quinta-feira, 8 de outubro de 2015

A fraude dos embriões de Haeckel

     Ernst Haeckel, um zoólogo alemão e forte defensor do darwinismo, propôs novas noções de descendência evolutiva dos seres humanos para a sua época.[1]Haeckel usou seus desenhos falsificados para apoiar não só a teoria da evolução, mas também sua própria “teoria da recapitulação”, segundo a qual os embriões passam pelos estágios adultos de seus ancestrais no processo de desenvolvimento. Nas palavras de Haeckel, a “ontogenia [desenvolvimento] recapitula a filogenia [evolução]”. Em outras palavras, isso significa que os estágios adultos de antepassados ​​seriam repetidos durante o desenvolvimento dos descendentes. A versão de Haeckel, com uma visão verdadeiramente evolucionista, foi inspirada em A Origem das Espécies (1859), de Charles Darwin, traduzido para o alemão em 1860.[2]
Haeckel postulou a teoria da recapitulação, a qual se tornou conhecida como a “lei biogenética”. O curioso em relação a essa lei reside no fato de que 38 anos antes da publicação de Haeckel, o anti-evolucionista e embriologista Karl Ernst von Baer publicou sua obra (1828), que foi ignorada por Haeckel.[3] Sua quarta lei dizia: “Os primeiros estágios no desenvolvimento de um animal não são como os estágios adultos de outros animais inferiores na escala, mas são como as primeiras fases daqueles animais.”[4: p.40, 52] Assim, vemos que a pressão exercida pela teoria evolutiva sobre a teoria de Haeckel fez com ela prevalecesse sobre a de von Baer.

     Darwin, é claro, também acreditava na recapitulação. Ele escreveu em A Origem das Espécies que a evidência embrionária parecia mostrar que “os embriões das mais distintas espécies pertencentes à mesma classe são mais aproximadamente similares, mas se tornam, quando plenamente desenvolvidos, amplamente dissimilares”, um padrão que “revela a comunidade da descendência”.[5: p. 386-96; 6: p. 79] Ele pensou que os embriões em seu estágio inicial “nos mostram, mais ou menos completamente, a condição do progenitor de todo o grupo no seu estado adulto”.[7: p. 395] Dito de outra forma, Darwin acreditava que a semelhança de embriões de vertebrados nos seus estágios iniciais revelava sua suposta ancestralidade comum.

     Devido ao fato de não ser embriologista, Darwin se apoiou no trabalho de alguns biólogos. Ele citou, por exemplo, von Baer acerca da suposta ideia de que os embriões são mais parecidos em suas primeiras fases: “Os embriões de mamíferos, de aves, lagartos e cobras, provavelmente também de chelonia [tartarugas], estão em seus estados primários extremamente semelhantes entre si, ambos como um todo e no modo de desenvolvimento de suas partes; tanto, de fato, que muitas vezes podemos distinguir os embriões apenas pelo seu tamanho.”[8: p. 387-8] Entretanto, essa citação está totalmente fora de seu contexto original, visto que von Baer minimizava em seus textos a similaridade desses animais durante a ontogenia. Nesse sentido, é possível perceber que a recapitulação defendida por Darwin e Haeckel foi uma tentativa de aplicar a semelhança embrionária (homologia) em apoio da descendência comum. Apesar da falta de consistência da lei biogenética, e das muitas críticas fundamentadas de muitos renomados embriologistas contra essa suposta teoria, ela se popularizou, pois era muito atraente para os evolucionistas.

     Em seu livro Natürliche Schöpfungs-geschichte (A História Natural da Criação), publicado em alemão em 1868[9] e em inglês em 1876,[10] Haeckel usou uma série de desenhos que sustentavam sua teoria. Dentre esses desenhos estava um do 25º dia de um embrião de cachorro que tinha sido anteriormente publicado por T. L. W. Bischoff, em 1845, e um desenho da 4ª semana de um embrião humano, publicado em 1851-59 por A. Ecker.[11] Se não bastasse, Haeckel havia somado 3,5 mm ao desenho da cabeça do embrião de cachorro, desenhado por Bishoff, e subtraído 2 mm do desenho da cabeça do embrião humano desenhado por Ecker, dobrou a duração do posterior humano e alterou substancialmente os detalhes do olho humano.


     Em 1874, os desenhos de embriões de Haeckel foram provados falsos pelo famoso embriologista comparativo e professor de anatomia na Universidade de Leipzig, Wilhelm His.[11] Ele havia visto que os desenhos de Haeckel omitiam completamente os estágios iniciais, que são muito diferentes, e começava em um ponto, na metade do caminho do desenvolvimento, em que são mais similares. Em 1910, por sua vez, o jornal New York Times publicou uma reportagem que expôs a fraude de Haeckel e a popularizou.[12] Daí em diante, diversos cientistas criticaram tanto a teoria quanto os desenhos de Haeckel. Em 1976, o embriologista William Ballard escreveu que é “somente com o uso de truques semânticos e seleção subjetiva da evidência”, ao “dobrar os fatos da natureza”, que alguém pode argumentar que os estágios iniciais dos vertebrados são mais semelhantes que seus adultos.[13] Embora os desenhos de Haeckel tivessem sido denunciados como fraude pelos seus contemporâneos, e ele próprio tivesse confessado que uma pequena porcentagem de seus desenhos eram falsificações e, diante disso, condenado por um tribunal universitário (Universidade de Jena),[14] os livros didáticos de Biologia os usaram, ou as suas versões redesenhadas, ao longo do século 20, para convencer os estudantes de que os humanos partilham um ancestral comum com os peixes.
                                                                                                 
     Então, em 1997, uma publicação científica de autoria do embriologista Michael Richardson e colaboradores trouxe novamente à tona o trabalho meticuloso e fraudulento de Haeckel ao comprovar cientificamente a falsificação por meio da comparação de fotos reais dos embriões vertebrados com os desenhos de Haeckel.[15]  Em uma entrevista publicada na revista Science, o autor descreveu esse episódio como “uma das mais famosas fraudes em Biologia”.[16] Em 2000, o paleontólogo evolucionista de Harvard, Stephen Jay Gould, chamou os desenhos de Haeckel de “fraudulentos” e escreveu que os biólogos deveriam “ficar atônitos e envergonhados pelo século de reciclagem estúpida que resultou na persistência desses desenhos num grande número, se não na maioria dos livros didáticos modernos”.[17: p. 45] Apesar de toda essa exposição negativa, também no século 21 essa fraude continuou sendo compartilhada em seus livros didáticos.[18-20] Até recentemente, de igual modo, o Science Museum, em sua página virtual, resistia em retirar os desenhos de Haeckel.[21] A seguinte frase acompanhava os diagramas: “Parece que um eficiente processo de elaborar o plano corporal surgiu há milhões de anos, e permaneceu virtualmente inalterado através da evolução animal.”

     Então, em 2006, devido à pressão da Truth in Science (organização inglesa que apoia o design inteligente), enfim, o museu alterou o texto (retirou o termo “virtualmente”), e substituiu os desenhos de Haeckel por uma fotografia daquilo que parece ser um embrião. No entanto, na opinião da Truth in Science, eles deveriam sustentar o novo texto com fotografias atuais de embriões, de humanos e de ratos, na mesma fase de desenvolvimento, permitindo aos visitantes avaliar por eles mesmos as semelhanças e diferenças.[22]

     Atualmente, já se sabe que embriões de diferentes grupos de vertebrados não possuem semelhanças em suas fases iniciais de desenvolvimento.[23] Ok, isso está esclarecido! Mas como disse o biólogo evolutivo Walter Bock: “A lei biogenética tornou-se tão profundamente enraizada no pensamento biológico que não pode ser eliminada, apesar de ter sido demonstrado estar errada por numerosos estudiosos subsequentes.”[24] De fato, essa afirmação é suportada por evidências recentes. Uma versão moderna da recapitulação escrita por Jerry Coyne, por exemplo, alega que embriões “se parecem com as formas embrionárias de seus ancestrais”.[6: p. 78] Porém, uma vez que os embriões fósseis são extremamente raros,[25] essa alegação é mais uma especulação acerca da suposta ancestralidade comum baseada na suposição de veracidade da teoria de Darwin. É lamentável, mas o conto continua vivo!

