curta que se formara na quarta semana após a concepção, ao seu final ela desaparece por completo, formando o cóccix. Os evolucionistas se referem ao cóccix como um suposto traço vestigial de nossa descendência dos ancestrais que tinham cauda, porém pesquisas mais recentes refutaram essa argumentação como pode ser lido nessa postagem

No terceiro artigo, entraremos no período fetal e falaremos um pouco sobre os processos envolvidos nessa fase. 

A primeira fase pode ser vista aqui.

Prof. Saulo Nogueira.

Colaborou nesse artigo: Everton Fernando Alves - Enfermeiro - Mestre em Ciências da Saúde pela UEM.

                              
Referências:

Sadler, TW. Langman Fundamentos de embriologia médica. Rio de Janeiro (RJ): Guanabara Koogan; 2007.

MOORE, Keith L. Embriologia básica. Tradução de Fernando Simão Vugman. Rio de Janeiro: Editora Guanabara Koogan, 1991.

Geraldine Lux Flanagan, A Vida Começa. Nova York: DK, 1996.

SILVA, Reinaldo Pereira. Reflexões éticas sobre o estatuto da Vida: Uma abordagem político-jurídica da concepção humana (Tese apresentada ao curso de pós-graduação em direito para a obtenção do título de Doutor em Direito)

Departamento de Histologia e Embriologia da Universidade Federal de Pernambuco.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Embriologia e o design inteligente (parte 1)

(Espermatozoide fecundando o óvulo. Ilustração: koya979 / Shutterstock.com)
A notícia chegou de uma forma meio inusitada. Minha esposa e eu, após cinco anos, decidimos que já estava na hora de termos outro bebê. Agora que a nossa filha mais velha já tem mais autonomia e liberdade para fazer certos tipos de coisas, resolvemos dá à ela um irmãozinho(a). Minha esposa parou de tomar o anticoncepcional e, mais ou menos 40 dias depois fomos à médica para que ela passasse os exames necessários para sabermos se estava tudo bem. Mas para nossa surpresa, minha esposa já estava grávida de seis semanas. Pelas contas, ela teria engravidado já na primeira semana após a última menstruação. Já no primeiro ultrassom, foi possível ver o “saco vitelino” e aquele pequeno ser nas suas primeiras fases de desenvolvimento embrionário. Aproveitando a oportunidade, tive a ideia de fazer algumas postagens analisando a complexidade de cada fase de gestação, a interação mamãe-bebê e os processos de desenvolvimento semanalmente, demonstrando e extrema complexidade da gestação e a impossibilidade de uma explicação naturalista.

Fecundação

Após o ato sexual, milhões de espermatozoides “nadam” em direção ao útero. Essas células reprodutoras são produzidas nos testículos, que são verdadeiros mestres da produção em massa, cuspindo espermatozoides a uma taxa de 200 milhões por dia, numa prefeita linha de montagem. [1] Assim que o espermatozoide entra em contato com o corpo da mulher, começa toda a “magia”. A vagina é revestida por epitélio estratificado pavimentoso, cujas células produzem glicogênio usado para fermentação pelos Lactobacillus acidophilus (bacilos de Döderlein), liberando ácido lático. Isso confere ao meio vaginal um pH ácido, que impede a proliferação da maioria dos micro-organismos patogênicos. Acontece que o pH do sêmen está entre 7,0 e 8,3 e ao entrar em contato com a vagina, ocorreria a morte instantânea dos gametas. Com o pH alcalino do sêmen, o pH da vagina passa, em 10 segundos, de 3,5 para 7,2, permitindo a sobrevivência dos espermatozoides [2]. Essa mudança é indispensável para que os espermatozoides não morram ao entrar em contato com a mucosa vaginal. Isso ocorre, porque os espermatozoides são depositados durante a ejaculação no meio vaginal, protegidos pelo líquido seminal e não isolados. O líquido seminal, inicialmente “coagulado” é lentamente diluído pela acidez vaginal e seus componentes alcalinos funcionam como um tampão. Ao líquido seminal se associa a ação alcalinizante (básica, oposto de ácido) das secreções vaginais que surgem durante a excitação sexual, bloqueando a acidez vaginal em segundos e mantendo o pH adequado à sobrevida espermática por entre 6 e 16 horas [3]. O interessante é que se não ocorresse essa mudança de pH a nova vida já seria eliminada logo no início.