(Everton Fernando Alves é enfermeiro e mestre em Ciências da Saúde pela UEM; seu e-book pode ser lido aqui)

Referências:[1] Robinson G. Ernst Haeckel. [Jul. 2014]. Encyclopaedia Britannica. Disponível em:http://global.britannica.com/EBchecked/topic/251305/Ernst-Haeckel

[2] Desmond A, Moore J. Darwin: The Life of a Tormented Evolutionist. United Kingdom: W. W. Norton & Company, 1991.

[3] Kischer CW. “The Final Corruption of Human Embryology.” [Fev. 2007] Lifeissues.net, 2007. Disponível em: http://www.lifeissues.net/writers/kisc/kisc_28corruption.html

[4] De Beer, Sir Gavin. Embryos and Ancestors. 3 ed., Londres: Oxford University Press, 1962.

[5] Darwin CR. The origin of species by means of natural selection, or the preservation of favoured races in the struggle for life. 6th edition. London: John Murray, 1872; with additions and corrections. Disponível em: http://darwin-online.org.uk/content/frameset?viewtype=side&itemID=F391&pageseq=415

[6] Coyne JA. Why Evolution Is True. New York: Viking Adult, 2009.

[7] Capítulo XIV: “Mutual Affinities of Organic Beings: Morphology - Embryology - Rudimentary Organs, Development and Embriology”, p. 395. In: Darwin CR. The origin of species by means of natural selection, or the preservation of favoured races in the struggle for life. 6th edition. London: John Murray, 1872; with additions and corrections. Disponível em: http://darwin-online.org.uk/content/frameset?pageseq=423&itemID=F391&viewtype=side

[8] Capítulo XIV: “Mutual Affinities of Organic Beings: Morphology - Embryology - Rudimentary Organs, Development and Embriology”, p. 387, 388. In: Darwin CR. The origin of species by means of natural selection, or the preservation of favoured races in the struggle for life. 6th edition. London: John Murray, 1872; with additions and corrections. Disponível em: http://darwin-online.org.uk/content/frameset?viewtype=side&itemID=F391&pageseq=415

[9] Haeckel E. Natürliche Schöpfungs-geschichte. Berlin:George Reimer, 1868; os desenhos podem ser vistos na página 240. Disponível em: https://archive.org/stream/natrlichesch1868haec#page/260/mode/2up

[10] Haeckel E. The History of Creation, or, the development of the earth and its inhabitants by the action of natural causes. New York: D. Appleton and Co, 1876, two volumes. Disponível em: http://catalog.hathitrust.org/Record/009549162

[11] Grigg R. “Ernst Haeckel: Evangelist for evolution and apostle of deceit.” Journal of Creation 1996; 18(2):33-36.

[12] “Accused of Fraud, Haeckel Leaves the Church.” [Nov. 1910]. The New York Times, 1910, Part V, p. 11. Disponível em: http://query.nytimes.com/mem/archive-free/pdf?_r=1&res=9A0DE6DF153BE733A25754C2A9679D946196D6CF&oref=slogin

[13] Wells J. “Survival of the Fakest.” American Spectator 2000; 33(10):18-26. Disponível em: http://www.unz.org/Pub/AmSpectator-2000dec-00018?View=PDF

[14] Ferrel V. “The Evolution Cruncher.” Altamont, TN: Evolution Facts, Inc., 2001.

[15] Richardson MK.  Hanken J, Gooneratne ML, Pieau C, Raynaud A,  Selwood L,  Wright et GM. “There is no highly conserved embryonic stage in the vertebrates: implications for current theories of evolution and development.” Anatomy and Embryology 1997; 196(2):91-106.

[16] Pennisi E. “Haeckel’s Embryos: Fraud Rediscovered.” Science. 1997; 277 (5331):1435.

[17] Gould SJ. “Abscheulich! Atrocious!” Natural History 2000; p. 42-49.

[18] Raven P, Johnson GB, Mason KA, Losos JB, Singer SS. Biology. 9 ed., New York: McGraw-Hill, 2011.

[19] Mader S. Inquiry Into Life. 13 ed., New York: McGraw-Hill, 2011.

[20] Prothero DR. Bringing Fossils to Life: An Introduction to Paleobiology. 3 ed., New York: Columbia University Press, 2013.

[21] Science Museum. Seção “Who am I?”, Londres, 2015. Disponível em:http://www.sciencemuseum.org.uk/on-line/lifecycle/24.asp

[22] “Science Museum takes down fake pictures.” [Dez. 2006]. Truth in Science, 2003. Disponível em: http://www.truthinscience.org.uk/tis2/index.php/news-blog-mainmenu-63/215-pictures-down.html

[23] Bininda-Emonds ORJeffery JERichardson MK. “Inverting the hourglass: quantitative evidence against the phylotypic stage in vertebrate development.” Proc Biol Sci. 2003; 270(1513):341-6.

[24] Bock WJ. “Evolution by Orderly Law.” Science. 1969; 164(3880):684-685.

[25] Morris SC. “Fossil Embryos.” p. 703-711. In: Stern CD (ed.). Gastrulation: From Cells to Embryos. Cold Spring Harbor, NY: Cold Spring Harbor Laboratory Press, 2004.


quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Por que Jesus Cristo não disse claramente: "Eu sou Deus"?

     
     Essa semana, assisti um vídeo onde um Muçulmano tenta humilhar uma católica, dizendo à ela, que os muçulmanos seguem mais à Jesus do que os próprios cristãos, apresentando versículos descontextualizados para "provar" que Jesus não é Deus e nunca pretendeu ser. A pergunta da jovem foi a seguinte: "se eu sou católica, então eu vou para o inferno?" A resposta dele, saindo pela tangente foi: "De acordo com o que penso, se você for uma boa cristã. Se você realmente segue os ensinamentos de Jesus [...] Você irá para o céu". Um líder islâmico dizendo isso pode parecer estranho, ou até blasfêmia! Mas se você continuar vendo o vídeo, irá perceber que para ser um verdadeiro seguidor de Jesus Cristo, na visão do muçulmano, você dever ser tornar um muçulmano. Isso mesmo! Um verdadeiro cristão, necessariamente deveria seguir os ensinamentos de Jesus e isso inclui se tornar um adepto do Islã! Ele argumenta que a igreja transformou Jesus em um ser divino e, segundo ele, não existe base Bíblica para defender a divindade do Senhor Jesus. Argumenta também que Ele jamais disse claramente ser Deus ou pretendeu que a Igreja assim interpretasse Suas palavras. E completou dizendo que se mostrassem à ele algum versículo inequívoco que provasse que Jesus afirmou ser Deus, ele se converteria ao cristianismo. 

     Mas será que ele está certo? Será que os primeiros discípulos interpretaram incorretamente as Palavras do Mestre e podemos jogar no lixo dois mil anos de Teologia cristã. Ou existe base bíblica para defendermos a divindade de Jesus? A intenção desse artigo não é fazer uma defesa exaustiva da divindade de Jesus, presente em toda Escritura, mas utilizar somente textos com as próprias Palavras de Cristo. Nesse artigo não vou refutar os versículos utilizados pelo muçulmano, pois senão a postagem ficará gigantesca, porém aos poucos todas as passagens descontextualizadas citadas por esse senhor serão refutadas em artigos posteriores. 

      Antes de continuar, é interessante pontuarmos o que realmente pensa o Islã em relação à Jesus (Issa). De fato, o islamismo professa grande respeito por Cristo. Muitos muçulmanos afirmam que Cristo é um dos mais poderosos profetas que precederam o maior profeta, Maomé. Admiram Cristo, mas não o adoram. Os muçulmanos acreditam que o único pecado imperdoável é associar alguém ou qualquer coisa com o Todo-poderoso. Portanto, a própria ideia da encarnação é anátema. Pensam que os cristãos pegaram um homem e o fizeram Deus [1]. Como diz Anderson: "Acham extremamente difícil perceber que o movimento no cristianismo não é para cima mas para baixo: não exaltando um homem e comparando-o com Deus, mas adorando um Deus que tornou-se homem”.[2]

"[...] O santo Alcorão fala de outra grande tribulação na forma da doutrina cristã relativa à divindade de Cristo. Nos mais fortes termos, o livro denuncia esta doutrina como a maior de todas as tribulações para a humanidade. [...] Por causa dela os céus podem quase ser rasgados, e a terra fendida, e as montanhas caírem em pedaços, e ainda por cima atribuem um filho para o beneficente! Assim a doutrina da divindade de Jesus, de acordo com o Alcorão, não pode ser designada a Cristo mas ao anticristo".[3] (grifo meu)

      Bom, mas ao contrário do que esse Senhor disse e, contrariando o título da minha postagem, Jesus disse sim, claramente que ele era Deus. Isso mesmo! Existem versículos inequívocos que relatam as falas de Jesus, assumindo a Sua divindade. Talvez não seja tão explícita para aqueles que desconsideram a exegese das passagens. Mas os Fariseus entenderam muita bem essa "blasfêmia". No Evangelho de João, lemos: 
"Respondeu Jesus: "Se glorifico a mim mesmo, a minha glória nada significa. Meu Pai, que vocês dizem ser o Deus de vocês, é quem me glorifica. Vocês não o conhecem, mas eu o conheço. Se eu dissesse que não o conheço, seria mentiroso como vocês, mas eu de fato o conheço e guardo a sua palavra. Abraão, pai de vocês, regozijou-se porque veria o meu dia; ele o viu e alegrou-se". Disseram-lhe os judeus: "Você ainda não tem cinqüenta anos, e viu Abraão? "Respondeu Jesus: "Eu lhes afirmo que antes de Abraão nascer, Eu Sou! "Então eles apanharam pedras para apedrejá-lo, mas Jesus escondeu-se e saiu do templo". (João 8:54-59) (grifo meu)
     Eu não consigo ver uma declaração mais explícita de divindade do que essa! E os Judeus entenderam muito bem o que Ele quis dizer, pois quiseram apedrejá-lo, de acordo com a Lei de Moisés (Levítico 24:16). A referência à Eu Sou no Antigo Testamento nos remete ao próprio Deus de Israel, o Senhor Javé, quando se apresenta a Moisés, na sarça: "Disse Deus a Moisés: "Eu Sou o que Sou. É isto que você dirá aos israelitas: Eu Sou me enviou a vocês". (Êxodo 3:14). (grifo meu). 

"Mas ele continuou: "Vocês são daqui de baixo; eu sou lá de cima. Vocês são deste mundo; eu não sou deste mundo. Eu lhes disse que vocês morrerão em seus pecados. Se vocês não crerem que Eu Sou, de fato morrerão em seus pecados". (João 8:23,24)

"Então Jesus disse: "Quando vocês levantarem o Filho do homem, saberão que Eu Sou, e que nada faço de mim mesmo, mas falo exatamente o que o Pai me ensinou." (João 8:28)

     Os ensinamentos de Jesus estão repletos de declarações Eu Sou, o que define claramente sua identificação como Javé (YHWH). 

      No Evangelho de Marcos, que segundo alguns especialistas, seria o mais antigo dos Evangelhos, nos traz a seguinte declaração de Jesus:
"Mas Jesus permaneceu em silêncio e nada respondeu. Outra vez o sumo sacerdote lhe perguntou: "Você é o Cristo, o Filho do Deus Bendito? "Sou", disse Jesus. "E vereis o Filho do homem assentado à direita do Poderoso vindo com as nuvens do céu". O sumo sacerdote, rasgando as próprias vestes, perguntou: "Por que precisamos de mais testemunhas? Vocês ouviram a blasfêmia. Que acham?" Todos o julgaram digno de morte. (Marcos 14:61-64)
       Porque será que o Sumo sacerdote ficou tão indignado com a declaração de Jesus? Só por que ele disse que era filho do Deus Bendito e filho do Homem? Talvez para um leitor que não se aprofundou no conhecimento bíblico, pode parecer uma declaração sem sentido. Mas para conhecedores profundos da Torá, como os Judeus, Jesus disse algo impensável para um homem: disse ser o próprio Deus.

    "Devemos nos lembrar de que os judeus não eram uma tribo de selvagens ignorantes, mas um povo de elevado nível cultural e de intensa vida religiosa; e foi com base nessa mesma acusação que, sem uma única voz discordante, Sua morte foi decretada pelo Sinédrio — o grande concilio nacional dos judeus, composto pelos seus mais destacados líderes religiosos, inclusive homens como Gamaliel e seu grande discípulo, Saulo de Tarso." [4]

 Vejamos de onde o Senhor tira essa declaração: 
"Na minha visão à noite, vi alguém semelhante a um filho de um homem, vindo com as nuvens dos céus. Ele se aproximou do ancião e foi conduzido à sua presença. A ele foram dados autoridade, glória e reino; todos os povos, nações e homens de todas as línguas o adoraram. Seu domínio é um domínio eterno que não acabará, e seu reino jamais será destruído." (Daniel 7:13,14) (grifo meu)
      A referência que Jesus fez, ao chamar a si por “Filho do Homem” encontra-se no livro de Daniel. E claramente esta referência profética trata de Sua divindade, como está muito claro no texto. A acusação contra Jesus era de blasfêmia. Assim, vemos que Jesus foi crucificado por ser quem Ele realmente era, por ser o Filho de Deus, ou seja, o próprio Deus. Um esboço de Seu testemunho deixará isso claro:

1. Ele era o Filho do Deus Bendito.
2. Ele era aquele que se sentaria à direita do Todo-poderoso.
3. Ele era o Filho do homem, que viria sobre as nuvens do céu. 

Diante disso William Child Robinson conclui que:
"Cada uma dessas (três) afirmações é caracteristicamente messiânica. Em termos messiânicos, essas afirmações têm um impacto potencializador de 'significado impressionante"'. Por sua vez, Herschel Hobbs reitera que: "O Sinédrio compreendeu as três questões. Eles as resumiram em uma única pergunta: 'És o Filho de Deus?' Essa pergunta aguardava uma resposta afirmativa. A pergunta equivalia a uma declaração da parte deles. Por isso Jesus simplesmente respondeu: 'Vós dizeis que eu sou'. De modo que Ele os fez admitirem Sua identidade antes que formalmente o declarassem réu de morte. Foi uma estratégia inteligente da parte de Jesus. Ele iria morrer com base em seu próprio reconhecimento de que era Deus, mas também com base no reconhecimento deles". "De acordo com eles não havia necessidade de qualquer outro testemunho, pois eles próprios haviam no ouvido dizer. De sorte que o condenaram pelas palavras da 'sua Própria boca'. Mas Ele também os condenou pelas palavras que pronunciaram. Não poderiam dizer que não declararam o Filho de Deus réu de morte."[5]
Em outra passagem, inequívoca, Jesus declara: "Eu e o Pai somos um". A reação foi imediata:

 "Novamente os judeus pegaram pedras para apedrejá-lo, mas Jesus lhes disse: "Eu lhes mostrei muitas boas obras da parte do Pai. Por qual delas vocês querem me apedrejar?" 

Então ouvimos a comprovação da nossa tese:

"Responderam os judeus: "Não vamos apedrejá-lo por nenhuma boa obra, mas pela blasfêmia, porque você é um simples homem e se apresenta como Deus". (João 10:30-33) (grifo meu)

     Irwin Linton, um advogado, traz esse detalhe à tona; quando declara: "Dentre os julgamentos de crimes cometidos, o de Jesus é sui generis, pois não são as ações, mas a identidade do acusado que está em questão. A acusação de crime feita contra Cristo, a confissão ou testemunho ou, melhor, o comportamento diante da corte, pelo qual Ele foi condenado, a pergunta feita pelo governador romano e a inscrição e proclamação colocadas sobre a cruz, na hora da execução, tudo isso diz respeito a uma só questão, a da verdadeira identidade e importância de Cristo.[6]

Prerrogativas Divinas      


Jesus também tem prerrogativas divinas, como perdoar pecados, por exemplo:
"Portanto, eu lhe digo, os muitos pecados dela lhe foram perdoados, pelo que ela amou muito. Mas aquele a quem pouco foi perdoado, pouco ama". Então Jesus disse a ela: "Seus pecados estão perdoados". Os outros convidados começaram a perguntar: "Quem é este que até perdoa pecados?"(Lucas 7:47-49) (grifo meu)
Ou Mateus:
"Entrando Jesus num barco, atravessou o mar e foi para a sua própria cidade. Alguns homens trouxeram-lhe um paralítico, deitado numa cama. Vendo a fé que eles tinham, Jesus disse ao paralítico: "Tenha bom ânimo, filho; os seus pecados estão perdoados"Diante disso, alguns mestres da lei disseram a si mesmos: "Este homem está blasfemando!"   (Mateus 9:1-3) (grifo meu)
       Alguém poderia dizer: Mas qualquer um pode dizer isso! Realmente. Dizer qualquer um pode. O problema é provar! De fato, o perdão é um milagre invisível que não pode ser verificado diretamente. Falar é fácil. Mas fazer um milagre físico que pode ser verificado objetivamente é mais difícil. Para provar que Ele tinha de fato esse poder, ele termina a frase:
"Conhecendo Jesus seus pensamentos, disse-lhes: Por que vocês pensam maldosamente em seus corações? Que é mais fácil dizer: ‘Os seus pecados estão perdoados’, ou: ‘Levante-se e ande’? Mas, para que vocês saibam que o Filho do homem tem na terra autoridade para perdoar pecados" — disse ao paralítico: "Levante-se, pegue a sua maca e vá para casa". Ele se levantou e foi." (Mateus 9:4-7)
     Como disse Erwin Lutzer: A argumentação de Cristo foi: “Que este milagre visível seja prova de que Eu tenho autoridade sobre o mundo invisível”[7]

     Lee Strobel, em seu livro “Em Defesa de Cristo”, em uma entrevista com o Dr. Donald A. Carson Ph.D., especialista em Novo Testamento e em diversas áreas teológicas, incluindo o estudo do Jesus histórico, ouviu a seguinte sentença: 
“De todas as coisas que Ele fez, a que mais me surpreende é o perdão de pecados (…). Se você faz alguma coisa contra mim, tenho o direito de perdoá-lo. Todavia, se você faz algo contra mim e aí vem uma pessoa e diz ‘eu lhe perdoo’, que ousadia é essa? A única pessoa capaz de pronunciar genuinamente essas palavras é Jesus, porque o pecado, mesmo se cometido contra outras pessoas, é, antes de tudo e principalmente, um desafio a Deus e às suas leis (…). Aparece então Jesus e diz aos pecadores: ‘os seus pecados estão perdoados’. Os judeus imediatamente viram nisso uma blasfêmia. Eles reagiram dizendo: ‘quem pode perdoar pecados, a não ser somente Deus?”[8]
      As afirmações são explícitas demais! Só não é para aqueles que não compreende a profundidade das afirmações de Jesus. C.S. Lewis ex-ateu e grande escritor cristão, resume muito bem:
 "O verdadeiro choque vem depois. Entre os judeus surge, de repente, um homem que começa a falar como se ele próprio fosse Deus. Afirma categoricamente perdoar os pecados. Afirma existir desde sempre e diz que voltará para julgar o mundo no fim dos tempos. Devemos aqui esclarecer uma coisa: entre os panteístas, como os indianos, qualquer um pode dizer que é uma parte de Deus, ou é uno com Deus, e não há nada de muito estranho nisso. Esse homem, porém, sendo um judeu, não estava se referindo a esse tipo de divindade. Deus, na sua língua, significava um ser que está fora do mundo, que criou o mundo e é infinitamente diferente de tudo o que criou. Quando você entende esse fato, percebe que as coisas ditas por esse homem foram, simplesmente, as mais chocantes já pronunciadas por lábios humanos." [9]
      No Antigo Testamento não vemos uma declaração que chegue sequer perto do que Jesus afirmou ser. Nem Abraão, Moisés, Davi ou qualquer um dos profetas, teve a "audácia" de dizer o que Cristo disse. Homens que receberam a Revelação de Deus, Reis, sacerdotes ou Juízes nunca fizeram alegações como a que Jesus fez. Em nenhuma outra grande religião monoteísta vemos algo semelhante. Thomas Schultz escreve que, conforme vemos, seguramente Ele não se encaixa dentro do molde de outros líderes religiosos: 
"Nenhum dos grandes líderes religiosos, nem Moisés, nem Paulo, nem Buda, nem Maomé, nem Confúcio, nem qualquer outro, alguma vez afirmou que era Deus; ou melhor, com a exceção de Jesus Cristo. Cristo é o único líder religioso que chegou a declarar a sua divindade e o único indivíduo que convenceu uma grande parte do mundo de que era Deus" [10]

Um pouco mais de referências:


 "Pois o Filho do homem é Senhor do sábado". (Mateus 12:8)

 "Por essa razão, os judeus mais ainda queriam matá-lo, pois não somente estava violando o sábado, mas também estava até mesmo dizendo que Deus era seu próprio Pai, igualando-se a Deus." (João 5:18)

"Pois, da mesma forma que o Pai ressuscita os mortos e lhes dá vida, o Filho também dá vida a quem ele quer dá-la. Além disso, o Pai a ninguém julga, mas confiou todo julgamento ao Filho, para que todos honrem o Filho como honram o Pai. Aquele que não honra o Filho, também não honra o Pai que o enviou"Eu lhes asseguro: Quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna e não será condenado, mas já passou da morte para a vida. Eu lhes afirmo que está chegando a hora, e já chegou, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e aqueles que a ouvirem, viverão. Pois, da mesma forma como o Pai tem vida em si mesmo, ele concedeu ao Filho ter vida em si mesmo. E deu-lhe autoridade para julgar, porque é o Filho do homem. "(João 5:21-27)


"Então lhe perguntaram: "Onde está o seu pai? " Respondeu Jesus: "Vocês não conhecem nem a mim nem a meu Pai. Se me conhecessem, também conheceriam a meu Pai". (João 8:19)

"Não se perturbe o coração de vocês. Creiam em Deus; creiam também em mim". (João 14:1)

"Respondeu Jesus: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai, a não ser por mim." (João 14:6)

"Jesus respondeu: "Você não me conhece, Filipe, mesmo depois de eu ter estado com vocês durante tanto tempo? Quem me vê, vê o Pai. Como você pode dizer: ‘Mostra-nos o Pai’?" (João 14:9)

"E agora, Pai, glorifica-me junto a ti, com a glória que eu tinha contigo antes que o mundo existisse." (João 17:5)

Concluo com as memoráveis palavras de C.S. Lewis:
“Com isso, tento evitar que alguém caia na suprema tolice em que muitas vezes se incorre a respeito de Cristo: ‘Sim, estou disposto a aceitar que Jesus foi um grande mestre de moral, mas não aceito a sua pretensão de ser Deus’. Esta é a única afirmação que não podemos fazer. Um homem que não fosse senão um homem, e mesmo assim dissesse aquilo que Cristo dizia, não poderia nunca ser um ‘grande mestre de moral’. Ou seria um lunático – em pé de igualdade com alguém que afirmasse ser um ovo frito -, ou então teria de ser o próprio demônio das profundezas do inferno. Cada um de nós tem que fazer a sua escolha. Ou esse homem era, e é, o Filho de Deus, ou então era um louco ou coisa pior. Você poderá recluí-lo num hospício por acha-lo maluco, cuspir nEle e mata-lo por considera-lo um demônio, ou cair a seus pés e chamar-lhe Senhor e Deus. Só não pode vir com tolices condescendentes como essa de que é um dos ‘grandes mestres de moral’ da humanidade. Ele não nos deixou aberta essa porta. Nunca pretendeu faze-lo”. [11]
        Se Ele não foi Deus, foi um lunático, enganador, pecador, mentiroso e o mais vil de todos os homens, que se enganou quanto a Sua pessoa e sua missão. Que iludiu seus seguidores, pois simplesmente não poderia cumprir as Suas promessas de conceder Vida eterna aqueles que nEle cressem.

       Porém, podemos ter a plena convicção de que Jesus, o Nosso Senhor é a segunda Pessoa da Trindade Santa, Eterno, pois "Jesus Cristo é o mesmo, ontem, hoje e para sempre." (Hebreus 13:8) e o nosso eterno Redentor, "ou seja, que Deus em Cristo estava reconciliando consigo o mundo, não lançando em conta os pecados dos homens, e nos confiou a mensagem da reconciliação." (2 Coríntios 5:19) e "sabemos também que o Filho de Deus veio e nos deu entendimento, para que conheçamos aquele que é o Verdadeiro. E nós estamos naquele que é o Verdadeiro, em seu Filho Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna." (1 João 5:20) (grifo meu)


Digno de adoração

"Então olhei e ouvi a voz de muitos anjos, milhares de milhares e milhões de milhões. Eles rodeavam o trono, bem como os seres viventes e os anciãos, e cantavam em alta voz: "Digno é o Cordeiro que foi morto de receber poder, riqueza, sabedoria, força, honra, glória e louvor! " Depois ouvi todas as criaturas existentes no céu, na terra, debaixo da terra e no mar, e tudo o que neles há, que diziam: "Àquele que está assentado no trono e ao Cordeiro sejam o louvor, a honra, a glória e o poder, para todo o sempre! " Os quatro seres viventes disseram: "Amém", e os anciãos prostraram-se e o adoraram. (Apocalipse 5:11-14) 
"E ainda, quando Deus introduz o Primogênito no mundo, diz: "Todos os anjos de Deus o adorem". (Hebreus 1:6)
 "Disse-lhe Tomé: "Senhor meu e Deus meu! " (João 20:28) (grifo meu)
       Portanto não existe dúvida: Jesus reivindicou Sua autoridade Divina e nos deu provas incontestáveis de que era o próprio Deus, assim como quis que essa fosse a interpretação dos seus discípulos e de toda a Igreja.

Paz do Senhor Jesus à todos
Prof. Saulo Nogueira

Referências: 

[1] LUTZER, Erwin E. Cristo entre outros deuses. São Paulo: CPAD, 2000, p. 113
[2] J. N. D. Anderson, Christianity and Comparative Religion (Downers Grove: InterVarsity, 1970), p. 49.
[3] Moslem Society of U.S.A. (Chicago: Heaven On Earth Publications, s.d.).
[4] MCDOWEL, Josh. Evidência que exige um veredito. São Paulo:Candeia, 1996, p. 87
[5] Ibid; p. 87
[6] Ibid; p. 86
[7] LUTZER, Erwin E. Ibid; p. 102
[8] STROBEL, Lee. Em defesa de Cristo. São Paulo: Vida, 2001 p. 166
[9] LEWIS, C.S. Cristianismo puro e simples. São Paulo: Martins Fontes, 2005, p. 24.
[10] MCDOWEL, Josh. Ibid; p. 85
[11] LEWIS, C.S. Ibid; p. 24.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

O Islamismo é uma religião de paz?

Nenhuma religião admite a matança de inocentes”. – Barack Obama, presidente dos Estados Unidos, 10 de setembro de 2014.

O islamismo é uma religião de paz”. – David Cameron, primeiro-ministro do Reino Unido, 13 de setembro de 2014.

Existe um lugar para a violência no islamismo. Existe um lugar para a jihad (guerra santa) no islamismo”. – imã Anjem Choudary, do Reino Unido, CBN News, 5 de abril de 2010.

       Lamentavelmente, é impossível reinterpretar o Corão de uma maneira “moderada”. A interpretação moderna mais famosa, de Sayyd Qutb (morto em 1966), ideólogo da Fraternidade Muçulmana, leva o leitor cada vez mais ao território político, no qual a jihad é a raiz da ação. Somente na Índia, entre 60 e 80 milhões de hindus podem ter sido assassinados pelos exércitos muçulmanos entre os anos 1000 e 1525. Antes que o Estado Islâmico decapitasse o terceiro ocidental, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, anunciou que: “O ISIL não é islâmico. Nenhuma religião admite a matança de inocentes”. Bem, não exatamente!

       Com que freqüência – a despeito do atual espetáculo do Estado Islâmico [EI, IS, ISIL ou ISIS] na Síria e no Iraque – ouvimos os políticos ou os líderes eclesiásticos dizendo que o islamismo é uma religião de paz; que o extremismo islâmico é uma inovação moderna, um profundo desvio de algum “verdadeiro” islamismo imaginado, e até mesmo que seu próprio nome, a palavra “islã”, significa “paz”! Não são apenas os muçulmanos que dizem que o islamismo é uma religião de paz: alguns políticos ocidentais e líderes eclesiásticos também repetem isso. Foi o que enfatizou o primeiro-ministro britânico, David Cameron, no dia 13 de setembro de 2014, na BBC, em resposta à decapitação pelo ISIS do agente humanitário britânico David Haines.

     O ex-presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, disse[1] o mesmo mais de uma vez,[2] inclusive em um discurso[3] que fez no dia 7 de setembro de 2001. Da mesma forma, o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair afirmou: “Não existe um problema com o islamismo. Para aqueles dentre nós que o estudamos, não há dúvida sobre sua natureza verdadeira e pacífica”.[4] O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, não questionava nada antes, assim como não questiona nada agora. Em novembro de 2010, em Mumbai, na Índia, ele disse: “A religião [o islamismo] ensina a paz, a justiça, a imparcialidade e a tolerância. Todos nós reconhecemos que essa grandiosa religião não pode justificar a violência”.[5] O papa Francisco I fez declarações semelhantes: “Tendo-nos deparado com episódios desconcertantes de fundamentalismo violento, nosso respeito aos verdadeiros seguidores do islamismo deveria nos levar a evitar generalizações odiosas, pois o islamismo autêntico e a leitura adequada do Corão se opõem a toda forma de violência”.[6]

       O islamita britânico Anjem Choudary, entretanto, em uma entrevista à CBN News,[7] em 2010, rejeitou categoricamente tais interpretações do islamismo: Não se pode dizer que o islamismo seja uma religião de paz”, disse ele. “Porque islã não significa paz. Islã significa submissão. Portanto, o muçulmano é uma pessoa que se submete. Existe um lugar para a violência no islamismo. Existe um lugar para a jihad no islamismo”. Choudary está certo. Embora a palavra árabe para paz, salam, e a palavra árabe para submissão, islam, venham da mesma raiz de três consoantes, elas têm significados bastante distintos e vêm de diferentes formas verbais. Ninguém que saiba a língua árabe cometeria o erro de tomar uma palavra pela outra. Islã não significa “paz”. Islã significa “submissão”. Sua raiz, salam, significa paz, mas não no sentido ocidental da palavra. A palavra significa a paz que prevalecerá no mundo assim que a humanidade se converter ao islã, embora ainda esteja em discussão a qual das suas ramificações.[8]

       O curioso é que ninguém, que eu saiba, tem colocado muita ou qualquer ênfase na história inicial do islamismo. Por qualquer critério, essa história inicial demonstra tristemente que o islamismo jamais foi uma religião de paz e que os jihadistas modernos, especialmente os salafistas, buscam sua inspiração diretamente nas ações das primeiras três gerações da fé: os “salaf” (antepassados/ancestrais), os companheiros do profeta, seus filhos e seus netos. O que é preocupante, ou deveria ser, é que essas figuras servem como modelos construtivos para os muçulmanos atualmente. O Corão está repleto de injunções para lutar a jihad; os próprios radicais modernos dizem que tiram sua inspiração de lá. Há estimativas de cerca de 164 versos sobre ajihad[9] no Corão. E esses não incluem inúmeras passagens ordenando ou descrevendo a guerra santa na Hadith, ou seja, na biografia do profeta. Alguns exemplos (traduções do autor) incluem:

Deixem que aqueles que vendem a vida deste mundo pela vida por vir lutem da maneira de Deus; quer ele seja morto ou viva vitoriosamente, lhe daremos uma poderosa recompensa” (4.74).

Lançarei medo nos corações dos incrédulos. Portanto, cortem a cabeça deles e cortem as pontas de todos os dedos deles” (8.12).

Matem os incrédulos onde quer que vocês os encontrem; levem-nos cativos e os deixem sitiados; e montem tocaias contra eles, fazendo-os cair em emboscadas” (9.5).

       Lamentavelmente, é impossível reinterpretar o Corão de uma maneira “moderada”. A mais famosa tafsir (interpretação) moderna do livro sagrado é uma obra de vários volumes intitulada In the Shade of the Qu’ran [À Sombra do Corão]. Ela foi escrita por Sayyd Qutb (morto em 1966), ideólogo da Fraternidade Muçulmana, freqüentemente considerado como o pai do moderno radicalismo. Sua interpretação leva o leitor cada vez mais ao território político, no qual a jihad é a raiz da ação.

       O Corão contém muitos versos pacíficos e moderados, e esses poderiam muito bem ser usados para criar uma reforma genuína – alguma coisa que vários reformadores sinceros tentaram fazer. Mas há algo que chama a atenção. Todos esses versos moderados foram escritos na fase inicial da carreira de Maomé, quando ele morava em Meca e aparentemente tinha decidido seduzir as pessoas. Quando se mudou para Medina, em 622 d.C., tudo mudou. Logo ele se tornou um líder religioso, político e militar. Durante os dez anos seguintes, como suas propostas religiosas às vezes não eram bem-vindas, seus versos pacíficos deram lugar aos versículos da jihad e aos seus discursos (ou conversações filosóficas) intolerantes contra os judeus, os cristãos e os pagãos. Quase todos os livros de tafsir pressupõem que os versos escritos mais tarde revogam os que foram escritos mais cedo. Isto significa que os versos pregando amor por todos já não são mais aplicáveis, exceto com relação aos companheiros muçulmanos. Os versos que ensinam a jihad, a submissão e as doutrinas relacionadas continuam formando a base para a abordagem de muitos muçulmanos aos não-crentes.

     Um problema é que ninguém pode mudar o Corão de forma nenhuma. Se o livro contém a palavra direta de Deus, então a remoção de um simples til ou de um ponto acima ou abaixo de uma letra seria uma blasfêmia da pior espécie.[10] Qualquer mudança sugeriria que o texto na terra não combina com a tábua no céu – a “Mãe do Livro”, da forma como Maria é a Mãe de Cristo – pois esse é o Corão original eterno. Se um ponto pudesse ser mudado, talvez outros pudessem ser mudados, e palavras longas poderiam ser substituídas por outras palavras. O próprio Corão condena os judeus e os cristãos por terem manipulado seus livros sagrados, de forma que nem a Torá nem os Evangelhos podem ser considerados como a Palavra de Deus. O Corão nos pega em uma armadilha por sua absoluta imutabilidade.

       O pecado que ataca os políticos, líderes eclesiásticos e multiculturalistas ocidentais modernos é sua pronta aceitação da ignorância e a promoção de sua própria ignorância à categoria de erudição. O islã é um dos tópicos mais importantes da história humana, mas quantas crianças ouvem detalhes como os mencionados acima em suas aulas de história? Quantos livros-texto pintam uma figura honesta sobre como o islamismo começou e como ele teve continuidade como um pano de fundo para a maneira que ele prossegue hoje? Além disso, a quantos verdadeiros especialistas é negado o contato com governos e políticos para que mentiras não se tornem a base de decisões governamentais no Ocidente? Quantas vezes a verdade será sacrificada por causa de fábulas, enquanto os extremistas muçulmanos bombardeiam, atiram e decapitam em seu caminho para o poder?

       Esses fatos não vêm de relatos modernos do Ocidente; eles estão lá nos textos que alicerçam o islamismo, nas histórias de al-Waqidi e de al-Tabari. Ninguém está inventando isso. Os muçulmanos que evitam sua própria história deveriam ser confrontados por ela em todas as futuras discussões. Infelizmente, até muitos muçulmanos moderados ainda falham em ver a realidade por detrás de alguns aspectos elementares de sua própria religião. Logo após os atentados em Londres, em 7 de julho de 2005, o jornal The Guardian perguntou a várias pessoas sobre suas visões a respeito dos ataques. Um jovem e simpático líder muçulmano disse que ficou horrorizado com os assassinatos cometidos por quatro de seus correligionários. Ele afirmou que, se pelo menos os jovens lessem o Corão, eles se voltariam contra todas as formas de extremismo violento. Todos os combatentes jihadistas do mundo constantemente lêem e citam o Corão, onde eles encontram mais do que suficientes justificativas para os ataques violentos contra os não-muçulmanos, apóstatas e “hipócritas” (munafiqun – uma palavra tomada diretamente do Corão, significando algo semelhante a apóstatas, ou pessoas que abandonaram a fé).

       Não considerando o Corão, os seis livros do Hadith e a biografia do profeta (o Sira) representam um mundo nascido em violência. Maomé, depois de mudar sua residência para Medina, levou seus seguidores a batalhas e a ataques a áreas tribais. Ele lutou em conflitos importantes como as batalhas de Badr, Uhud e al-Khandaq. Ibn Ishaq, seu biógrafo, diz que ele lutou em vinte e sete batalhas. Além disso, ele enviou tenentes a caravanas de invasão – as invasões são conhecidas como ghazwat. Cerca de 100 dessas invasões aconteceram principalmente para chamar os árabes ao islamismo. Se eles se desviassem da fé verdadeira, os “apóstatas”, como os pagãos, deveriam ser combatidos até aceitarem o islamismo ou serem mortos – como estamos vendo atualmente no Estado Islâmico (EI). Maomé ordenou e apoiou cerca de quarenta e três assassinatos de oponentes, inclusive de vários poetas, que o haviam desafiado em versos. Mais conhecidas são suas represálias contra três tribos judaicas, duas das quais foram expulsas de Medina, enquanto que os homens da terceira, a Banu Qurayza, foram condenados à morte por Sa’d ibn Mu’adh, cujo julgamento foi endossado por Maomé. Mais de 900 homens da tribo – inclusive meninos de treze anos para cima – foram decapitados; as mulheres e crianças foram vendidas como escravas, ou algumas das mulheres foram feitas concubinas dos homens muçulmanos.[11] O período de Medina não foi nada mais do que rodadas de violência sobre violência, todas ordenadas e realizadas pelo “Profeta da Paz”.

       Maomé morreu no ano 632 d.C., e deveria ser sucedido por seu sogro Abu Bakr (morto em 634), tido pelos sunitas como o primeiro califa, ou por seu genro Ali, tido pelos xiitas como o primeiro dos doze imãs – desta forma provocando o primeiro cisma do islamismo, entre os sunitas e os xiitas, nos dias da morte de Maomé. A primeira tarefa à qual Abu Bakr se dedicou como califa foi lançar uma série de ataques através da Península Arábica. As tribos dos beduínos, que tinham seguido seu costume de suprimir sua lealdade quando o líder de uma tribo associada morresse, aparentemente creram que sua fidelidade ao islamismo havia terminado quando Maomé partiu deste mundo. Abu Bakr tratou isto como uma apostasia e enviou aliados para forçarem os homens das tribos a voltarem para o aprisco do islamismo. Essas Guerras dos Ridda resultaram em quinze batalhas. Quando as coisas tinham sossegado, Abu Bakr enviou exércitos muçulmanos para conquistarem o Iraque (uma província do Império Persa Sassânida) e o Levante (parte do Império Bizantino Cristão). Quando Abu Bakr, já um homem velho, morreu de febre, em agosto de 634 d.C., foi sucedido por Umar ibn al-Khattab (morto em 644). Sob seu governo, o Império Sassânida inteiro e dois terços do Império Bizantino foram conquistados pelo islamismo. Batalha após batalha, derramamento de sangue após derramamento de sangue. Em 644 d.C., um grupo de persas, irados por causa da conquista, conspirou para matar Umar e foi bem sucedido quando um ex-escravo, mais conhecido como Abu Lu’lu’, o assassinou durante as orações.

     Embora o terceiro dos quatro “Califas Corretamente Guiados”, Uthman ibn Affan (morto em 656), já estivesse com 65 anos em sua ascensão, durante seu reinado aconteceram batalhas para conquistar ou alinhar a metade do mundo conhecido. Suas conquistas se estenderam até o Paquistão moderno, o Irã, o Afeganistão, o Azerbaijão, o Daguestão, o Turcomenistão e a Armênia. A Sicília e Chipre foram capturadas. Os exércitos islâmicos entraram no Norte da África e mais tarde na Península Ibérica e no Sul da Itália. Já no final de sua vida, entretanto, Uthman tornou-se impopular para muitos. Medina, onde ele tinha sua capital, tornou-se um ninho de intrigas e distúrbios. Em 656, uma revolta armada teve início e 1.000 rebeldes, com ordem para assassinar o califa, partiram do Egito para Medina. Alguns entraram em sua casa e o assassinaram; depois, os defensores do califa se voltaram contra os rebeldes e a luta armada estourou. A religião da paz continuava em marcha. Uthman foi seguido pelo genro de Maomé, Ali (morto em 661), o último dos quatro Califas Rashidun (Guiados Corretamente). Quase que imediatamente, Ali foi envolvido em uma rixa que terminou em guerra civil. Ele enfrentou a esposa do profeta, A’isha, na Batalha do Camelo em 656, quando 10.000 foram mortos. Ele também enfrentou as forças de Mu’awiya (mais tarde o primeiro dos Califas Omíadas) em Siffin (657), onde Ali perdeu 25.000 homens e Mu’awiya perdeu 45.000. Ali foi assassinado em sua capital, Kufa, por um muçulmano extremista, durante as orações, em 661.

      Os omíadas tomaram o poder e estabeleceram sua capital de longa duração, Damasco. Mas a violência prosseguiu rapidamente. Em 680, quando Yasid (morto 683), filho de Mu’awiya, assumiu o califado, um neto de Maomé, Husayn, filho de Ali, rebelou-se e levantou forças para atacar Yazid. Os dois lados se encontraram em Karbala, em 680. Na luta, Husayn, sua família e seus seguidores, todos pereceram. Isto marca o momento mais crucial na cisão entre a minoria xiita (para quem Husayn é o terceiro dos imãs) e a maioria sunita. O restante da história islâmica é marcada pelas jihads anuais, guerras entre diferentes governos e impérios muçulmanos. Somente na Índia, entre sessenta e oitenta milhões de hindus podem ter sido assassinados durante os séculos de invasões dos exércitos muçulmanos, desde o ano 1000 até o ano 1525.[12] Será que isso é algo que deva ser esquecido? Enquanto o Corão estiver nas prateleiras de todas as mesquitas e livrarias muçulmanas, homens e mulheres jovens, em suas thawbs e hijabs, podem encontrar nele a perfeita justificativa para continuarem suas empreitadas no caminho da jihad e da matança de inocentes.

(Denis MacEoin – www.gatestoneinstitute.org – Beth-Shalom.com.br)

Nota sobre o autor: Denis MacEoin se formou com um B.A. e um mestrado em Língua Inglesa e Literatura no Trinity College, Dublin (Irlanda), seguido por um segundo M.A. de 4 anos em persa, árabe e Estudos Islâmicos em Edimburgo e um doutorado em Estudos Persas/Islâmicos em Cambridge (Grã-Bretanha). Ele lecionou Estudos Árabes e Islâmicos na Universidade de Newcastle, escreveu vários livros e numerosos artigos acadêmicos, bem como muitos textos jornalísticos. Recentemente, produziu relatórios sobre literatura de ódio, a sharia (lei islâmica), e as escolas islâmicas.

Notas:
[1] http://georgewbush-whitehouse.archives.gov/news/releases/2001/09/20010917-11.html

[2] http://www.danielpipes.org/blog/2007/10/bush-returns-to-the-religion-of-peace

[3] https://www.youtube.com/watch?v=9–ZoroJdVnA

[4]http://www.westcoasttruth.com/western-dhimmi-politicians–-the-black-heart-series-by-ralph-ellis.html

[5] http://www.hindustantimes.com/india-news/mumbai/islam-great-but-distorted-by-few-extremists-obama/article1-623013.aspx

[6] http://exlaodicea.wordpress.com/2014/01/10/pope-francis-and-the-religion-of-peace/

[7]http://www.cbn.com/cbnnews/world/2010/March/UK-Muslim-Leader-Islam-Not-a-Religion-of-Peace/

[8]http://www.religioustolerance.org/faisal01.htm;?http://www.al-islami.com/islam/religion–of–peace.php;http://d1.islamhouse.com/data/en/ih–books/single/en–Islam–Is–The–Religion–Of–Peace.pdf;http://www.studymode.com/essays/Islam-a-Religion-Of-Peace-212736.html

[9] http://www.answering-islam.org/Quran/Themes/jihad–passages.html

[10] O ponto, ou nuqta, é de enorme importância no xiismo, pois o imã Ali afirmou que ele é o ponto debaixo da letra b no início da primeira palavra do Corão, bismillah, o que faz dele o primeiro de todos os seres criados. Seitas tais como os Nuqtavis e os Babis no Irã têm atribuído significados profundos a isso. Pode ser um ponto, mas ele pode significar um mundo de coisas.

[11] Ver William Montgomery Watt. Muhammad at Medina [Maomé em Medina], pp. 208-216, Oxford, 1956, o estudo definitivo sobre esse período. O autor foi aluno de Watt nos anos 1970.

[12] K.S. Lal. Growth of Muslim Population of Medieval India (1000-1800) [O Crescimento da População Muçulmana da Índia Medieval (1000-1800) ].

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Cientistas têm classificado símios como hominídeos

       [Os comentários entre colchetes são do jornalista Michelson Borges] Uma parte crucial da árvore genealógica da espécie humana virou um saco de gatos, uma bagunça completa, argumentam dois respeitados paleoantropólogos americanos. O problema é o conjunto de espécies hoje classificadas no gênero Homo, grupo ao qual pertence, é claro, o Homo sapiens, ou seja, o ser humano de anatomia moderna, e seus primos europeus extintos, os neandertais. É verdade que, nesses dois casos, não há grandes dúvidas – tanto que análises de DNA revelaram episódios de miscigenação entre humanos modernos e neandertais [claro, porque eram todos humanos]. Para Jeffrey Schwartz, da Universidade de Pittsburgh, e Ian Tattersall, do Museu Americano de História Natural, no entanto, a coisa fica feia quando o objetivo é entender formas mais arcaicas de ancestrais da humanidade. Escavações na África e em outros lugares do mundo revelaram um minizoológico dessas criaturas – há o H. habilis, o H. rudolfensis, o H. ergaster, o H. erectus e formas mais misteriosas, conhecidas simplesmente como “Homo primitivo”, isso sem falar em alguns outros nomes científicos que acabaram não pegando [aí estamos falando de fragmentos de ossos de macacos que os darwinistas querem sempre promover a “elo perdido”]. Tais nomes científicos designam fósseis que viveram num intervalo relativamente curto do tempo geológico – grosso modo, entre 2,5 milhões e 1,5 milhão de anos atrás [segundo a cronologia evolucionista].

     Em artigo na última edição da revista especializada Science, Schwartz e Tattersall defendem que esse milagre da multiplicação da nomenclatura foi longe demais [milagre a Science ter publicado um artigo tiro no pé como esse...]. Boa parte dos fósseis [...] não deveria estar no gênero Homo, dizem eles. “Monofilético” é a palavra-chave, disse Tattersall à Folha. O termo, empregado em estudos sobre o parentesco evolutivo entre seres vivos, designa um grupo que inclui uma espécie ancestral e todos os seus descendentes. O indício-chave desse parentesco são (prepare-se para outro palavrão em grego) as chamadas sinapomorfias, que não passam de características compartilhadas por todos os membros do grupo – e apenas entre eles.

      Gêneros de seres vivos, como o Homo, precisam ser grupos monofiléticos. Embora não haja uma regra estrita sobre quão inclusivos eles podem ser (ou seja, sobre a diversidade de espécies que podem “caber” dentro de um gênero), de modo geral um gênero congrega espécies de parentesco bastante próximo. Um exemplo que ajuda a entender isso no caso de mamíferos como nós é o do gênero Panthera, que congrega, entre outros, onças-pintadas, leopardos, leões e tigres [convenhamos, muito mais semelhantes entre eles do que macacos e humanos].

     A principal ferramenta usada ainda hoje pelos cientistas para classificar espécies (ainda vivas ou extintas) em gêneros é a semelhança anatômica ou morfológica. “Uma vez que o gênero Homo necessariamente tem de abrigar o H. sapiens, o jeito óbvio de organizar as coisas é partir dessa espécie e ver quais formas extintas formam um agrupamento monofilético e morfologicamente unificado com ele”, explica Tattersall. Para ele, porém, não é o que anda sendo feito. “Os paleoantropólogos têm simplesmente enfiado fósseis mais e mais antigos [ou muito diferentes de nós] no gênero sem se preocupar muito com a questão da morfologia. Em vez de fazer as coisas com cuidado, os trabalhos seguem o desejo de descobrir o ‘Homo mais antigo’, o que não dá muito certo.” [E por que fazer isso? Para ter seus quinze minutos de fama, promovidos por alguma publicação científica ou pela mídia popular, que adora publicar matérias sensacionalistas sobre nossos supostos ancestrais.] Segundo ele, essa corrida acabou praticamente abandonando a busca por sinapomorfias, ou seja, traços capazes de unir de forma coerente os fósseis classificados como Homo.

       De fato, existe uma enorme diversidade entre os primatas extintos hoje incluídos no gênero: há desde tampinhas (com 1,40 m de altura ou menos) de cérebro pouco maior que o de um chimpanzé, como o Homo habilis, até criaturas que fabricavam ferramentas relativamente complexas e tinham o corpo alto e esguio de um maratonista queniano, caso de alguns exemplares do Homo erectus. [Veja quanta diferença agrupada aleatoriamente num mesmo grupo.] Outros cientistas, como Esteban Sarmiento, da Fundação Evolução Humana (EUA), dizem que tal tendência tem levado cientistas mais afoitos a enxergar hominídeos em toda parte [Uau! É exatamente o que nós criacionistas temos dito há muito tempo. Mas quem ouve os criacionistas?] - certos fósseis na verdade seriam de grandes macacos primitivos. “Existe um desejo subliminar de enxergar certos fósseis como hominídeos”, pondera Tattersall. “Nós, por exemplo, descobrimos que muitos dentes do Extremo Oriente atribuídos ao Homo erectus poderiam ser interpretados de forma mais razoável como pertencentes a primos dos orangotangos [pois é...]. O status de hominídeo de algumas formas africanas muito antigas chegou a ser contestado.”

     Diante do aparente impasse, o que fazer? A sugestão de Schwartz e Tattersall é simples: começar de novo, praticamente do zero. Eles defendem que é preciso reanalisar cuidadosamente a morfologia de cada fóssil de hominídeo e, a partir daí, propor agrupamentos novos e mais coerentes. [Será que os editores de livros e revistas darão o braço a torcer e estarão dispostos a enviar para a reciclagem de papel tudo o que já foi publicado e continua em circulação? Por quanto tempo mais os livros didáticos vão apresentar a hipotética “árvore evolutiva” humana como um “fato confirmado”? Quantas pessoas ainda serão ensinadas a respeito disso e continuarão crendo que temos ancestrais simiescos?]

     Segundo eles, isso quase certamente levará os especialistas a jogar na lata do lixo da nomenclatura paleontológica vários dos nomes científicos que são populares hoje; ao mesmo tempo, novos gêneros deverão ser criados para acomodar os hominídeos “sem-teto”. [E de novo deverá entrar em cena muita especulação, muita imaginação e muito trabalho de pintores e escultores.] [...]


Nota do Blog: Pois é, quantas certezas indo por água a baixo. Existe uma pressão tão grande por publicações, que alguns cientistas no afã de mostrarem seus resultados "conclusivos" se precipitam com as suas "especulações". A ciência não é onipotente, claro, e grande parte dos cientistas sabem disso. Mas às vezes parecem ignorar esse fato e praticamente a tornam uma divindade. Como diz Enézio de Almeida: "Alguém me belisque, mas é assim que caminha o fato, Fato, FATO da evolução de um Australopithecus afarensis se transmutar em antropólogo amazonense - sem evidências, mas muito desejo subliminar".

Pobre ciência!


Prof. Saulo Nogueira