Dos cerca de 300 milhões de espermatozoides eliminados na ejaculação, apenas cerca de 300 atingem a tuba uterina, e somente um fecunda o Ovócito.  A ovulação ocorre através da pressão exercida pelo folículo maduro na superfície do ovário fazendo com que se inicie uma isquemia o que contribui para o enfraquecimento dos tecidos, facilitando a saída do ovócito. Esse ovócito, se desprende do ovário e segue em direção ao útero, impulsionado pelas contrações da tuba uterina e pelos movimentos ciliares do seu epitélio. A presença do ovócito é fundamental na aquisição, antes da fertilização, de propriedades funcionais por parte do espermatozoide, e também imprescindível para a ativação do metabolismo celular do ovócito, o qual será encarregado de conduzir o desenvolvimento durante os primeiros momentos após a fecundação. Como resultado da fecundação, dois padrões serão definidos em princípio: o complemento cromossômico diploide (2n) e o sexo cromossômico (XX, fêmea, e XY, macho). Os espermatozoides só conseguem encontrar o ovócito porque são atraídos por uma substância liberada pelas células foliculares. [4]

Quando o espermatozoide encontra com o ovócito, ele se depara com uma grande “barreira” que impede que ele penetre no óvulo: a corona radiata, um grupo de células foliculares que envolvem o ovócito. Acredita-se que a enzima hialuronidase, liberada do acrossoma do espermatozoide, é responsável pela dispersão das células foliculares da corona radiata. Mas não é só isso que facilita a passagem:  os movimentos da cauda do espermatozoide junto às enzimas da mucosa tubária também contribuem bastante. Além de estruturas semelhantes a “arpões”, pequenos filamentos que existem para ajudar o espermatozoide a se fixar na parede do óvulo e fecundá-lo. [5] Algumas das glicoproteínas presentes nesta zona são receptores específicos da espécie no momento da fertilização. Ou seja, somente espermatozoide humano consegue fecundar óvulo humano.

Após passar pela corona radiata e ao atingir a zona pelúcida, o espermatozoide sofre alterações formando a membrana de fecundação, que impede a penetração de outros espermatozoides no ovócito [6]. Ou seja, somente um consegue atingir seu objetivo. Isso ocorre devido à uma reação química que causa um bloqueio à polispermia.




O óvulo humano normalmente é fertilizado na ampola da tuba uterina e sua segmentação ocorre à medida que ele se desloca passivamente na direção do útero. Após a entrada do espermatozoide, o ovócito secundário termina sua divisão meiótica, formando um óvulo maduro. Começa então uma complexa sequência de eventos moleculares coordenados que se inicia com o contato entre um espermatozoide e um ovócito e termina com a mistura dos cromossomos maternos e paternos, resultando no zigoto, um embrião unicelular. 

      Todo esse processo dura cerca de 24 horas. Já nesse início de formação, as interações devem ser perfeitas, pois quaisquer alterações ocorridas em qualquer estágio dessa sequência, podem causar a morte do zigoto. Esse zigoto, (com 46 cromossomos) é formado da união das duas células. Seus núcleos perdem as membranas e se fundem, dando origem ao início da vida humana. Após a formação do zigoto, começa o processo de sucessivas divisões mitóticas, que resultam em um rápido aumento de células. O zigoto primeiramente se divide em duas células, chamadas de blastômeros, e estes se dividem em quatro blastômeros, estes quatro se dividem em oito e assim sucessivamente. Estas divisões ocorrem enquanto o zigoto atravessa a tuba uterina, em direção ao útero, e geralmente iniciam 30 horas após a fertilização. As repetidas divisões formam uma esfera compacta de células, denominada mórula.

Aproximadamente quatro dias após a fertilização, a mórula penetra no útero e, nesse estágio, surgem espaços entre os blastômeros que são preenchidos por líquidos provenientes da cavidade uterina. Com o aumento de líquido, as células são divididas em duas camadas, uma camada interna (ou embrioblasto) e uma camada externa (ou trofoblasto). Logo os espaços se fundem, e dão origem a uma só cavidade, denominada cavidade blastocística. A partir deste momento, o concepto passa a ser chamado de blastocisto.

O blastocisto permanece livre na cavidade uterina por apenas um ou dois dias, após os quais ele se implantará na parede do útero por ser envolvido pela secreção das glândulas endometriais. Na fase de blastocisto, a zona pelúcida se desfaz, permitindo que as células do trofoblasto, que têm o poder de invadir as mucosas, entrem em contato direto com o endométrio, ao qual se aderem. Ele emite substâncias químicas que debilitam o sistema imunológico da mulher dentro do útero para que este pequeno corpo estranho não seja rejeitado pelo corpo da mãe. Na realidade, é a existência de uma intensa comunicação materno-embrionária que, ao conduzir ao aumento da produção de progesterona na mãe para garantir a manutenção da gestação, também impede a rejeição do blastocisto no exato momento da nidação. Após a nidação, começa a multiplicação intensa das células do trofoblasto que vão assegurar a nutrição do embrião à custa do endométrio. 

As células do trofoblasto produzem enzimas que digerem localmente o endométrio, onde ele se fixa promovendo a implantação ou nidação do embrião no interior da mucosa uterina. A implantação inicia-se por volta do sexto dia e, aproximadamente no nono dia após a fertilização, o embrião se encontra totalmente mergulhado no endométrio, do qual receberá proteção e nutrição até o fim da gravidez [7].

Por volta do décimo dia, estágio em que o embrião já está totalmente implantado no endométrio surge uma grande cavidade envolvendo o âmnio e o saco vitelino primitivo, denominada celoma extraembrionário. O saco vitelino primitivo diminui de tamanho, e surge o saco vitelino secundário, que desempenha importante papel na transferência seletiva do líquido nutritivo para o disco embrionário. Por volta do 14° dia, o embrião ainda apresenta a forma de um disco bi laminar, e células hipoblásticas, formam uma área espessa circular, denominada placa pré-cordal, que indica o futuro local da boca, a região cranial do embrião. Enquanto todo esse processo está ocorrendo dentro do corpo da mãe, provavelmente ela ainda nem saiba que dentro do seu útero já está sendo formado um novo ser.

Esses são os primeiros dias gestacionais, marcado por reações químicas e interações que necessitam de uma interdependência mútua e perfeita. A complexidade irredutível de cada uma dessas fases, faz nos pensar como seria possível que todos esses processos fossem resultado de uma evolução cega e ao acaso. Até que esses mecanismos bioquímicos evoluíssem, como os seres humanos sobreviveram? Para que a evolução fosse crível, todas essas interações teriam que ter evoluído simultaneamente, de forma que a transição ainda fosse funcional. Por isso que eu não tenho fé para ser evolucionista, pois diante de nós está uma das mais marcantes provas de um designer inteligente.

 Na próxima postagem, daremos continuidade a essa maravilhosa viagem pelos processos gestacionais e a demonstração da perfeição e da complexidade de todo o processo, onde falaremos um pouco sobre a gastrulação e o início da morfogênese.

Prof. Saulo Nogueira

Colaborou nesse artigo: Everton Fernando Alves - Enfermeiro - Mestre em Ciências da Saúde pela UEM. 


Esse vídeo resume muito bem essa primeira fase: